Eu Danço com o Vento

Companhias de Guarda eram uma visão comum longe das capitais e grandes cidades, fruto de um engenhoso esquema da Federação. A união das Terras Baixas sob uma única bandeira, apesar de legitimada nos anais da história, não se fez assim na prática para todos os seus habitantes.

A lei, focalizadas nas grandes cidades e capitais, não alcançavam a vastidão das Seis Regiões. O surto tecnológico, desde a chegada dos anões de Kresta, a cidade-estado voadora, até a mais nova Era das Invenções, sim.

Fez-se um período negro na existência federativa, chamado Crise do Décimo Quarto Século. Literalmente, cem anos de violência desacerbada. As estradas se tornaram inseguras, pirataria tomou os mares e até mesmo o ar com o advento dos zeppels, ou dirigíveis de guerra. Divididos em milícias, cada território fez suas próprias regras, contando com as próprias armas e o descaso de um governo que, exclusivamente voltado para a expansão por novos mundos, esqueceu da periferia dos campos, vales e montes para se fechar nos centros urbanos, berços do verdadeiro pensamento humano em busca do progresso. A própria Federação, incapaz de dividir suas tropas de maneira efetiva, viu a iminência da ruína: distribuir a ordem necessária pelas Terras Baixas – até então tudo o que era conhecido pelo homem, o mais vasto império formado – e manter o efetivo das tropas que desbravavam mares e terras, buscando, dentre outras coisas, os recursos embargados por Kresta após se separar dos federados, era impossível. O favorecimento de um lado destruiria por completo o outro, tornando inevitável a perda de um dos pratos da balança e, por consequência, a implosão dos alicerces do sistema.

Isso, até o esquema das Companhias de Guarda. Cada milícia passou a ser amparada pelo governo, contando com a distribuição de soldos, provisões, dentre outras assistências, desde que sob um conjunto de regras. Estas incluíam a limitação das armas de fogo, perigosíssimas quando escapavam das mãos oficiais, a elaboração de relatórios anuais e a restrição, sob contrato, das terras sob sua jurisdição. Evidente que o esquema primeiro se deu com as facções mais simpáticas à causa federativa, e estas, pouco a pouco, expandiram sua influência entre os outrora rebeldes, convencendo-os do prestígio que teriam como força da ordem, incontestável pelos adversários, apoiada por lei, e eliminando discretamente quem recusava. Assim, estendendo mãos invisíveis sob o que era ignorado, o controle se recuperou com uma reinvenção da política. Mente, e não espada, garantiram a unidade da Federação nos momentos de crise até fazê-la, nos tempos atuais, livre de seu flagelo.

Pelo menos, era nisso que se acreditava. Se Oliver ainda vivesse nas grandes cidades, veria a questão das milícias como nada além de sensacionalismos e piadas de mau gosto. Agora elas eram parte de sua realidade, parte esta da qual visava se livrar.

Seu mentor havia lhe contado que, caso aceitasse se tornar um adepto consciente, teria de lutar. Ele não mentiu nem uma palavra.

O sol se escondia no tapete de nuvens que cobria o alto, lançando tímidos raios de luz através das montanhas. Olhando para trás, o monte Cobengart preenchia o horizonte com o seu cone disforme e escarpado, seguido por uma cordilheira de elevações menores. À frente o vento se agitava, aquecido por algo além das forças naturais… O dedo do homem alterava seu humor, sentido por Oliver como lufadas súbitas na pele. Quando forçou as vistas, o prenúncio revelou um grupo de homens que se aproximava em seus cavalos mecânicos. Marca registrada de Acresya, dona da mais temida cavalaria das Terras Baixas em tempos antigos e agora referencial para a produção de máquinas de guerra. A princípio tratados com suspeita, logo os animais de aço, alimentados por caldeiras anãs, conhecidas por produzirem mais energia com menos recursos e quase nenhum peso, tornaram-se versáteis ao unir a ausência de fome ou sede com a quantidade de armas que poderiam ser acopladas em suas carcaças, transformando o peso em algo superficial com as distâncias que poderiam percorrer, incansáveis.

“Seria um bom lugar pra se morar…”, imaginou o rapaz, lembrando-se que era em Acresya, a região dos mecânicos, onde os homenzinhos da raça de Kresta eram melhores aceitos, usando de sua arte na forja para contribuir com os interesses da Federação de maneira totalmente voluntária. O fato da maioria que nunca pisou na cidade voadora, nascida após a divisão, mas ainda viva com a tradição dos antepassados, ter se concentrado ali era uma característica de peso… Os cavalos, por exemplo, jamais seriam possíveis sem as runas krestinianas desenhadas em seu interior, infundindo o metal com “propriedades metafísicas”.

Um bom lugar para se morar, se você fosse anão. Pois os Cavalos de Aço também eram a marca registrada, literalmente, de uma das Companhias de Guarda mais influentes das Seis Regiões. Com sede em Acresya, mas de domínio espalhado por outras terras através de entrepostos e tratados, geralmente se faziam a força da lei acima das outras. Por isso, um problema.

Um capuz, encardido e manchado, escondia as feições do rapaz. Para o grupo que se aproximava, ele não passava de um sujeito que acabara de sair de um buraco, estatura mediana, ombros destacados pelas alças de uma mochila de couro e silhueta se insinuando na capa que já havia perdido suas cores para o relento. Tentando mascarar sua identidade enquanto seguia por uma das vias principais de Alphina, a mais bairrista das seis regiões? No mínimo, um idiota perdido. Para Oliver, uma visão indesejada na forma de quatro homens montados, justamente aquilo que evitara em toda sua trajetória. Talvez fosse mesmo idiotice abandonar as precauções impostas pela experiência de andarilho, mas céus, Alphina era sua terra natal! Sentia a necessidade de, ao menos ali, seguir um caminho decente, sem embrenhar nas matas só para se livrar de assaltantes e veículos desembestados. Acreditou, num momento fútil, que os alphineses refinados por natureza reduziriam seus crimes a algo menos vulgar do que as vias de comércio, repletas de estrangeiros impuros. Até então, o conforto das pedras totalmente lisas, retas, sem viradas súbitas de direção, aliviava seus pés de tropeços no limo das rochas brutas, os músculos gemendo de satisfação por se limitarem apenas ao esforço de caminhar, sem subir, descer e atravessar riachos.

De longe, quando seu olhar cruzou com o do homem loiro na dianteira do grupo, duas coisas passaram por sua mente. A primeira se associava a questão dos “estrangeiros impuros”: os alphineses faziam suas próprias leis, tinham suas próprias Companhias de Guarda feitas apenas de sua gente, e jamais aceitariam a interferência de outros, mesmo que esses outros fossem os Cavaleiros de Aço, nos assuntos entre as montanhas. A segunda, uma conclusão óbvia da anterior, vinha denunciar as más intenções do grupo. Se não estariam autorizados a interferir ali, então o que faziam ao cavalgar na sua direção?

Sentiu vontade de erguer o braço e entoar a canção que libertaria seu dom, antes que os quatro tomassem distância de tiro. O bom senso lhe conteve, já que as chances de acertar todos de uma vez seria impossível. Contra os equipamentos pesados daquele grupo só teria uma chance, a qual não poderia se dar ao luxo de desperdiçar.

Alto lá, estranho – o loiro, de queixo forte e olhos de gelo, estampou toda sua arrogância ao empertigar o corpo. Assim que se aproximou, emparelhou a besta mecânica de lado, bloqueando a estrada. Um ruído quente, sufocante, ecoou por entre suas placas de metal até escapar pelas narinas, boca e contorno dos olhos vazios. Com um pouco de esforço por parte do cavaleiro, ela poderia erguer as patas ou balançar a cabeça, mais viva do que um animal feito de carne… De qualquer maneira, Oliver recuou do relinchar escaldante enquanto os outros três lhe cercavam. Não demorou para uma nuvem fina de vapor lhe cobrir, complicando a maneira de se enxergar o que havia além dos quatro gigantes.

Sabe que não deve caminhar sozinho por aqui, não é mesmo? – outro, de pele morena, provavelmente lucre ou acresiano, ameaçou rachar a estrada com as passadas de sua fera. O escárnio dominou seu rosto ao perceber o rapaz indo para trás – Mostre o que tem guardado aí, vamos.

De semblante fechado, Oliver aproveitava a deixa para analisar seus adversários. Os olhos, semicerrados pelo cenho, correram primeiro pelos cavalos mecânicos: sua estrutura disposta em placas escuras, castigadas pelo tempo, soldadas por pregos que não permitiam qualquer fissura; as patas que se afinavam até os cascos capazes de quebrar uma perna com o peso do aço; a maneira que algo parecia trabalhar incessantemente dentro de cada um, expelindo aquele vapor pelos orifícios em quantidades proporcionais ao esforço e, principalmente, as armas. Dos ombros esquerdos, gatilhos se curvavam até uma seqüência de três canos, longos, amparados por caneletas de ferro que garantiam suporte e certa mobilidade, alimentados por pentes de balas compridas, grosso calibre, formando cordões até uma abertura perto da sela. A estrutura nas costas devia ser aberta para a reposição dos pentes, amparados por roldanas internas. Além disso, suportes nos flancos direitos apoiavam montantes de lâminas curvas, largas, com as guardas em formato de cunha. Sendo provável a existência de runas de Kresta no interior das cunhas, as espadas poderiam enganar a distribuição de peso usual, capazes de serem empunhadas mesmo quando os usuários estivessem a pé.

Então, foi aos homens: além do loiro havia outro de cabelos castanhos, parecidos com os seus, mantidos curtos e espigados. Eram os únicos que podiam se passar por alphineses de nascença, embora quem realmente fosse dali, como Oliver, compreendesse a farsa com um pé nas costas.  Comparado ao moreno que falou, o último do grupo tinha a pele mais escura, sem sombra de dúvidas um lucre de corpo delgado e sagacidade no olhar. Vestiam-se com armaduras de couro batido, leves o suficiente para não desgastá-los em poucas horas de batalha. Foram-se os tempos em que os homens deviam se cobrir como tanques de guerra, uma vez que estes já foram inventados: a blindagem do cavalo de aço compensava a das vestes, sem contar os escudos pequenos e redondos, feitos de metal, presos aos braços esquerdos. Onde estavam seus elmos? Todos os Cavaleiros de Aço que esbarrara nas suas andanças não deixavam a peça de lado. Teriam perdido? Talvez não passasse de uma quadrilha mecânica, outro problema recorrente na Federação, que roubava equipamentos para traficar entre as montanhas. Ou eram renegados em busca de pilhagem? Na realidade, pouco interessava: o vapor processado no interior das bestas era como uma violação sentida pelo seu dom, gritando com moléculas agitadas através dos poros.

Antes, havia planejado esperar que lhe subestimassem mais um pouco e, com o elemento surpresa em mãos, quem sabe um pouco de coerção e alguns truques de mágica bastassem para deixá-lo em paz? Se pudesse resolver qualquer situação sem o apelo da violência, ele o faria sem pensar duas vezes…

Porém, o grupo apertava mais o círculo.

Todo adepto aprendia a construir uma pirâmide metafórica para conter o poder que corria pelo corpo. A sua, sempre de paredes rachadas, começava a chiar.

Que assim seja”, disse ele em pensamentos quando o loiro desceu do cavalo.

Essa mochila parece muito pesada, meu rapaz. Ou seria uma mocinha escondida de nós? – arrancando risadas de seus companheiros, puxou o capuz de Oliver para trás enquanto outro, ainda montado, tragava a bolsa para si. Os cabelos castanhos, bagunçados pelo disfarce, caíam lisos até o ombro, as expressões afinadas de um nobre, endurecidas com o passar dos anos, com os olhos cavados em olheiras e os lábios rachados, sem contar a sujeira de quem não via um bom quarto há séculos.

Olhem só, ainda é alphinês!! Se perdeu da mamãe, minha linda? – o lucre de sotaque arrastado apontava os canhões em sua direção, malícia estampada no rosto – acho que vou brincar um pouco com você depois… Todos nós vamos.

Alheio aos comentários que rasgariam a dignidade de um homem, Oliver deixou o sujeito de cabeça espigada quase mutilar seus braços ao puxar a mochila. Sem reação, seu corpo balançou como se feito de pano. Parecendo desprovido de vontade, somente as pernas faziam o suporte do peso enquanto ombros, pulsos e cabeças pendiam para baixo. O que havia desmontado exibiu os dentes amarelados num sorriso de predador, se deliciando com o fato da presa ter se rendido.

Gostamos mais assim, não é verdade? – gritou para os outros, que responderam em uníssono, batendo palmas e rangendo o metal das montarias. Foi até o rapaz e o obrigou a se erguer com mão de ferro, sentindo um pouco de sangue descer pelo couro cabeludo. O que viu nele, porém, lhe deixou intrigado de início. Depois de alguns segundos, apavorado.

Os olhos do viajante se reviravam nas órbitas. A pele, que deveria estar vermelha de tensão, mostrava-se cadavérica. Pela boca entreaberta fugia o resquício de uma canção, muito baixa a princípio. Uma brisa, surgida de lugar algum, assobiou com a voz de mil fantasmas no meio do grupo, dispersando a nuvem de vapor das máquinas. Trocando olhares, os cavaleiros engatilharam suas armas no braço esquerdo, buscando a espada com a outra, deixando claro o que iriam fazer. Antes que se ouvisse o som das lâminas se desprendendo dos suportes, antes da primeira mira se destravar, o loiro percebeu algo no colarinho do rapaz, tilintando com o vento.

Um pingente de alumínio, o metal mágico, com uma figura serpenteando em volta de um osso retorcido, inflando a cabeça e gotejando veneno das presas. Uma naja.

Mas que… Recuem seus idiotas, recuem!

Sua voz, capaz de atravessar os vales quando se exaltava, não chegou aos ouvidos dos companheiros. Oliver entoava seu cântico em tom elevado, quase gritando com o esforço, mas ele também não chegou aos ouvidos dos outros, ou ao seu próprio, pois o que era uma brisa agora rugia com a fúria de um tufão, um chicote com todas as dimensões do mundo, guiado por sua vontade. A pirâmide se desfez, e o que havia dentro de si agora clamava parte da realidade de maneira brutal, definindo o que era um adepto enfurecido. Quando as rajadas de vento giraram ao redor dele, o homem mal pôde gritar. Sentiu as vísceras congelarem e o corpo sendo arrancado do chão, rodopiando em volta do feiticeiro com uma grande ironia: tanto ar lhe atingindo, e nenhum entrando nos pulmões.

Quando viu a outra metade de si passar diante dos próprios olhos, ele se deu conta da morte. Se os cavalos não fossem de aço, suas dores torturariam uma alma pela eternidade; bastava imaginar a agonia de se ouvir um deles ao quebrar uma perna multiplicada por dez. Nem os seus pesos foram páreos para o tornado, e antes que se espalhassem pelo chão em direções opostas, suas caldeiras explodiram. As chamas, irrompendo de diferentes alturas, transformaram o ataque num espetáculo no qual os cavaleiros observaram de dentro, carbonizando o que sobrou de sua carne num mesmo lugar.

Minutos depois, Oliver deixava um cenário de guerra para trás, a mochila nos ombros e o capuz na cabeça. Junto dele seguiam as passadas da brisa, acompanhando a canção de seus lábios.

Eu sou Jira Oliver… Eu danço com o vento…

tornado_by_itsabout2rain
“Tornado”, por itsabout2rain

*Este conto na verdade é o trecho de um livro nunca terminado, contando um pouco mais sobre o universo de Steamage (um trocadilho proposital, misturando “Steam Age” com “Steam Mage”). Este era um projeto meu em conjunto com Douglas Reverie, escritor e desenhista de mão cheia. Para saber mais sobre esse mundo à vapor, que um dia acenderá suas caldeiras outra vez, basta clicar aqui.

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2 comentários sobre “Eu Danço com o Vento

  1. Douglas Reverie 10 de junho de 2015 / 01:07

    Excelente Texto, meu Caro Steamer, vejo que as caldeiras estão se agitando novamente! e que o vapor sobe por entre canos de cobre!
    Adorei a escrita, de uma fantasia impecável!! Lembro vagamente de ler sobre a ideia anos atrás. …
    Também estou há algumas semanas aquecendo os encanamentos e dando partida nos motores.
    O Éter ira correr novamente em nossas veias muito em breve!
    Grande Abraço, meu caro, Heitor

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    • heitorvserpa 10 de junho de 2015 / 03:05

      Opa! Estou a postos capitão, basta me convocar e colocaremos esta banheira para voar outra vez. Obrigado pela leitura e pelo comentário man, tamo junto. Abraço

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