Algumas palavras sobre dogmas, individualismo e justiça social

ESSE ARTIGO POSSUI UMA VERSÃO REVISADA E AMPLIADA NO MEDIUM.COM. MUITA COISA MUDOU EM MINHAS CONVICÇÕES PESSOAIS DE LÁ PARA CÁ, MAS DEIXAREI O POST ORIGINAL POR MOTIVOS DE: NÃO QUERO PERDER AS POUCAS VIEWS QUE ESSE BLOG TEVE. ESTÁ TUDO EM NEGRITO E CAPS LOCK PORQUE HOJE EM DIA INTERPRETAÇÃO DE TEXTO É UM PROBLEMA, ENTÃO A GENTE TEM QUE SER ENFÁTICO.

LINK PARA O ARTIGO REVISADO AQUI.

Então pessoal, esse é um assunto bem delicado.  Quando não concordo com alguma colocação do feminismo, dos movimentos de esquerda em geral, silencio a vontade de manifestar opinião com o que chamo de “licença humana”; ora,  toda corrente de pensamento é feita por pessoas. Estas, independente de etnias e orientações sexuais, tem o direito a não serem perfeitas, mas contraditórias e, inevitavelmente, falarem groselha em algum momento. Não é algo ruim achar a hipocrisia, mas um atestado de que ainda há certa “alma” em meio ao discurso.

O problema começa no instante em que as próprias se engessam, recusando qualquer evidência capaz de questionar seus ideais. Quer uma prova? Você provavelmente está de nariz torcido desde que leu o termo “feminismo”, e agora segue com a periculosidade de dez Sherlocks, em busca de qualquer coisa, um grão de areia fora do monte, para ativar a enzima do “tinha que ser omi chorando mesmo” (termo hilário, diga-se de passagem. Dá vontade de chamar pro Duelo Xiaolin).

Xialolin_Showdown___Omi_by_stillme
Moeda dos mantídeos

Vamos a um exemplo simples, enquanto minha cova está rasa. Vejo o reforço de frases como “não existe mulher machista, apenas as oprimidas pelo sistema”; sempre que leio, imagino a metáfora do rato. O animal está acuado em um canto, com um gato a poucos centímetros de seu rosto, aparentemente sem saída. Sua solução? Fechar os olhos, pois se ele não enxerga o gato, então o gato não existe. Em outras palavras, cria-se um dogma, uma crença inabalável que nega qualquer princípio de lógica, mesmo que seja matemática e socialmente impossível ter metades exatas de opressores e oprimidos. De todas as mulheres no mundo, então não existe uma que não se sinta pressionada pelo “sistema”, que o propague por livre vontade? Tanto se fala em diversidade, mas esta diversidade, necessariamente, segue apenas uma linha, a sua linha de pensamento? Me chama de Sr. Spock, pois isto é ilógico.

Tomemos uma família patriarcal clássica. Nela, o homem provedor se ausenta da casa. Quem, então, ensina pra filha como ser “menina direita”, cozinhar, passar? Quem é que não cobra as mesmas coisas de seu irmão, pelo simples fato entre suas pernas? “Ah, mas essa senhora foi oprimida pelo sistema…”. Então, ela também veio de uma família patriarcal clássica. Quem é que lhe ensinou?

maxresdefault
Acertô

Mais um dado, geralmente usado para menosprezar a luta das moças – o que,  em momento algum, é a intenção desse texto. O autor, inclusive, assinou um manifesto a favor da diversidade na literatura. É meio que seu dever produzir conteúdo a respeito – : a maior taxa de mortalidade entre os homens, o que não só desconstrói essa redução 50% A e 50% B, como expõe um backlash do próprio “sistema” contra seus supostos senhores. A mídia, a todo momento, nos incentiva a beber como um sinal de virilidade, a destruir os pulmões com classe, dirigir em alta velocidade com o carro que baterá virilhas tão fácil quanto as portas. Desqualifica o choro, demonstrações de dor, coloca sua masculinidade em cheque pelo simples fato de assumir um abuso. Afinal, macho nenhum deixa lhe encostar sem partir pra porrada. Ele tem que se garantir. E, mesmo com esses fatos dançando o passinho do moleque transante na sua frente, uzomi são todos opressores resistindo para não perderem seus privilégios. O feminismo não se trata deles, então quem caralhos liga para exceções?

04_1
Olhe aquela mulher objetificada, consumidor. Agora esvazie caixas e mais caixas de nosso produto, abra sua cirrose, coloque-se sob o risco do coma, apenas para ser parte da rodinha.

Mas por que isso acontece? Por qual motivo essas evidências, mesmo que tivessem uma tese de doutorado com toda a bibliografia disponível, ainda soam como male tears? A explicação se encontra em nossa vivência: nunca, em toda a História, houve um culto tão grande ao indivíduo quanto nestes anos. Todos se julgam especiais demais, evidentes em meio a uma massa cinzenta. Fala-se em “sororidade”, mas o um sobrepõe ao todo. Reclama-se da arbitrariedade do Estado, dos linchamentos, mas nosso desejo por justiça social atribui “inimigos” por questões de vírgulas, e pobre daquele que ficar no caminho da turba virtual. Trabalhos como o de Joss Whedon, conhecido por promover a diversidade em seriados como Buffy e Dollhouse, transformados em nada por conta de uma personagem mostrando fragilidade em um filme de super-heróis. O “não me senti representada e vou reclamar disso”, convertido em “todas não se sentiram representadas e devem reclamar, de preferência ameaçando a vida do infeliz”.

black-widow-poster
Como você ousa se sentir um monstro por não poder ter filhos em pleno século XXI? Você não é Vingadora, você é moleca!

Se, por um lado, essa pressão acarreta em resultados maravilhosos, vide o novo Mad Max, por outro engessa completamente os enredos, obrigando o autor a pisar em ovos para não desagradar o individual/coletivo. Este vídeo sobre o tema (assistir até o fim), é certeiro ao afirmar que dificilmente a Warner vai se arriscar com mais heroínas. A única que passou do pente já provocou essa publicidade negativa só de mostrar algo além de roupas colantes e chuva de morte, imagina se tiver mais? O anúncio de uma série protagonizada pela Supergirl, se provocou hype de um lado, logo foi abafado por acusações de “fazê-la submissa” pela contraparte. Como arriscar fora do padrão caucasiano e heteronormativo, se nada agrada? Deste modo, em defesa à diversidade e representação igualitária, impede-se a mesma de acontecer. Permanece a endemia que falei no outro post.

Há problemas sérios com o mundo? Sim. Porém, não importa quanto o zeitgeist insista em nos segregar “do resto”, não elimina o fato de sermos parte disso tudo aí.  E pelo amor dos filhinhos que nunca terei, não se deve parar com o barulho. A pressão por igualdade, fazer qualquer um pensar duas vezes antes de atirar sua pedra, é absolutamente necessária. O problema é quando lançamos as nossas sem esperar nenhum pio.  Se até os dogmas da Igreja, senhora de milênios, foram questionados, melhor se acostumar com a idéia de que alguém lhe lembrará do gato.

Abra os olhos e encare o problema dentro de seus domínios.

p.s: se alguém está pensando em arrancar o meu pinto, eu preciso contar uma coisa. Tirei ele antes de vir pra cá. Eu sou eunuco.

p.s (2): estou ciente da polêmica com o último episódio de Game of Thrones. Não o trouxe para a discussão, pois faço parte do coro das reclamações. Não pelo abuso em si, mas pelo modo gratuito que foi inserido apenas para chamar atenção, sem contribuir em nada além do choque. Aqui nas terras heitorianas, isso se chama “roteirista preguiçoso”.

p.s (3): já falei lá em cima, mas redundância é um mal necessário dos anos 2000. Em nenhum momento tive a intenção de deslegitimar quaisquer pautas do movimento feminista, pelo contrário, considero todas como válidas e necessárias. Não falei em “feminazis”, “falta de rola”, “misandria”, e nunca usarei esse tipo de infantilidade nos meus argumentos. O ponto aqui foi chamar a atenção para como o culto ao indivíduo é prejudicial, e pelo feminismo ser um dos assuntos mais em pauta, utilizei como exemplo ao alcance de todxs.

p.s (4): 4k

p.s (5): além da falta de atividade, a sequência de artigos políticos torna o ambiente meio chato, ao menos é como me sinto. Trarei mais ficção para cá; na verdade, o próximo post é um conto que não vingou no wattpad. Não consigo me acertar com aquela plataforma de jeito nenhum, então vamos trazer a arte para um ambiente que domino.

p.s (6): Esta página denuncia tais exageros de maneira sensacional. Recomendo.

p.s (7): Pirulla, também conhecido como “O Profeta”, gravou um vídeo a respeito de temas semelhantes. O timing foi tão perfeito que até me assustou.

p.s (8): Achei esse vídeo expondo algumas inversões nos E.U.A. Possui teor passional, e o vlogger cai numas falhas de lugar comum (colocando todo o feminismo num saco, o um sobrepondo ao todo que critiquei nesse texto), mas o ponto central continua válido. Só o palhaço que fez a legendagem promove o “direito dos homens”, sem comentários a respeito.

Anúncios