O Manifesto Irradiativo e um depoimento sobre representatividade

Em minhas idas à academia, costumo me sentir duplamente torturado. A primeira, lógico, é a tortura física, feita das maneiras mais criativas que aqueles aparelhos proporcionam. A segunda, e pior de todas, é a obrigação de assistir TV aberta na esteira. Vinte a trinta minutos com uma tela plana e gigante na sua frente, você tenta lutar, mas fatalmente seus olhos encontram os da Fátima e pronto, elitismo global in your face.

Durante a tarde, o carrasco muda para um dos programas mais egocêntricos da nação. Um programa feito de artistas que falam deles mesmos, e só. Não foi a conversa deste grupo seleto e seus erros de gravações, personagens, curiosidades e linhagem familiar que me chamou a atenção desta vez, mas uma matéria que exibia uma novela de sucesso da Índia: o pretexto, além do “olha, fizemos uma assim a pouco tempo”, era demonstrar como a violência doméstica era um tema que começava a ser discutido em uma história de larga amplitude popular. A princípio, foram os caracteres hindus que tiraram minha atenção do cronômetro. Depois eu fui para os artistas e… eles eram caucasianos.

Na Índia.

Velho… Na Índia.

Será que algum deles se sente representado?
Será que algum deles se sente representado?

Foi aí que eu pensei como aquilo deveria ser uma seleção por parte de nossa mídia, impossível os meios televisivos da Índia reproduzirem os mesmos vícios. Afinal, lá tem Bollywood… E acessando a página deles no facebook, esta é a foto de capa:

É, um tapa em nosso complexo de vira-lata
É, um tapa em nosso complexo de vira-lata

Lá ou aqui, quem domina os principais meios de comunicação são uma minoria. Não o tipo de minoria que teve o substrato para lutar pelos seus direitos no início do século XX, mas pessoas que não conheceram uma vivência fora de seus círculos privilegiados (os que vieram “de baixo” prontamente se esquecem disso ), e por isso acreditam que reclamações de preconceito e/ou representatividade são “besteira de gente querendo aparecer”. A literatura não é exceção: basta você pensar como a homossexualidade de Dumbledore nunca foi exposta durante os sete livros, enquanto a exploração de canons como Rony x Hermione ou Harry x Gina é livre e irrestrita. Dá a sensação de que este dado, junto de Cho Chang, esteve no universo de Rowling apenas para preencher uma cota. Que, não fossem as pressões externas, o tipo Reino Unido heterossexual permaneceria incontestável.

Não é culpa da autora, ela ainda produziu uma das histórias mais cativantes dos últimos tempos. Mas tem cotista mesmo assim.
Não é culpa da autora, ela ainda produziu uma das histórias mais cativantes dos últimos tempos. E ela é inglesa, for God’s sake! Mas tem cotista mesmo assim.

Eu não me considero um defensor da liberdade de todxs. Permaneço em uma posição bem confortável de homem hetero/cis, e vejo diversas contradições nesses movimentos sociais (o que não é necessariamente ruim, mas uma prova de sua humanidade). Foi o passar dos anos e o desenvolvimento de uma consciência crítica que chamou a atenção para o modo que eu vinha escrevendo e de quem eram meus personagens. O grande protagonista de meu livro nunca escrito era um assassino alto, pálido e de olhos verdes que vivia em uma floresta cercada de lobos. Minha primeira personagem de fanfiction era uma loiraça que ficava quase nua a cada duas cenas. Nenhum deles possuía um mínimo traço de conexão com a realidade ao meu redor, exceto pelo male gaze… Mas como fazer diferente, se o conteúdo ao qual tinha acesso não fugia destes padrões?

Como a literatura vai acompanhar todas as mudanças de nossa sociedade, se a sua essência é endêmica?

Foi então que eu comecei a mudar minha própria worldbuilding. Não neguei a influência estrangeira que permeia nossa cultura; os matadores encapuzados, reis e piratas continuam lá, mas ficou muito mais fácil de pesquisar e construir a partir do momento que troquei os lobos de uma floresta europeia por jaguares aqui do nosso continente. Aprendi que as diferenças anatômicas femininas não contam durante a confecção de uma armadura (valeu repair her armor!), e que ressaltá-las a todo tempo dá um aspecto alienígena ao que deveria ser humano. Da mesma forma, o que não condiz com minhas crenças/escolhas não deve se tomar, obrigatoriamente, como caricato.

Será este o motivo de autores sci-fi curtirem tanto a (semi) nudez?
Será este o motivo de autores sci-fi curtirem tanto a (semi) nudez?

A mudança não é fácil: sempre pego um vício ou outro precisando de uma repensada. Mas como uma andorinha não faz verão, eu também vejo outros autores. Gente que consegue pensar em diversidade de uma maneira mais ampla. Gente que me diz o quanto eu não devo me sentir sozinho neste universo elitizado das artes. Gente que desenvolveu um Manifesto, onde acompanhei a confecção e assinei com orgulho. Encerro com um trecho da iniciativa, dizendo que não são as emissoras de tv ou as grandes editoras responsáveis por determinar quem lhe representa. Basta ter a vontade para tal.

“Deflagrando Nossa Explosão de Diversidade

As criaturas evoluem, mudam e se adaptam às condições de seus ambientes. A vida traça seu próprio curso, gerando vidas diferentes e formando novos biomas. O custo disso é que algumas criaturas ficam estacionadas no tempo, alheias ao que acontece ao seu redor. De acordo com a Wikipedia—e nós achamos que essa é a fonte de informações mais punk que existe: “A irradiação adaptativa é um processo evolutivo em que organismos se diversificam rapidamente em uma multidão de novas formas, particularmente quando uma mudança no ambiente faz com que novos recursos fiquem disponíveis, criando novos desafios e abrindo nichos ecológicos”.
A mesma coisa acontece no mundo da literatura de gênero, pessoas diversas têm mostrado seus rostos no mundo—suas cores, amores e aquilo que são—mas essa diversidade não está alcançando as páginas de ficção e o mundo editorial como poderia. O mundo do papel e das telas ainda é dominado por homens cis brancos fazendo o que sempre fizeram e refazendo o que sempre fizeram. É por isso que acreditamos numa forma de tomar isso de assalto, fazendo barulho com o que temos e o que podemos para mudar esse cenário. Queremos que a literatura de gênero evolua, que abrace todas as pessoas do mundo e não apenas uma minúscula parte dele.
Por isso um movimento de ruptura se faz necessário.
No registro geológico de nosso planeta, o limite K-Pg é marcado por um alto nível de irídio—um metal raro na Terra e abundante em asteroides. Essa camada prateada é o indicador de que um mega impacto cometário foi o responsável pela devastadora extinção no fim do período Cretáceo, aniquilando grande parte das criaturas da época, entre elas os dinossauros não-voadores; permitindo que os mamíferos se irradiassem e nova vida florescesse nos períodos subsequentes.
É tempo de sujar nossas mãos com irídio e incrustar uma nova marca em nossa geração.
É tempo de uma explosão de diversidade—para deixar os dinossauros do preconceito, do discurso de ódio, e da ignorância, reduzidos a pó em seus estratos fossilizados; e abrir espaço para uma irradiação de novas criações.
As pessoas podem tentar te desanimar e te diminuir, mas nós acreditamos que o mundo é feito quando um bando de gente incrível se une para criar. Acreditamos que a ficção de gênero pode ser uma ferramenta para unir pessoas—que a fantasia pode mostrar outras mágicas e outros espelhos, que as naves espaciais podem ser as ferramentas para fazer com que as pessoas se encontrem na Terra antes do encontro com outros planetas.
O Manifesto Irradiativo é para todo mundo que já desejou ser aceito, para que saibam que sua representatividade importa.
Você é o motivo de estarmos aqui.

 

Jim Anotsu e Alliah

12 de Janeiro de 2015”

Confira o manifesto na íntegra aqui

Você pode assinar aqui e fazer parte desse momento lindo bicho

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