[HQ] Soberbo e Altivo Coração

Saudações! Trago uma novidade: eu participei da produção de uma HQ! É isso mesmo, agora posso incluir minha primeira experiência como roteirista no currículo. E por falar em currículo, escrever “Soberbo e Altivo Coração” exigiu uma pesquisa histórica extensa, a começar pelo título que é referência à Camões. Mas acho que já falei demais, confiram a história de D. Heitor (o protagonista ser meu xará não foi ideia minha! Até porque ele é um Cavaleiro Sagrado, e eu sou um Escritor Ateu…).

p.s: cliquem na imagem para ampliar.

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Andarilho dos Sonhos #3

Vamos esquecer as paradas que Freud e derivados teorizaram sobre os sonhos. Tentarei defini-los a partir de minha experiência pessoal. Acredito que eles funcionem da seguinte forma: há um “tecido imaginário” – no caso, a ideia do sonho em si -, e este tecido se reveste das referências e preocupações armazenadas em nosso subconsciente. Em uma experiência lúcida, é possível alterar a ordem dos acontecimentos e o próprio cenário a partir do momento em que o sonhador percebe esta “pele” por cima da imaginação.

Ao menos, foi assim que eu aprendi a me defender das partes mais aterradoras. No momento é mais fácil de eu explicar como funciona este mecanismo, pois a visão da última madrugada (30/01/2016) ainda está fresca. Nela, eu fazia parte de um grupo de refugiados em um abrigo escondido magicamente; a única forma de entrar e sair era com um punhado de terra do próprio refúgio. Atirávamos o solo pelo ar, o que criava uma espécie de funil interdimensional para o “mundo real”.

Quando atingi a lucidez – isto é, mergulhei fundo ao ponto de esquecer que tinha um corpo de verdade numa cama na zona norte do Rio de Janeiro -, instantaneamente descobri uma parte das referências: Harry Potter. Tinha magia e refugiados, ora essa! Eu sou fã, então a ideia bruta usou retalhos do último livro para se definir. A partir daí o sonho virou um livro aberto. Seja lá o que acontecesse, eu tinha um arsenal de possibilidades disponíveis para me livrar.

Então veio o primeiro obstáculo. Um de nossos colegas era insano: ele tinha a cabeça virada do avesso, o queixo no lugar do crânio e o couro cabeludo ligado ao pescoço. A “coisa da qual a gente se escondia” fez algo muito ruim para ele… só que o sujeito, se aproveitando desta condição, assediava todos os presentes. Meus colegas ignoravam, não era culpa dele, mas no caso eu era a vítima preferida das mãos e da língua invertida do cidadão.

Uma paralisia horrível, assim seria na época em que eu não tinha experiência o suficiente para me defender da minha própria mente. Só que agora, minha lucidez captava outra derme daquele universo: bullying. Como 99% da população, eu sofri muito com isso na época de colégio… E encaixando o assediador numa ideia que eu conhecia pedacinho por pedacinho, associando o que ele era com as regras daquele sonho (Harry Potter, magia existe, eu posso fazer mágica), simplesmente decidi que ele não deveria mais existir.

O coleguinha gritou de dor quando seu corpo se desfez em objetos geométricos, desconstruído até virar nada.

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É isso aí mlq, tu achava que Voldemort era cruel?

Normalmente, uma alteração brusca é o suficiente para a pessoa despertar. Mas como estava nos limites estabelecidos para aquele universo, tive de encarar as consequências dos meus atos… Uma colega querida – “é a Hermione daqui”. Mais um trechinho assimilado, ou eu decidi que assim seria? -, me levou ao “chefe”. A aparência dele se construiu como a de Lucius Malfoy – “inimigo, outro assediador” -, e ele estava brabo, MUITO brabo. Acontece que o “coleguinha doente” era filho dele! Afinal, tratava-se de um pesadelo… E a moral de um pesadelo é “o Heitor tem que se foder”. Porém, suas linhas estavam nas palmas das minhas mãos mais uma vez. Eu podia fazer mágica, e se detinha a capacidade de fazer um chato sumir…

Eu cortei as sinapses no corpo do chefe. Ele não morreu, mas desabou calminho em sua cadeira de Godfather (pera, tinha máfia além de mágica? Agora eu não lembro, mas era a cadeira do Corleone, isso eu guardei com clareza). Meu subconsciente sabia que, para se manter nas regras e não despertar assustado, pegar pesado estava fora de cogitação.

Depois disso eu e a colega fugimos para o “mundo real”. Aqui a “lógica do sonho” me pregou uma peça… éramos refugiados, e sair de repente para uma zona de perigo era sinônimo de pedir pra te acharem. Veio o terceiro obstáculo: os “comensais” (bullies, de novo). Eles não eram exatamente como os de HP: tava mais pro estereótipo de “agente do mal vestido de preto e pronto pra fazer umas atrocidades”.  Três deles surgiram de repente em nossa frente, quando estávamos num ponto de ônibus no centro do RJ…. Acho que na Presidente Vargas.

Aí me dei conta de uma parada interessante: a epiderme desta experiência parecia com o universo de Hogwarts, mas não seguia exatamente as mesmas regras. Quando desintegrei o palhaço e dei um soniferus totalus no chefe, não usei varinhas nem palavras de poder. Então havia mágica, e sem limites pré-definidos… Daí eu te pergunto: quantos sistemas diferentes de magia um autor de fantasia conhece?

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POWER OVERWHELMING, BITCHES!

Todos estão familiarizados com “World of Darkness”? É aquele universo de rpg que tem vampiros, garous, magos, etc. Focando nos magos: existe uma esfera chamada “Entropia“, que basicamente é o controle do fator sorte/azar. Minha colega era a “Hermione” em um cenário de magia sem limites, logo ela seria inteligente o suficiente para se lembrar disso, certo? Eu não sei dizer se a personagem seguiu a ideia sozinha, baseada nas regras pré-estabelecidas do cenário, ou se eu a controlei para fazer isto – na verdade, o tecido do sonho já estava frágil, sinal de que acordaria em breve -, mas enquanto eu procurava uma brecha pra fugir, eis que a mina CAPOTA UM FORNIQUENTO CAMINHÃO PIPA NA DIREÇÃO DO PONTO DE ÔNIBUS!

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Eu e os comensais nessa hora

Depois desse fodendo plot twist, creio que o pesadelo acabou: tive uma lembrança vaga de nós dois no topo de um prédio, usando um saquinho de terra do refúgio para voltarmos à segurança, então acordei sem gotas de suor, tranquilão, pronto pra outro dia.

Não é a primeira vez que atravesso um plano louco como este, e provavelmente não será a última. Mas aprendi a não temer os pesadelos: quando eles aparecem, só preciso de lucidez dentro de minha própria imaginação.

E é por isso que eu já acordo cansado, mãe.

Andarilho dos Sonhos #2

Este sonho aconteceu durante a madrugada do dia 26 de Janeiro de 2016, também conhecido como “hoje” (na hora que comecei esse texto). É sempre difícil lembrar os detalhes de um sonho lúcido; o que ficam são as impressões mais marcantes, aqueles momentos em que eu de fato me insiro naquele cenário paralelo à realidade. Eu lembro, por exemplo, o que fiz, o que aconteceu, como eram algumas coisas, mas não a motivação por trás delas. É como acordar com uma ideia bruta dentro do cérebro, uma rocha de onde eu tiro lascas para esculpir, sem entender o que há em seu núcleo, mas com a consciência de que uma parte minha jaz dormente naquele centro inalcançável.

Complicado teorizar sobre o que não tem explicação. O fato é que eu tive esse sonho, bem agradável na verdade: nele eu era alguém super popular na faculdade, o típico F O D Ã O. As moças caíam aos meus pés, eu matava aula pra ir no bar, não estudava e mesmo assim tinha um dos C.R mais altos do curso (eu lembro desta genialidade pois um dos figurantes me perguntou). O ponto alto foi numa “choppada”: o cenário era escuro, meio que de boate, provavelmente tecido com as lembranças das que participei quando estudei biomedicina na UNIRIO. E mermão(a)(x), essa foi A FESTA pra mim: beijei cinco e peguei whatsapp de duas! E tudo isso na total lucidez, sentindo na pele aquilo ali, até minha imagem esquecer que se tratava de apenas um sonho.

Aí que vem a parte macabra.

Eu acordei, e naquela sonolência eu continuei me vendo como o cara da balada onírica. Eu lembrei dos cinco beijos e dois whatsapp pois foi sobre estes últimos que me perguntei. “Rapaz, e o zap daquelas minas? Será que eu anotei certo, a gente conversou?”. No que eu pensei em procurar o celular, a compreensão de que nada daquilo foi real se abateu sobre o meu corpo, e aconteceu uma coisa estranha, uma… Acho que uma paralisia. Eu voltei pra cama numa espécie de torpor, nem acordado e nem dormindo, sentindo como se ganchos invisíveis me prendessem ao colchão. Fiquei nesse estado durante duas ou três horas, sem saber onde começava o Heitor Fodão e acabava o Heitor de Verdade. Suspenso entre duas realidades, vendo de um lado o Fodão acessar o whatsapp web (o desktop dele era idêntico ao daqui, porém num quarto maior), e do outro meu eu verdadeiro suando, deitado num ângulo torto em uma cama de lençóis bagunçados. Tive tempo de sobra para pensar sobre esses universos paralelos, e quando finalmente arranquei para longe da cama, veio a compreensão.

E se todo meu esforço, todo meu estudo, for para duas pessoas, vampirizado por outra versão de mim, em outro plano? Alguém com uma sorte e um cérebro extraordinário, sem a menor ideia de que existe um sifão entre dois mundos. Seria possível eu ser como Edward Elric alimentando o corpo verdadeiro de seu irmão? Foi isso que eu enxerguei, na noite que tive o privilégio de viver naquele corpo? Sabe, eu sou ateu, mas neste universo onde não passamos de poeira de estrelas num pontinho azul podem existir coisas… Coisas por onde este andarilho passa e sobrevive para contar.

Espero que não exista um terceiro Heitor fazendo transmutação humana.

Sai pra lá, troca equivalente!

 

 

 

 

Andarilho dos Sonhos #1

Eu tenho uma ligação muito forte com meus sonhos. Quase todos são lúcidos; eu sinto, executo ações complexas, posso até alterar seu andamento para algo que me favoreça ou livre de enrascadas. Creio que essa habilidade veio na infância, naquela terrível fase onde aprendemos a nos desligar do quarto dos pais.

Não lembro se foram meses ou o ano inteiro. Apenas registrei que, noite após noite, pesadelos me roubavam o descanso. Foram noites de lutar contra as pestanas, sabendo que fechá-las era a passagem de ida para o inferno. A paz vinha quando o cansaço me derrubava como uma pedra sobre o colchão. Sem sonhos, o “dormir” traduzido como “desmaio de emergência”.

Então, no próximo “durma bem”, o ciclo recomeçava. Em algum ponto desta loucura eu aprendi a me defender. Não faço ideia de como desenvolvi este auto-controle, mas tal qual um recorte simples na linha tempo, a Era dos Pesadelos se encerrou. A Era do Andarilho deu seus primeiros passos.

Eu não sou de falar desta peculiaridade. É algo um tanto pessoal, entende? E meio incômodo, pois muito do que acontece nos sonhos se reflete em meu corpo físico. Lembro, por exemplo, de um onde eu me meti numa briga: eu levei um empurrão, e no mesmo instante acordei com as costas estalando na parede (um dos lados da minha cama é “colada” nela). Na verdade eu estava “meio-acordado”, não sei… Como explicar isso?  Tipo ciente da realidade, mas com alguns fios presos no onírico. Pois foi nessa catarse que eu me impulsionei da parede para o colchão, voltei ao sonho e usei o embalo do meu corpo verdadeiro para devolver uma senhora porrada no cidadão. O resultado desta e tantas outras experiências: sono inquieto, corpo se debatendo, dores ao acordar, incômodo para quem dorme do lado, cama de solteiro, outrora arrumada, transformada num amálgama de lençóis e travesseiros digno de um rala-e-rola.

Eis, amigos(a)(x), a grande fonte de minha inspiração! Muito do que escrevi (e do que está anotado para o futuro), veio destas “viagens”. E o contrário também já aconteceu: uma cidade que eu planejei lúcido, em meio aos sonhos, me transformou num de seus cidadãos. Eu vi cada detalhe sórdido da minha mente traduzido nos hábitos daquela gente, eu andei entre multidões, me confessei na Igreja de Santa Ardra, senti os olhares de desprezo das sacerdotisas-fantasmas. Os monstros que criei fizeram questão de me mostrar como estavam vivos. E o rascunho da Cidade Sagrada de Ardra encorpou bastante no dia seguinte.

Agora vocês já sabem. Eu, Heitor V. Serpa, sou um Andarilho de Sonhos. Ou sofredor de paralisia do sono, síndrome de membros inquietos, sei lá… É meio difícil de explicar o inexplicável, mas como diria o poeta, “num sei, só sei que foi assim”. O que tenho certeza é da quantidade de pessoas curiosas sobre como é um sonho lúcido. E nisso eu tenho experiência de sobra. Gostariam de ouvir mais casos? Os mais marcantes que aconteceram, e os que de certo virão a mim nas próximas noites? Talvez, esses relatos sejam uma forma de produzir conteúdo nesta pocilga. Ou numa futura newsletter… Enfim, já tenho uma história engatilhada para publicar nos próximos dias; foi mais uma “experiência sobrenatural” do que um sonho em si. Fiquem ligados, e me desejem bons sonhos. Eles são mais fáceis de atravessar.

Impossível falar de sonhos sem lembrar desse quadro do Van Gogh, podiscre.

Vencendo o NaNoWriMo 2015 (ou como escrevi um livro em um mês)

Eu sei, já faz bastante tempo. Não me julguem! Bom, vamos pular as críticas sociopolíticas, os contos, e falar de coisa boa. Vamos falar sobre a tecpix aaaaaah esse cara é muito bom cazalbé contrata logo pelo amor de Deus!!!  o National Novel Writing Month (NaNoWriMo), esse velho conhecido dos escritores mundo afora. E como eu, após cinco anos de cadastro (e 25 de sofrência), terminei meu primeiro livro.

—–Aviso: este artigo contém altas doses de ego e piadas ruins. Vocês foram avisados—–

Não deixe seus sonhos serem sonhos.
Não deixe seus sonhos serem sonhos.

NaNoWriMo  é um desafio lançado a autores do mundo inteiro. A cada mês de novembro, os cadastrados são desafiados a escrever, até o dia 30, uma história de 50.000 palavras. Isso dá, em média, 1.667 palavras por dia, totalizando cerca de 100 páginas sem formatação.  O objetivo é trabalhar a disciplina dos envolvidos, sem espaço para revisão ou auto-sabotagem. O “national” se resume a região dos EUA, onde ele se liga a acampamentos e escolas por todo o ano letivo, o que não significa falta de iniciativa por conta de outras regiões: no Brasil, por exemplo, teve um ciclo de palestras em São Paulo, além de write-ins marcados por todos os estados. O que me leva ao primeiro tópico.

1) A comunidade online é maravilhosa!

Falta de incentivo foi um dos motivos para eu não vingar nos últimos quatro anos. Eu não conhecia a existência do grupo oficial no facebook. E eu tenho que falar, o pessoal de lá é uma injeção de ânimo! Você encontra desde os monstros que escrevem 50.000 no primeiro dia de desafio (os “overachievers”), até os que sofrem para cumprir as metas do dia e não hesitam em compartilhar de seus sucessos… ou fracassos. Um número considerável de pessoas operando na mesma sintonia é algo que, considerando a sessão de agressões no feed de notícias de qualquer rede social, se julga impossível. Mas isso acontece de forma tão perfeita que o grupo não possui regras, cada um posta o que bem desejar, de screenshots e trechos de sua própria história até perguntas e textos motivacionais. Sem a briga de egos que toma as comunidades de escritas em geral.

Ter alguém para dividir a jornada é essencial. Compartilhei meu certificado com orgulho, e cada outro que aparece me preenche com a mesma sensação de vitória. Os que não cumprem a meta não deixam de ganhar a experiência necessária para a carreira das letras, e se eles não tem a consciência de tal coisa por conta da frustração, há um universo de gente para lhe convencer das próprias capacidades. Tipo família, mas sem o medo de julgamentos.

30 dias a base de café e guloseimas pra conseguir essa imagem.
30 dias a base de café, guloseimas e desconhecidos me aturando pra conseguir essa imagem.

2) Disciplina! Auto-confiança!

Lá estava eu, com o rascunho de um roteiro e personagens que não vingaram em outros textos. O hype da primeira semana foi enorme, eu ultrapassei as 2.000 palavras diárias. Daí veio a segunda, e com ela a pressão dos compromissos mundanos. Finanças precisam de gerenciamento. A geladeira não se enche sozinha, se alguém não for ao mercado. A ausência na Steam é questionada pelos meus amigos de jogatina e, principalmente, pelo aspecto viciado de minha alma.

Chega aquela cena crítica. A densidade do teclado aumenta, e o que eram 2.000 passam pra 1.000, que passam pra 800… Mas parar, nunca. O NaNo não me permite o luxo da folga. “O que vou escrever amanhã?” virou mais do que uma pergunta rotineira. Virou uma necessidade tão grande quanto respirar. E no final, por mais que o avanço do contador de palavras pese tanto quanto as pálpebras, eu consigo. Percebo, finalmente, que aquele demônio me impedindo de escrever não existe. Ele é uma desculpa para se fazer outras coisas.

Quando encerrei a história, faltavam 900 palavras. Foi onde eu quase joguei a porra toda pro alto... mas não importa o quanto você bate. Importa o quanto você aguenta apanhar e seguir em frente.
Quando encerrei a história, faltavam 900 palavras. Foi onde eu quase joguei a porra toda pro alto… mas não importa o quanto você bate. Importa o quanto você aguenta apanhar e seguir em frente.

Amadurecer, do amador que rabisca nas horas vagas ao profissional que depende da própria arte. Este é o maior legado do desafio, superado apenas por sua continuidade. Em outras palavras…

3) O oco foi deixado

Como assim, não entendeu? Eu explico: ao encerrar as 50.000 palavras, veio o dia seguinte. Senti o tempo livre escoando entre os dedos, e levei isso como uma recompensa. Eu escrevi meu primeiro livro, então nada mais justo do que hibernar e deixar os dedos caírem no joystick, não exatamente nesta ordem.

Então, veio o segundo. A impressão de algo muito importante a se fazer martelou meus ocipitais sem trégua. O que era? Eu finalmente compreendi quando, na calada da noite, me peguei adaptando o roteiro de uma história inacabada para se encaixar nos acontecimentos desta. Basicamente, é o que me leva a escrever este artigo ao invés de vagabundear. O NaNo deixou um sangramento que nunca vai se estancar: agora eu realmente preciso escrever. Isso faz parte de mim.

Como assim não entendi
Que delícia de referência, cara.

Isso significa posts mais frequentes por aqui? Não sei…

4) A ambientação

Este é um dos tópicos que julgo mais importante de se ressaltar. Nós, escritores, buscamos um local e hora perfeitos para o trabalho. Um espaço onde se dispõe de silêncio e isolamento, com nada além de seu notebook (eletrônico ou de papel), o barulho de chuva na janela, e uma xícara com algo bem quente do lado.

Spoiler: isso é impossível.

Você é obrigado a escrever com alguém lhe interrompendo de cinco em cinco minutos. Você tem de lidar com ligações, compromissos de surpresa, vizinhos barulhentos e, claro, a ira dos que lhe julgam mais ausente do que nunca. Esse tópico é na verdade um derivado do segundo… mas, repetindo, o destaque é necessário. É algo que eu aprendi na marra, privado da possibilidade de “deixar pra amanhã” . O que posso fazer? Ligar no dubtrack.fm e deixar uma rádio chillpop (ou de rock/metal, dependendo do clima) fazer as honras do isolamento, rezando para que ele continue pelo tempo necessário para encerrar mais um parágrafo. De resto, esse quadrinho explica.

E por falar em obstáculos…

5) Os personagens falam com o autor. E se revoltam. E o autor passa a odiar suas personalidades. 

Lembro de um dia em especial no meio da segunda semana. O protagonista está para encontrar sua namorada depois de uma turnê agitada pelo mundo, mas tem de enfrentar alguns eventos no caminho… seus próprios medos, os dias numa metrópole que lhe deixa ansioso, assistir a dita cuja fazendo Mortal Kombat com outras quatro num octógono. Partindo do momento em que ele viaja para a cidade dela, eu teria material para ao menos umas 30 páginas.

Então, os dois se fecham em um ultimato. “Queremos transar”, eles dizem. “Isso, ou segura um bloqueio aí, campeão”.

Situações parecidas definiram o avanço da história. A necessidade do vilão se tornar imprevisível e estragar o planejamento que definiu metade do enredo. O protagonista confirmar, com louvor, seu papel de possessivo babaca e infantil. A “companion” implorar para matá-lo e tomar seu lugar de direito como principal. A falta de controle sobre a própria criação foi um fardo, e também uma solução. Afinal, Macunaíma é um dos seres mais desprezíveis da literatura e se tornou um clássico… Qualidades e defeitos, muitos defeitos, são o que definem uma pessoa, e se tais características dominam os personagens a ponto de interferirem no que eu tracei para eles, significa que eu acertei na receita. A demanda por resultados me impediu de enxergar esses desvios como um defeito.

E eles só transaram quase uma semana depois. Quem manda nessa porra aqui, sou eu!

6) Futuro? Mais próximo do que ontem.

Sei que possuo nada mais do que um material bruto em mãos. A revisão vai levar bem mais de um mês, e as formas de se publicar são uma névoa se desenhando no horizonte. Mas tenho algo pronto, o que me coloca mil passos a frente de onde eu estava há um mês atrás. O que eu julgava impossível, na verdade possui um método simples de se alcançar. Trabalhoso, mas simples.

Vou revisar pra car#%)@#$, chorar pra car!@$@#!, achar que tá tudo meio bosta. Mas as coisas funcionam desse jeito
Vou revisar pra car#%)@#$, chorar pra car!@$@#!, achar que tá tudo meio bosta. Mas as coisas funcionam desse jeito

Definitivamente, participarei de 2016. E espero vencer de novo.

…ficou curioso sobre “Aleros depois da tempestade?”. Isso vem no próximo post, afinal, o blog precisa render conteúdo! Se você não aguenta esperar, dá uma olhada em meu perfil no NaNoWriMo, ou no artigo que escrevi pro Icathia.

Malandro e Aquiles

Representação mais popular do Malandro, ou Zé Pelintra. A fonte desta versão remete à Azulejart, mas o mesmo desenho é encontrado em adesivos de carros e muros por todo o Rio de Janeiro
Representação do Malandro, ou Zé Pelintra. A fonte desta versão remete à Azulejart, mas o mesmo desenho é encontrado em adesivos de carros e muros por todo o Rio de Janeiro

O mulato bem vestido, todo em branco e vermelho, descia o Morro da Conceição. Os espíritos luso-brasileiros das travessas, imbuídos nas casas de azulejos, ali que um dia estiveram às margens de uma “pequena África”, mantinham o silêncio ante a passagem dele. O preto não veio para samba, capoeira ou qualquer tipo de festividade…. Nas pessoas de carne, uma ameaça ecoava em meio aos sonhos. Rebatia também nos acometidos pelos (insônia, dúzias de comichões, anseios) derivados da sensibilidade.

Guerra. Guerra. Guerra.

Na Pedra do Sal, esperando um dos guardiões dos povos bárbaros, o guerreiro de armadura completa chapava o escudo na lança, casualmente, incomodado com o silêncio, até o Malandro bater saltos no alto das escadarias. Sem desejo de precipitar confrontos e ao mesmo tempo louco para iniciá-lo em hora oportuna, Aquiles se ajustou. Seu belo rosto agora não passava de uma treva na abertura do elmo. A Liga Olímpica, metal divino que lhe cobria da cabeça aos pés, sem o polimento de outrora. Com os giros do tempo, a Civilização, não sem resistência, fora relegada a mitos e inspirações. Os deuses, sátiros, musas, heróis como ele, retornaram ao Caos Original. Lá permaneceriam, até a desconstrução atingir a podridão que os sucedeu. Estava próxima, e o ser de chapelão, flutuando em gingados, sabia disso, pois que vinha desafiado pelo outro.

Malandro não trazia arma, mas tinha navalha no pé. Cara a cara, sobre a pedra onde se fizeram muitas e muitas oferendas, os dois palestraram:

—Fostes sábia em querer me ouvir, entidade – disse o semideus, pose austera diante do vagabundo meio-inclinado na cabeça – Eu, Aquiles, filho de Tétis e Peleu, Rei dos Mirmi… Estás rindo-se de mim?

Era só um sorriso de canto, sinhô… A zoeira, na verdade, vinha dos arredores: o muro contorcia-se com as mãos nos grafites, até chorar lágrimas de tinta e reboco; as escadas oscilavam, segurando-se para não dar rasteiras em si mesmas; janelas batiam rá-rá-rá sem se moverem. Aquiles, pressionado por uma simples troça, guardaria os pensamentos se lhe constituísse o feitio: além de simplista, tinha pavio curto. Escarrando no chão, bradou com desdém:

—Pífia demonstração de poder, criatura! Esqueces-te que, embora pisemos em teus solos, é dos meus que provém o ultimato?

Fez-se um engasgo, rrrrrrrrosnando os últimos segundos. Sepulcro, eterno num instante, quando as energias brincalhonas se centraram no mulato. Malandro podia estourá-lo, torturá-lo num turbilhão de paradoxo. Ah, o paradoxo! Essência pura das ruas, de todo o Brasil e quiçá do mundo, que Malandro assumira a função de purificar. Ele, um trabalhador do bem, mascarava a tristeza de assumir seus lados mais obscuros…  Mas tinha de ser assim, era o jogo do outro, e havia de encarnar seus termos para dar-lhe uma lição:

—Vosmecê parece com o Seu Zé – então, deixando as últimas gotas da alegria naquele insulto ao campeão do Olimpo, ergueu os olhos. Duas pupilas mais negras que a pele dele, vazias de sentido e cheias de malícia – Seu Zé num gosta de se segurar.

Aquiles retesou todos os músculos, feroz no rosto que não existia, assumindo posição de ataque enquanto o outro punha um pé atrás, braço na frente, joelho flexionado, ameaçando bambear, esquerda ou direita. A tensão zunia ao ponto de tirar o equilíbrio de quem cruzava o bairro da Saúde: as vidraças de um táxi margeando o porto estilhaçaram, mas o motorista deu graças a Deus e ao Seguro por não estar com passageiros. Um mendigo, que andava com as calças borradas naturalmente, traquinava com as memórias da loucura até sentir o peito afundando, a cabeça rodando, e tombou morto a uma esquina da cena. Guerra, Guerra, ribombando mais alto nas psiquês da Conceição.

Por um longo tempo, algo de dias ou semanas terrenas, uma das maiores representações brasileiras fez voltas demoradas no cria do Centauro Quirão, embrutecido no Monte Pélion e depois instruído por Fénix, filho de Amintor, estudando-o enquanto ele também rodava, guarda alta e lança baixa, apontando.

—Falei pra num trazer arma… O sinhô não confia no Preto?

—Não sou eu quem deve se submeter à vontade de outro por aqui – Aquiles tremeu os ombros e emendou a fala num fio de gargalhada – E, se tu não sabes, as armas são parte de meu corpo, enquanto nem teu nome és capaz de agarrar.

Atingindo o oponente no ego, e sentindo a energia dele – imitação perecível do Caos, sem um milésimo do poder – se contendo com esforços menores, comparáveis a fios de pólvora, finalizou:

—O fim do teu povo se aproxima, o Caos que me abraçou envolverá a todos! Sabes disso, entidade, e sabes também que não resistirás ao Recomeço! Submetas-te ao Olimpo, rendas teus barracos aos termos de nossas pólis, e terás maiores chances de viver em paz! Recuses, e desejarás ser abatido neste exato momento, pois que, se as trilhas do Vazio não te devorarem, nossos escudos e nossas lanças choverão!

A palestra encerrou aqui. Era chegado o momento de o representante bérbere tomar uma decisão que marcaria a Recriação de todas as coisas, e… Ele estava acendendo um charuto? Rindo enquanto baforava? Os deuses desafiaram os cosmos e enviaram suas partes essenciais para discursar com um palhaço? Pois bem! O maldito havia tomado sua decisão antes mesmo de fal…

—O sinhô já sabe a resposta, né? – a resposta do mulato não surpreendeu Aquiles. O que lhe deixou perplexo foi o modo como, a partir de então, ele dialogava dentro de sua mente – Deixa o Preto explicar uma coisa, e que o sinhô parece ter esquecido ao desdenhar do nome dele.

—Basta, criatura inútil! – trovoadas rugiram ante a voz do semideus. Era tão diplomático quanto o sol era frio – Viva para reunir seus homens, enquanto lhe dou a

—Vosmecê precisa de cachimbo pra tirar nervoso, visse?  O Zé tava dizendo que os nomes são coisas poderosas, e o sinhô entregou o seu pra ele mais de uma vez…

Ele sabe tudo sobre você, Aquiles. Sabe que está fraco pela viagem através do Caos, sabe dos seus pecados e pontos fracos, sabe que você morreu de forma vergonhosa para um homem que nunca pegou em armas…

Sombria, a entidade discursou todos os detalhes do herói, traçando o passado de glórias e tragédias, navegando pelos rios do Hades, dissecando sua não-humanidade. Aquiles ouviu, o corpo retesado feito a corda que lhe disparou a flecha no calcanhar, até não suportar mais. Saltou da Pedra com um grito selvagem.

O Zé tá ganhando o jogo, e tá doido pra te dar lição.

Ao mesmo tempo, ele atirou o charuto aceso no peito de Aquiles. Acumulara o paradoxo em seus níveis mais cruéis no fumo, ao ponto deste explodir e lançar o inimigo tão alto, tão rápido e tão longe, que um avião destinado a Congonhas sofreu turbulências dignas de um tornado. Não restariam explicações lógicas para a Central, fora algo que pareceu lhes atingir de baixo, um surto de vento que se aproveitou de uma falha na aerodinâmica ou coisa do tipo.

Frações de segundo depois, o guerreiro bateu num arco soldado em armações de concreto durante a queda, arrancando-o do chão, ralando e afundando seu caminho entre centenas de postes de luzes. Engana-se quem o imaginou desprotegido, podado em chamas meteóricas, pois em pleno ar ele preparou o escudo para o choque e já estava de pé, sem nenhum arranhão, vendo a tal placa ao longe, semelhante a uma donzela de pernas abertas entre um complexo de colunas destruídas.

Da Pedra do Sal, a luta continuou na Avenida Intendente Magalhães, desprovida do carrinho simpático na entrada.

Outro movimento muito rápido fez milhares de luzes, dentro e fora das incontáveis lojas do autoshopping, incidirem sobre Aquiles. E os sistemas de alarmes, espectros do Tártaro gritando por toda a parte, lhe arrancaram mais um segundo de atenção: quando deu por si, o Malandro estava agachado à sua frente, naquela posição estranha de gingado. Sem dar chances de reação, ele atravessou a guarda do semideus e espalmou as duas mãos em seus joelhos, fortes o suficiente para quebrá-los… só que antes, houve resistência. A entidade reunira todas as cargas possíveis e impossíveis, distorcendo a realidade, evocando nomes que poucos Orixás sabiam, mas nenhuma força dentro ou fora desse mundo podia romper a essência de quem fora mergulhado no Estige ao nascer.

Sombra ou não, Aquiles ainda era indestrutível.

Quando a pressão do mulato cedeu, não havia mais Avenida, nem Madureira, nem Valqueire: uma explosão silenciosa resumiu a Zona Norte numa cratera. No ventre da destruição, o olímpico finalmente cravou sua lança no adversário, girou-o como um pedaço de carne qualquer e lhe espetou no chão, trazendo um cone de raios que se dissipou a milímetros de sua cabeça. Zeus coroando sua vitória!

—Amaldiçoado… – deveria existir uma amálgama entre arfante e triunfante para definir o estado de Aquiles diante do derrotado que gemia de dor, mas sem verter uma gota de sangue – Percebestes teu erro? Olhe em volta!

Quando o Preto ameaçava ceder, Aquiles o chutava no rosto, arrancando mais lágrimas e alguns dentes.

—Eu disse para olhar, criatura zombeteira! Vejas como tuas mãos arrasaram o que chamas de lar! Contemple-me, pois esta foi a noite em que trouxestes vergonha aos seus irmãos! Contemples aquele que levará um tapete de tua pele ao Olimpo!

Ao perceber que Malandro perdera o chapéu, Aquiles não só encontrou o objeto, como o dispôs à moda fúnebre sobre o rosto do zombeteiro.

Mais trovões encheram o Alto, única iluminação de um Rio em cataclisma. Se lembrar daquele avião parágrafos acima, basta saber que ele nunca chegou a Congonhas, dividido em oito dezenas pela Ira Celeste. Fragmentos de metal caíam ao redor de Aquiles, cruelmente desembainhando a espada, pronto para colocar as palavras em prática. Um deles, ainda em chamas – impossível definir se era a caixa preta fundida num corpo ou um boneco de cera untado numa turbina – lhe tocou o calcanhar.

Malandro traz navalha no pé…

De repente, o moribundo se fez transparente, até deixar de existir. Como da vez em Tróia, foi o ego de Aquiles quem lhe trouxe a própria ruína; não atentara para o fato de o inimigo possuir vários truques, esquecera a desvantagem de terreno com relação a ele, e por isso, às suas costas, o verdadeiro Preto talhou seus dois pés, fintou e emendou uma rasteira que o derrubou inerte no chão.

Ninguém pega o Seu Zé quando ele ginga. Ele só ta começando a te dar aula…

O herói apelou aos deuses, mas estes deram as costas para o seu destino. No longo prazo, receberam-no de volta torturado e humilhado, numa das plataformas de mármore que se sustentavam no nada. Os titãs, de mãos dadas, eram uma muralha viva e imune às loucuras do vácuo.

Zeus, não tão poderoso, discursou sobre como a falha de Aquiles, na verdade, permitira o avanço do Caos a passos largos. Perseu e Atlanta haviam retornado a pouco, cobrindo Oriente e África. Antes deles, Belefronte e Pégaso cumpriram o trajeto mais difícil, desbravando o Vazio em busca dos outros panteões reduzidos pela História. Enfim, somando o relato de Aquiles aos outros, as Irmãs do Destino conseguiram trançar um tabuleiro sobre o qual os deuses se reuniram, comparando e discutindo strategoi.

Decidiram, como próximo movimento, destruir todos os templos cristãos de uma só vez. Não negociariam com aquele mártir esguio, mas teriam nos nórdicos, célticos, nas tribos vítimas das colonizações, irmãs e irmãos de Caos, excelentes aliados quando lhes prometessem o direito de queimar anjos em fogueiras.

Quanto a Terra Brasilis, destruir a cristandade acirraria a disputa com os terreiros daquelas entidades aos níveis de uma guerra civil. Enfraquecidas, fragmentadas, seriam as primeiras a cair durante o Recomeço. E Aquiles, liderando os mirmidões, teria a cabeça do preto incrustada no escudo.

Foram estas as palavras do Oráculo sem Delfos.

Epílogo

No fundo do Atlântico, esperando as oferendas de final de ano, Iemanjá contemplava-se num espelho. De repente, a visão dela afundou pela lente e se deparou num oceano borbulhante e vermelho. No que parecia um abismo, a forma dela era a única luz, e com aquele mesmo espelho, mais garras, arpões, redes, lutava contra um ser barbudo e coroado que se movia como um peixe e rechaçava com um tridente.

—Guerra… – crescendo da tristeza ao ódio, ela sussurrou.

Na Amazônia, Iansã acompanhava a travessia de seus protegidos pelo Grande Rio, e do alto de uma árvore percebeu o céu se transformando num vulto quase indistinto. Viu-se cavalgando uma serpente emplumada enquanto trocava flechas com um homem que carregava o Sol numa carruagem.

—Guerra! – agitada, desapareceu na mata, deixando um poente flamejante para trás.

Numa encruzilhada que dava a visão perfeita do Palácio do Planalto, Exú Caveira fazia o balanço das almas. Por algum motivo especial ele abaixou o rosto e, ao levantar, estava em meio a uma tempestade de cadáveres, medindo forças com um demônio pálido. Entrelaçado no cabo-de-guerra, também trocava seu sopro da morte com as baforadas de fogo inimigo.

—Guerra – sob a capa, proferiu num vazio de sentimento.

Assim, simultaneamente, todos os Orixás e espíritos de variadas ordens se uniram pela decisão do Malandro. Nos ecos de um Rio de Janeiro arrasado, recebendo mais sensacionalismos do que reparos, as vinganças dos que se perderam.

Pelo ultraje do desafio contra a própria vida, cada ser vivo do continente bradou:

Guerra

Guerra

Guerra

Guerra Guerra Guerra

Depois do Fim, o Princípio viria do Caos.

Depois do Princípio, a Batalha viria dos Desgarrados.

FIM


Este é um conto antigo, disponível gratuitamente junto de outros na coletânea “Contos Heitorianos”. Para ter acesso e saber um pouco mais de meu histórico, clique aqui.

Inspirado no Allegro de New World Symphony, por Antonin Dvorak. E, naturalmente, no game que eu descobri a música: Asura’s Wrath.

O Segundo Derramar

Arte Segundo Derramar Clay
Arte de Clayton Tavares de Alencar (Magitopia). Para conhecer mais de seu trabalho e entrar em contato, basta clicar na imagem
Poucos olhares se dirigiam para as estrelas naquela região de Anshar. Talvez, nos bancos de areia, algum casal ligasse suas promessas e coisas mais físicas ao infinito logo acima. No píer, quem não se ocupava em carregar suprimentos se entretinha com aguardente barata, histórias de pescador e prostitutas, nem sempre ao mesmo tempo e não exatamente nesta ordem. Longe dali, o Forte do Farol observava. As muralhas, junto de todo o aparato militar, eram recentes, não mais que dez gerações desde a construção. Cercavam, com seus blocos cortados de granito, quase todas as faces do velho guia dos mares, escavado na rocha bruta como os antigos fizeram em terra, na região do Castelo.
Depois da experiência com os corsários dominando a cidade, a vigilância exigiu muito mais que uma simples luz.
Tempos conhecidos como sombrios. Extermínios de miseráveis eram financiados como jogos de caça. Assassino constituía profissão estável. Mulheres não saíam sozinhas, pois sua exposição era sinônimo de pernas abertas. Todo cidadão andava armado, gostasse ou não; era isso ou fazer papel de cadáver nas centenas de relatos compartilhados pelas tabernas. Os piores dos cães marítimos entremeados aos corruptos terrestres, togas ou fardas, não fazia diferença. Tempos esquecidos, e então, diante das sombras que nunca abandonavam uma vida citadina, romantizados como um período de justiça, da maldade que não saía impune, dos homens que faziam suas próprias leis e podiam, assim, proteger dignamente suas esposas e filhas. Neles, “tudo isso aí” não existia, ao menos não de modo a prejudicar certas famílias… Muitas cresceram, acumularam tesouros na época dos “gloriosos homens do mar”, e agora, passados alguns séculos, desejavam para si a glória dos antepassados. Mesmo que esta fosse uma cela recheada de aparelhos de tortura.
E, no seu esforço conjunto, estavam conseguindo. O Forte do Farol, construído para afastar os esqueletos do passado, agora abrigava seus navios para o segundo derramar.
Debruçado a estibordo, o capitão Rackham fiscalizava o desembarque de sua carga. Alguns guardas, uniformizados com o azul e escarlate da Marinha, faziam o mesmo de mosquetes em punhos e expressões fechadas. Um deles, com três listras na ombreira denunciando a patente superior, conversava com o imediato. Ao invés das armas, papel de cânhamo e caneta-tinteiro.
“Muito bem, o que vocês trouxeram para a festa?”
“Ora, o que mais além do anunciado nos painéis de Porto Base? Armamentos, velas para reparos, pólvora, o tipo de coisa utilizada em invasões como esta”.
Rackham não precisava ouvir a conversa para adivinhar seu conteúdo. Mantinha as atenções em outros detalhes, num misto de êxtase e descrença: os outros nove navios ancorados, três filas de três, interconectados lateralmente por rampas. Muitos piratas para pouca fortaleza… sendo o Hangman primeiro de uma nova série, era de se esperar no mínimo mais dois brigues lhe fechando em breve. No alto, o farol mantinha-se apagado, um dedo sombrio apontando as estrelas; não fossem as escoltas distribuídas pelo caminho, cuidando de mantê-lo atrás das muralhas que se escondiam de Anshar, provavelmente teria se lançado sobre as rochas ou entregue sua posição. Ou seja, uma armada inteira deslizando sobre o nariz deles, o marco dos mares desativado, e a capitania não mandou nenhuma corveta averiguar? Céu aberto, correntes estáveis, e sem lunetas para lhes flagrar? Parecia fácil demais. Ou todos os fardados em terra comungavam com os lhes recebendo no Forte, ou este era o maior golpe de sorte da História.
Quebrando seus anseios, uma silhueta lhe fez uma saudação antes de subir a ponte. Focando o olhar, discerniu um senhor com barba cheia, queimaduras de sol distribuindo-se pela face, olhos pequenos, cabelos ocultos num turbante dourado. Traços dos desertos, possivelmente vindo de Abn’Khalid, único sultanato grande o suficiente para se lançar aos mares exteriores. Se isso não bastasse para denunciar suas origens, o broche de sol farpado na túnica o faria: era como os devotos do ocidente representavam Mishaal, por aqui conhecido pela figura angelical de Nuriel, o Misericordioso.
Bem, não se lembrava de algum navio comandado por khalidanos; exceto o Grande Masir, afundado a cerca de cinquenta anos, quando era moleque e seu avô ainda comandava o Hangman. As vezes, dar-se conta de que era um dos lobos mais velhos do mar, contendo a idade de dois antepassados na sua, pesava na consciência… Quantas esposas havia largado ou perdido? Tristan, o Insaciável, devia ser o único a lhe superar neste quesito. Seu Impactus estava por ali, fácil de reconhecer pela carranca, dentre outros protagonistas das canções mais populares em Porto Base. Dentre tais lendas, teve certeza de que o estranho não estava sequer incluso nas tripulações quando abriu a boca:
— Capitão Oliver Rackham Terceiro? Sua chegada era mais do que esperada – estendeu-lhe a mão para um aperto amistoso. Pelo estranhamento do corsário, levou alguns segundos para acontecer. – Seu nome é um dos mais estimados para nossa regência, devo confessar.
— E você é…?
— El’Azar Hamid, arauto da nova aliança de Anshar com o Sultão. O afastamento da dinastia dos Lanceiros também serve interesses dele.
— Engraçado… – sem aguentar o sotaque manso, Rackham apoiou os cotovelos atrás do corpo, fitando o estranho de costas para o ancoradouro. – Você faz este corso soar como uma coisa de nobres. É por causa do título em meu nome?
Quando percebeu a seriedade no rosto de Hamid, o riso lhe abandonou:
Nah… Acho que você está falando sério – concluiu o capitão, sem obter resposta. O embaixador, pelo visto, reconsiderava as palavras sobre sua preferência. Ou estava na mesma dificuldade em entender a língua arrastada dos mares – Ninguém me falou sobre um reinado.
— Precisa se atualizar a respeito de seus antepassados, capitão. Quando se corta uma cabeça, outra deve ser posta. Anshar jamais seria livre para vocês sem…
— Eu sei como funciona o código dos reis piratas – interrompeu bruscamente o dos desertos, firmando a postura com autoridade. Ninguém faria Oliver Rackham Terceiro de idiota dentro do próprio navio. –, sigo muito antes de ratos de porão como você saírem das fraldas.
A ofensa não afetou o emissário. Ao invés, ele sorriu e esperou, conforme o desespero tomava a face do capitão. Como a maioria, havia pensado apenas em uma vida sem sujeira, fome e escorbuto ao se deparar com o chamado. Os tempos em que eles pintaram o sangue de azul, elegendo regularmente quem carregaria o diadema, eram uma lenda distante, quase tão antiga quanto a gênese. Só viam aquilo como um grande saque: nenhum deles, nem os mais sábios, acreditavam que uma retomada os elevaria ao nível dos ancestrais. Acumular especiarias, encher-se de grogue, violar quem andasse pela frente, tudo isso era esperado em diferentes escalas. Mas quando caía a ficha de que era algo mais sólido… Bem, era ali que Hamid os fisgava para sua vontade:
— …Isso lhe preocupa? – verbalizou os pensamentos de Oliver, que apenas concordou com a cabeça. Era tão óbvio, alguém como ele não deveria se entregar aos mesmos impulsos daqueles garotos brincando de pirata. Sua mente, tão afiada quanto nos primeiros dias de comando, não costumava nublar deste jeito. Poderiam as esperanças de uma vida melhor bloqueá-lo tão bem para a verdade? – É para isso que ratos como eu se juntam ao código… para fazê-los acreditarem em si tanto quanto o povo lá fora.
Diante da expressão de dúvida, o homem continuou:
— Pelo pedido de armas, suponho que imaginou um raide como todos os outros, mais a possibilidade de comprar terras com o tamanho do butim. Quer saber a verdade? – fez sinal para descerem do Hangman. Mesmerizado, o capitão esqueceu de seu orgulho enquanto lhe seguia. – Nada disso será necessário, meu caro. Anshar não se prepara para lutar, sequer resistir. Eles lhes desejam, capitão… mais do que tudo, acreditam no espírito dos mares para lhes libertar dos preços abusivos, da fome, das mãos atadas diante do crime… De todos os problemas do mundo.
“Que problemas?”, Rackham pensou. Algum deles havia passado ao menos um dia em alto-mar, sem nada além de um barril d’água, frutas secas e marujos solitários? Se pudesse trocar sua vida por apenas um dia de cão na urbe…
— Ninguém morrerá em nenhum dos lados – embasando as palavras do arauto, caixotes com o rótulo de veneno se espalhavam em maior número pelas docas. – Soníferos para a realeza, pós de cegueira e laxantes para controlar grupos. Com este material desviado por fontes seguras da cidade, nocautearemos os poucos opositores…
— Poucos? Há o suficiente aqui para derrubar a Península inteira! – Hamid ignorou o ponto, continuando seu discurso sobre as justificativas dos fins. Então, de repente, parou. As costas eriçadas, pescoço armado de quem ouvia alguma coisa. – Hamid?
— Perdão. Concluindo, Anshar cairá como um castelo de cartas. Agora, sugiro que siga nosso bom tenente até suas instalações – perto deles, um patente alta esperava o afastamento do capitão para guiá-lo. – os outros estão no salão comunal, discutindo questões como últimos detalhes do derramar, a nova bandeira, requisitos para eleição… Acredito que seu imediato esteja por lá, aproveitando do bom vinho e garotas. Cortesias dos desertos.
Deu-lhe uma piscadela, e pela primeira vez recebeu um sorriso. Rackham Terceiro carregava questionamentos perigosos, mas no final mostrou-se uma mente tão fácil de dominar quanto as outras. Enquanto ele se afastava, o arauto deixou a malícia inundar seu sorriso. Voltou as atenções para a presença que desviara sua atenção, não quebrando sua lábia por um triz:
— Estava me perguntando quando um de vocês apareceria.
Em meio as pilhas, dois orbes verdes como as matas de Kradenish lhe encaravam. Tinham um brilho fosco, como se lhe encarassem a alma por meio de uma camada de vidro. O pouco que se via no rosto sob o capuz eram dentes arreganhados, uma pequena cova se revelando conforme a pele do queixo esticava. Expressão de mais pura ira:
— Servo do Prisioneiro… – disse a criatura. Um olhar mais atento revelaria sombras tremulando sobre seu corpo, envolvendo-a sobre os ombros a partir das costas. Nada se via abaixo do manto, exceto uma poça d’água abaixo dos pés. Em uma segunda análise, filetes seriam detectados sobre a matéria escura, revelando certa solidez enquanto seguiam a gravidade –  Por que não estou surpresa em ver seus dedos nesta palhaçada?
— Palhaçada, você diz – Hamid rolou os olhos, gesticulando feito quem explicava algo óbvio para uma criança – É o que estes musgos tanto desejam, desde o começo dos tempos. Vocês não aprenderam ainda? Quero dizer, para alguém tão próximo do anjo da morte, um pouquinho de sangue derramado não devia…
Aconteceu rápido demais. A encapuzada tornou-se um borrão, e não fosse Hamid igualmente rápido, uma lâmina em forma de ferrão gigante transformaria suas vísceras num kebab. Ela seguiu o salto do arauto com as costas, virando com o cotovelo, mas bastou uma palavra do homem para uma barreira de chamas surgir entre os dois. Gritando mais de surpresa do que dor, a outra figura jogou-se para trás numa lufada de vento. Ao passo que se ajustavam ao tempo perceptível, viu-se que o manto na verdade eram asas, erguidas num arco suave conforme algumas penas de sombras, tão logos caídas, desvaneciam no ar junto do fogo que as consumiam. O corpo e rosto – este revelado no cair do capuz durante a luta – eram de uma mulher. Pele marrom, cabelos negros e pequenos em seu corte marcial.
— O equilíbrio entre a vida e a morte é sensível demais para a compreensão de uma mente derretida… – tinha o braço queimado, mas não fez menção de segurá-lo enquanto falava, timbre ofegante de quem interrompia um exercício – Você envergonha o sacrifício de Nuriel ao desejar a condenação deste mundo, lacaio.
— Agora você retorna ao diálogo? Que conveniente – risos de escárnio partindo do homem. Ao contrário da postura agressiva a sua frente, mantinha-se tão empertigado quanto no início – As muralhas deste mundo-prisão já estão condenadas, todos os celestes sabem disso. O Grande Mishaal, ou “Nuriel”, como queira, só foi o primeiro a não postergar o inevitável. Logo Azrael fará o mesmo.
A mulher avançaria outra vez, sentindo o impulso de arrancar o nome de seu patrono junto dos dentes daquela boca profana, quando sentiu vários olhos pesarem sobre si. Seis fardados em formação defensiva, mosquetes esperando a ordem de Hamid:
— Rapazes, matem logo esta puta das florestas. Aliás, desculpe… você é das arraias, certo? – para quem ao menos ouviu falar de Kradenish, a identidade da moça era um livro aberto: tinha a altura, ombros largos, e a arma que não era uma lâmina em forma de ferrão, mas um espinho genuíno, do tamanho de um antebraço, empunhadura feita com o couro do mesmo animal de quem arrancara o aguilhão em seu ritual de passagem, sendo também pele de arraia seu colete. Além de chegar no Forte do Farol a nado, provavelmente moldando as asas em barbatanas – Então matem logo esta puta do clã arraia. Tenho mais o que fazer…
Virando de costas, o Servo do Prisioneiro fez um gesto preguiçoso para autorizar o disparo. Embora a vontade dela envolvesse persegui-lo, as balas seriam tão fatais num ataque de oportunidade quanto em um humano comum. Ao invés, juntou as mãos e, após uma prece que duraria até o disparo inicial, voltou-se contra os soldados.
“Azrael, faça sua justiça pelas mãos. Que nenhuma alma tombe antes de seu tempo, e que os marcados não sintam dor. Assim seja”.
Encurtou a distância em menos de um segundo, desarmando o primeiro ao lhe virar o pulso. Outro lhe atacou com a baioneta, mas recebeu um corte profundo no antebraço com a ponta do ferrão, largando o mosquete enquanto berrava de dor. O estilo arraia era certeiro, mais rápido do que o pensamento, prevenindo toda a região de ameaça com ferroadas nos punhos, pescoços, atrás dos joelhos, tudo que se revelava entre as esquivas e ripostas. E era uma das melhores guerreiras do clã, Hamid soube no instante que a viu. Poucos eram dignos de receber as bênçãos de Azrael, o Justiceiro… Por isso, deixou-a se distrair com alguns musgos sob sua influência. Como o esforço dela em mantê-los vivos era fútil, pois assim que todos se encontraram caídos, contorcendo um círculo ao redor da moça, ele aproveitou a surpresa e invocou o poder de seu mestre para descer um pilar de chamas no meio do combate, carbonizando tudo em tons de laranja. Os gritos daquela escória, misturados ao choro dela enquanto derretiam; só isso já valia o esforço em fortalecer seu Senhor com aquele golpe de piratas e militares.
— Você não pode deter o ciclo do ódio, criança – em distância segura, deixava o fogo desaparecer do modo que surgiu, longe de afetar quaisquer carregamentos nas docas. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza – A queda de Anshar é apenas o primeiro passo para fora do mundo-prisão.
Em toda sua prepotência, não percebeu como a guerreira havia se coberto com as asas, estas desintegrando depois de receber quase todo o impacto. A tortura, mesmo para membros invocados temporariamente, excruciou feito o quebrar de um milhão de ossos ao mesmo tempo. Ela não esperou o borrão que havia se tornado o mundo solidificar; guiada pela energia infernal emitida pelo Servo, encontrou-o no espaço além dos sentidos e jogou toda a força de Azrael para as pernas. Hamid, acabando de virar as costas – de verdade desta vez –, apenas teve tempo de notar o ataque em sua visão periférica. Fez meia volta, expondo o peito para a arraia, e sentiu o coração explodir. O ferrão entrou tão cirúrgico que o corpo precisou de alguns segundos até processar a dor, esfarelando atrás do esterno, vazando o pulmão esquerdo, tirando os pés do chão quando sua algoz ergueu o espinho com as duas mãos. Aproximou-o bem do rosto chamuscado, devorando o medo que lhe vazava dos olhos com um sorriso rosnado.
— Diga a Azrael que Marini lhe enviou, filhote do inferno – sentenciou em voz gutural, então quebrou sua prece. Aquele marcado sentiria dor. Muita dor.
Nem todas as ondas do mundo abafaram seus lamentos, conforme Marini furava de novo, e de novo, e de novo, e ainda mais quando sentiu o sangue espirrar na pele. Geralmente era o clã jaguar quem deixava os inimigos retalhados iguais caças, mas a arraia fez a exceção… E ninguém no Forte veio auxiliá-lo. Enebriados em seus assuntos de glória, regados a vinho e as mais belas escravas de Abn’Khalid, sequer ouviram o combate. Não eram uma preocupação para ela: com a cabeça decepada, bastava acender o farol para alertar a cidade. Sem a influência do Prisioneiro, poucos apoiariam o golpe. O ciclo do ódio manteria seu tênue equilíbrio.
Assim ela pensava.
Iluminar a ilha não foi empecilho. Passados alguns minutos, refez as asas e planou, sem interferências, como um grande pássaro. Pousou sem ruído, nocauteando a sentinela azarada o suficiente para ficar de fora da algazarra lá embaixo.
Os mares se acenderam num clarão.
Enquanto Marini desaparecia no oceano, mergulhando do alto do farol, o tenente que guiara Rackham chamava um dos guardas:
— Quero esta luz apagada imediatamente. Eu cuido de alertar os capitães, diga aos outros para carregarem os navios. O ataque começa amanhã.
O soldado foi cumprir suas ordens, e o tenente sorriu. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza.
— Você não pode deter a Rebelião. Ninguém pode.