South Park ou Danilo Gentili? Como entender a validade do Humor Negro em tempos “politicamente corretos”

Talvez alguns estranhem o fato de eu não mencionar Charlie Hebdo no título. No momento desta publicação eu não vejo outra coisa pelas redes sociais, divididas entre “je suis” e “je ne suis”, ambos utilizando de estereótipos e violência verbal para, ironicamente, discutir sobre a violência física do atentado. Isso me lembrou de outras situações onde o humor negro (também conhecido como “afrodescendente” ou “de péssimo gosto”) só não gerou mortes pois não inventaram um jeito de dar tiros virtuais por aí. Eu, como fã de um dos desenhos animados mais infames do universo, me sentia dividido sempre que pulava alguma crítica ao Rafinha Bastos por comer ela e o bebê, ou ao Danilo Gentili por satirizar o estupro. Como amaldiçoaria esses caras, quando chorei de rir no episódio que o Sr. Garrison criou um trauma de infância por nunca ter sido abusado sexualmente pelo pai?

Pois bem, esta semana levantou discussões suficientes para eu finalmente entender como é possível ser fã de South Park, Ted, Family Guy e derivados, ao mesmo tempo que se condena a intolerância de certos babacas disfarçados de comediantes. Levaria a boa nova heitoriana ao Facebook, mas outros acontecimentos, tais como o incentivo que tenho recebido de amigos (reais e imaginários) e familiares para retomar as atividades literárias, me trouxeram a este espaço. Então chega de enrolar e vamos para a aula.

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Conte-me mais sobre como esse Charlie era brabo

South Park foi criado por Matt Stone e Trey Parker a partir de duas animações que eles desenvolveram na faculdade. Uma delas, considerada a “alma” da série e seu primeiro episódio de fato, já apresentava os quatro protagonistas – Stan e Kyle, considerados alteregos dos próprios criadores, Cartman, um gordinho mimado e racista, e Kenny, um garoto pobre, tarado e, por algum motivo obscuro, sempre morto no final dos episódios. “The Spirit of Christmas” apresenta uma discussão entre os quatro durante um dia de natal, até o momento em que o Papai Noel e Jesus Cristo se envolvem em uma luta de vida ou morte para decidir de quem realmente deveria ser aquele dia. Eles pedem a ajuda dos garotos, que perguntam “o que Brian Boitano faria?” (piada revitalizada no filme de 1999). Daí a figura surge e faz um discurso sobre como o natal deveria ser uma época de confraternização, e tudo acaba em uma canção enquanto o corpo de Kenny é devorado por ratos.

Ah, os garotos chegam a conclusão de que o significado do natal é ganhar presentes.

Este, basicamente, é o tom seguido através das 18 temporadas, exceto pelo fato de Kenny não morrer com tanta frequência com o avançar dos anos. Seria loucura condensar aqui todos os grupos ofendidos pela animação, que vai de cientologistas a mórmons e ativistas contra a fome na África. Ao invés disso, focarei nos motivos que diferenciam o humor pesado de South Park e o livre preconceito, focando um episódio ou outro.

1) South Park direciona suas críticas aos opressores

Esta é uma máxima da qual os meninos do Colorado não escapam. Pensemos por exemplo no episódio em que eles apóiam, com todas as letras, a destruição das florestas tropicais: os quatro, depois de sacanearam uma professora que busca novos ingressantes para seu coral de sustentabilidade, são obrigados a participar de um tour pela Costa Rica. Entre as pérolas de Eric Cartman sobre os latinos, eles se perdem em uma floresta tropical e, depois de cobras e insetos gigantes, são sequestrados por pigmeus. O episódio acaba com as crianças salvas por um grupo de madeireiros que destroem a tribo junto das árvores e, com o apoio da professora que agora odeia florestas com todas as forças, modificam sua canção para incentivar a derrubada, pois “todos que defendem as florestas tropicais nunca pisaram em uma para saber como é”.

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Sim, pigmeus na América do Sul.

A lição aqui é clara: todos os grupos envolvidos em discursos sustentáveis só o fazem por interesse próprio, sem se importar em conhecer melhor seu objeto de proteção. Ao meu ver, criticar grandes corporações é bem diferente de fazer pouco dos que sofrem violências por parte delas.

Vejamos outro episódio que eu gosto muito. Neste, o foco envolve Mr. Garrison, professor da escola primária e um homossexual homofóbico (?) que resolve mudar de sexo só para dizer que é hetero. Ao mesmo tempo, Kyle é impedido de entrar no time de basquete da escola por conta de sua altura; Cartman diz algo como “lógico que você não poderia entrar, você é judeu. Judeus não sabem jogar basquete, isso é coisa de preto”. Acontece que, incentivado pela atitude da agora Mrs. Garrison, ele vai para a mesma clínica e faz uma cirurgia de mudança de cor (??), transformando-se em um negro, alto e imediatamente aceito em uma nova avaliação para o jogo.

Seu pai, Gerald, segue o exemplo do filho e resolve fazer uma cirurgia para se transformar em um golfinho (???).

Ele esguicha água
Ele esguicha água

A parte mais hilária é quando Mrs. Garrison estranha a falta de sua menstruação, acreditando numa gravidez e indo para uma clínica de aborto (esta se situa no meio da cidade com um cartaz enorme, onde mulheres e crianças de todas as idades MESMO entram livremente. Uma de suas cenas icônicas, não me lembro se é neste episódio ou em outro, é quando uma garotinha entra para fazer a cirurgia e o médico diz que ela não pode fazer aborto… sem um banquinho para altura). Ali, lhe explicam que ela não poderia engravidar, abortar ou menstruar pois não possuía útero nem ovários.

“E qual a graça de ser mulher se eu não posso fazer nada disso?”, ela diz. Decide reverter a cirurgia, mas o médico lhe explica que usou seus testículos para fazer os joelhos de Kyle em sua troca de cor (????). Ela tenta chegar a tempo de salvar as próprias bolas, mas estas estouram junto com as pernas do menino depois dele fazer uma enterrada. O episódio acaba com Mrs. Garrison tendo de aceitar sua nova condição e com o médico pedindo desculpas aos outros pacientes, pois não explicou que as cirurgias eram puramente estéticas e não faziam deles um negro e um golfinho de verdade. Invenções absurdas sobre o bem-estar por parte da comunidade médica é só um no meio dos estereótipos criticados neste episódio. Merecia no mínimo um artigo.

Por último, necessário destacar o modo que quase todos as sequências envolvem o retrato distorcido de uma ou mais celebridades: Tom Cruise como um egocêntrico que “não quer sair do armário” (literalmente, ele se tranca no guarda-roupas de Stan. O game lembra disso de maneira hilária); Russel Crowe como um valentão numa roupinha de pato donald que viaja o mundo num barco a vapor em busca de briga; Sally Struthers como uma tirana que empilha a comida dos africanos só para ela enquanto pousa de caridosa e preocupada.  O modo deles se exporem ao público levam ao segundo ponto que diferencia humor negro e “politicamente incorreto”:

2) South Park torna a realidade melhor ao exagerar seus aspectos negativos

Para explicar melhor, vou destacar um trecho da introdução de Lima Barreto em “Os Bruzundangas”:

“A “Bruzundanga” fornece matéria de sobra para livrar-nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui outros maiores e mais completos. Sua missão é, portanto, como a dos “maiores” da Arte, livrar-nos dos outros, naturalmente menores”.

Não acredito que o parágrafo mereça maiores explicações. Quando, por exemplo, uma das meninas da classe começa a desenvolver seios e faz todos os garotos ao redor agirem como neandertais, ao ponto deles esquecerem como se fala e cobrirem os muros de casa com pinturas rupestres, basicamente o episódio lhe diz que, embora não nos transformemos em macacos diante de estímulos sexuais, somos condicionados a agirmos como animais diante dos mesmos. Não é a mídia de South Park que fala isso, mas o médico que recusa uma cirurgia de redução de seios para esta menina por causa de sua idade e, logo depois, autoriza, sem pensar duas vezes, implantes para uma amiguinha que estava com inveja.

Quando uma professora da pré-escola se apaixona por um aluno, os dois começam a se atacar nos corredores, ir pra cama e tomar banho juntos, este absurdo é apenas um trampolim para mostrar a reação da polícia diante das denúncias de Kyle. “Seu irmãozinho de dois anos está saindo com a professora? Ela é bonita? O único crime aqui é não ser eu no lugar dele”

Quando Cartman, cansado de sempre encontrar o banheiro dos homens lotado no recreio, decide colocar um lacinho na cabeça e se declarar transgênero só para cagar livremente entre as garotas, a direção lhe concede um “banheiro privativo” separado de todos os outros, com cataratas e música ambiente. Stan percebe a armação e, ao acusá-lo de fingir, é chamado por todos da turma de “viadinho” (“cissy” no original, mistura entre “cisgender” e “sissy”)  por não tolerar as escolhas dos outros. Depois, não só descobre que seu pai é a cantora Lorde fora de casa, como sua namorada também se declara trans só para implicar com “Erica” e sua exclusividade. Sem saber mais sua verdadeira identidade,  o garoto permanece na dúvida mesmo depois da direção eliminar o banheiro trans e determinar que os alunos tem o direito de usar a porta que lhes deixar mais confortáveis.

Prestes a se decidir, é interrompido por um dos garotos. Ele diz, de maneira autoritária, que gente como Stan tem de usar o banheiro das “cissys”, o mesmo criado para Cartman, só com uma placa diferente. O racismo inverso deste e outros episódios é genial por demonstrar, através do absurdo, como os verdadeiros discriminados se sentem, basicamente como se mostrassem o cotidiano de um homem hétero/cisgênero em pele transexual por um dia.

Se você parar e pensar, os exageros não são tão grandes quanto parecem.

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3) South Park critica estereótipos no lugar de objetos

South Park está aí a quase 20 anos. Onze de setembro, eleição de Obama, acusação e morte de Michael Jackson, basicamente todos os eventos controversos que marcaram o crescimento desta geração da qual faço parte possuem algum episódio a respeito.

Osama Bin Laden anda com sonoplastias e tiques típicos dos Looney Tunes, mais parecendo uma invenção do que uma pessoa verdadeira.

Michael Jackson apenas tranca seu filho em um mundo imaginário, sem abusar dele ou dos outros meninos em momento nenhum. É preso depois que a polícia descobre uma prova de que ele era negro e novo rico.

Obama não usou a cor para se eleger, mas recebeu ajuda da China, que falsificou votos a seu favor em troca dos direitos autorais de Star Wars.

Além do exagero permitir uma visão mais detalhada de aspectos negativos do mundo, também permite um distanciamento tão grande de seus objetos que permitem ao espectador se divertir com a certeza de que, conforme o aviso antes dos episódios, todos os personagens são péssimas imitações e dublados muito mal.

Personagens. Não religiões, raças ou pessoas. Este é o cerne deste tópico, na verdade um apêndice do segundo, com o qual eu concluo esta análise que já está por demais extensa. Sem entrar em detalhes no caso Charles Hebdo, já discutido a exaustão por vários colegas, espero lançar uma luz para quem é adepto das formas controversas de humor saiba quando uma charge, uma piada ou um desenho só passa de ódio destilado ou possui algo depois da ofensa.

p.s: nem todos os episódios de South Park tem alguma coisa para criticar, Scott Tennorman é o exemplo vivo disso. Assim como o Rafinha, por exemplo, possui muitos momentos interessantes de reflexão. A generalização faz parte dos recursos que resumem o texto, sem ela isso aqui teria de virar artigo do google acadêmico.

BÔNUS: 25 momentos que South Park lhe fez pensar sobre a vida. Buzzfeed, usem com cautela
Tudo é ofensivo! Vídeo que demonstra a essência de boa parte dos episódios de South Park.
Entrevista dos criadores de South Park no TAM (The Amazing Meeting). Legendas em inglês.

That's all folks!
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Um comentário sobre “South Park ou Danilo Gentili? Como entender a validade do Humor Negro em tempos “politicamente corretos”

  1. Widdy DC 12 de janeiro de 2015 / 01:29

    Curti bastante o texto, fez eu ver um lado do South Park que eu ainda não tinha percebido. Talvez seja porque nunca fui de assistir muito, mas vou passar a assistir mais para perceber melhor essas “jogadas” deles. Parabéns pelo texto, continue com o trabalho! 😀

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