Malandro e Aquiles

Representação mais popular do Malandro, ou Zé Pelintra. A fonte desta versão remete à Azulejart, mas o mesmo desenho é encontrado em adesivos de carros e muros por todo o Rio de Janeiro
Representação do Malandro, ou Zé Pelintra. A fonte desta versão remete à Azulejart, mas o mesmo desenho é encontrado em adesivos de carros e muros por todo o Rio de Janeiro

O mulato bem vestido, todo em branco e vermelho, descia o Morro da Conceição. Os espíritos luso-brasileiros das travessas, imbuídos nas casas de azulejos, ali que um dia estiveram às margens de uma “pequena África”, mantinham o silêncio ante a passagem dele. O preto não veio para samba, capoeira ou qualquer tipo de festividade…. Nas pessoas de carne, uma ameaça ecoava em meio aos sonhos. Rebatia também nos acometidos pelos (insônia, dúzias de comichões, anseios) derivados da sensibilidade.

Guerra. Guerra. Guerra.

Na Pedra do Sal, esperando um dos guardiões dos povos bárbaros, o guerreiro de armadura completa chapava o escudo na lança, casualmente, incomodado com o silêncio, até o Malandro bater saltos no alto das escadarias. Sem desejo de precipitar confrontos e ao mesmo tempo louco para iniciá-lo em hora oportuna, Aquiles se ajustou. Seu belo rosto agora não passava de uma treva na abertura do elmo. A Liga Olímpica, metal divino que lhe cobria da cabeça aos pés, sem o polimento de outrora. Com os giros do tempo, a Civilização, não sem resistência, fora relegada a mitos e inspirações. Os deuses, sátiros, musas, heróis como ele, retornaram ao Caos Original. Lá permaneceriam, até a desconstrução atingir a podridão que os sucedeu. Estava próxima, e o ser de chapelão, flutuando em gingados, sabia disso, pois que vinha desafiado pelo outro.

Malandro não trazia arma, mas tinha navalha no pé. Cara a cara, sobre a pedra onde se fizeram muitas e muitas oferendas, os dois palestraram:

—Fostes sábia em querer me ouvir, entidade – disse o semideus, pose austera diante do vagabundo meio-inclinado na cabeça – Eu, Aquiles, filho de Tétis e Peleu, Rei dos Mirmi… Estás rindo-se de mim?

Era só um sorriso de canto, sinhô… A zoeira, na verdade, vinha dos arredores: o muro contorcia-se com as mãos nos grafites, até chorar lágrimas de tinta e reboco; as escadas oscilavam, segurando-se para não dar rasteiras em si mesmas; janelas batiam rá-rá-rá sem se moverem. Aquiles, pressionado por uma simples troça, guardaria os pensamentos se lhe constituísse o feitio: além de simplista, tinha pavio curto. Escarrando no chão, bradou com desdém:

—Pífia demonstração de poder, criatura! Esqueces-te que, embora pisemos em teus solos, é dos meus que provém o ultimato?

Fez-se um engasgo, rrrrrrrrosnando os últimos segundos. Sepulcro, eterno num instante, quando as energias brincalhonas se centraram no mulato. Malandro podia estourá-lo, torturá-lo num turbilhão de paradoxo. Ah, o paradoxo! Essência pura das ruas, de todo o Brasil e quiçá do mundo, que Malandro assumira a função de purificar. Ele, um trabalhador do bem, mascarava a tristeza de assumir seus lados mais obscuros…  Mas tinha de ser assim, era o jogo do outro, e havia de encarnar seus termos para dar-lhe uma lição:

—Vosmecê parece com o Seu Zé – então, deixando as últimas gotas da alegria naquele insulto ao campeão do Olimpo, ergueu os olhos. Duas pupilas mais negras que a pele dele, vazias de sentido e cheias de malícia – Seu Zé num gosta de se segurar.

Aquiles retesou todos os músculos, feroz no rosto que não existia, assumindo posição de ataque enquanto o outro punha um pé atrás, braço na frente, joelho flexionado, ameaçando bambear, esquerda ou direita. A tensão zunia ao ponto de tirar o equilíbrio de quem cruzava o bairro da Saúde: as vidraças de um táxi margeando o porto estilhaçaram, mas o motorista deu graças a Deus e ao Seguro por não estar com passageiros. Um mendigo, que andava com as calças borradas naturalmente, traquinava com as memórias da loucura até sentir o peito afundando, a cabeça rodando, e tombou morto a uma esquina da cena. Guerra, Guerra, ribombando mais alto nas psiquês da Conceição.

Por um longo tempo, algo de dias ou semanas terrenas, uma das maiores representações brasileiras fez voltas demoradas no cria do Centauro Quirão, embrutecido no Monte Pélion e depois instruído por Fénix, filho de Amintor, estudando-o enquanto ele também rodava, guarda alta e lança baixa, apontando.

—Falei pra num trazer arma… O sinhô não confia no Preto?

—Não sou eu quem deve se submeter à vontade de outro por aqui – Aquiles tremeu os ombros e emendou a fala num fio de gargalhada – E, se tu não sabes, as armas são parte de meu corpo, enquanto nem teu nome és capaz de agarrar.

Atingindo o oponente no ego, e sentindo a energia dele – imitação perecível do Caos, sem um milésimo do poder – se contendo com esforços menores, comparáveis a fios de pólvora, finalizou:

—O fim do teu povo se aproxima, o Caos que me abraçou envolverá a todos! Sabes disso, entidade, e sabes também que não resistirás ao Recomeço! Submetas-te ao Olimpo, rendas teus barracos aos termos de nossas pólis, e terás maiores chances de viver em paz! Recuses, e desejarás ser abatido neste exato momento, pois que, se as trilhas do Vazio não te devorarem, nossos escudos e nossas lanças choverão!

A palestra encerrou aqui. Era chegado o momento de o representante bérbere tomar uma decisão que marcaria a Recriação de todas as coisas, e… Ele estava acendendo um charuto? Rindo enquanto baforava? Os deuses desafiaram os cosmos e enviaram suas partes essenciais para discursar com um palhaço? Pois bem! O maldito havia tomado sua decisão antes mesmo de fal…

—O sinhô já sabe a resposta, né? – a resposta do mulato não surpreendeu Aquiles. O que lhe deixou perplexo foi o modo como, a partir de então, ele dialogava dentro de sua mente – Deixa o Preto explicar uma coisa, e que o sinhô parece ter esquecido ao desdenhar do nome dele.

—Basta, criatura inútil! – trovoadas rugiram ante a voz do semideus. Era tão diplomático quanto o sol era frio – Viva para reunir seus homens, enquanto lhe dou a

—Vosmecê precisa de cachimbo pra tirar nervoso, visse?  O Zé tava dizendo que os nomes são coisas poderosas, e o sinhô entregou o seu pra ele mais de uma vez…

Ele sabe tudo sobre você, Aquiles. Sabe que está fraco pela viagem através do Caos, sabe dos seus pecados e pontos fracos, sabe que você morreu de forma vergonhosa para um homem que nunca pegou em armas…

Sombria, a entidade discursou todos os detalhes do herói, traçando o passado de glórias e tragédias, navegando pelos rios do Hades, dissecando sua não-humanidade. Aquiles ouviu, o corpo retesado feito a corda que lhe disparou a flecha no calcanhar, até não suportar mais. Saltou da Pedra com um grito selvagem.

O Zé tá ganhando o jogo, e tá doido pra te dar lição.

Ao mesmo tempo, ele atirou o charuto aceso no peito de Aquiles. Acumulara o paradoxo em seus níveis mais cruéis no fumo, ao ponto deste explodir e lançar o inimigo tão alto, tão rápido e tão longe, que um avião destinado a Congonhas sofreu turbulências dignas de um tornado. Não restariam explicações lógicas para a Central, fora algo que pareceu lhes atingir de baixo, um surto de vento que se aproveitou de uma falha na aerodinâmica ou coisa do tipo.

Frações de segundo depois, o guerreiro bateu num arco soldado em armações de concreto durante a queda, arrancando-o do chão, ralando e afundando seu caminho entre centenas de postes de luzes. Engana-se quem o imaginou desprotegido, podado em chamas meteóricas, pois em pleno ar ele preparou o escudo para o choque e já estava de pé, sem nenhum arranhão, vendo a tal placa ao longe, semelhante a uma donzela de pernas abertas entre um complexo de colunas destruídas.

Da Pedra do Sal, a luta continuou na Avenida Intendente Magalhães, desprovida do carrinho simpático na entrada.

Outro movimento muito rápido fez milhares de luzes, dentro e fora das incontáveis lojas do autoshopping, incidirem sobre Aquiles. E os sistemas de alarmes, espectros do Tártaro gritando por toda a parte, lhe arrancaram mais um segundo de atenção: quando deu por si, o Malandro estava agachado à sua frente, naquela posição estranha de gingado. Sem dar chances de reação, ele atravessou a guarda do semideus e espalmou as duas mãos em seus joelhos, fortes o suficiente para quebrá-los… só que antes, houve resistência. A entidade reunira todas as cargas possíveis e impossíveis, distorcendo a realidade, evocando nomes que poucos Orixás sabiam, mas nenhuma força dentro ou fora desse mundo podia romper a essência de quem fora mergulhado no Estige ao nascer.

Sombra ou não, Aquiles ainda era indestrutível.

Quando a pressão do mulato cedeu, não havia mais Avenida, nem Madureira, nem Valqueire: uma explosão silenciosa resumiu a Zona Norte numa cratera. No ventre da destruição, o olímpico finalmente cravou sua lança no adversário, girou-o como um pedaço de carne qualquer e lhe espetou no chão, trazendo um cone de raios que se dissipou a milímetros de sua cabeça. Zeus coroando sua vitória!

—Amaldiçoado… – deveria existir uma amálgama entre arfante e triunfante para definir o estado de Aquiles diante do derrotado que gemia de dor, mas sem verter uma gota de sangue – Percebestes teu erro? Olhe em volta!

Quando o Preto ameaçava ceder, Aquiles o chutava no rosto, arrancando mais lágrimas e alguns dentes.

—Eu disse para olhar, criatura zombeteira! Vejas como tuas mãos arrasaram o que chamas de lar! Contemple-me, pois esta foi a noite em que trouxestes vergonha aos seus irmãos! Contemples aquele que levará um tapete de tua pele ao Olimpo!

Ao perceber que Malandro perdera o chapéu, Aquiles não só encontrou o objeto, como o dispôs à moda fúnebre sobre o rosto do zombeteiro.

Mais trovões encheram o Alto, única iluminação de um Rio em cataclisma. Se lembrar daquele avião parágrafos acima, basta saber que ele nunca chegou a Congonhas, dividido em oito dezenas pela Ira Celeste. Fragmentos de metal caíam ao redor de Aquiles, cruelmente desembainhando a espada, pronto para colocar as palavras em prática. Um deles, ainda em chamas – impossível definir se era a caixa preta fundida num corpo ou um boneco de cera untado numa turbina – lhe tocou o calcanhar.

Malandro traz navalha no pé…

De repente, o moribundo se fez transparente, até deixar de existir. Como da vez em Tróia, foi o ego de Aquiles quem lhe trouxe a própria ruína; não atentara para o fato de o inimigo possuir vários truques, esquecera a desvantagem de terreno com relação a ele, e por isso, às suas costas, o verdadeiro Preto talhou seus dois pés, fintou e emendou uma rasteira que o derrubou inerte no chão.

Ninguém pega o Seu Zé quando ele ginga. Ele só ta começando a te dar aula…

O herói apelou aos deuses, mas estes deram as costas para o seu destino. No longo prazo, receberam-no de volta torturado e humilhado, numa das plataformas de mármore que se sustentavam no nada. Os titãs, de mãos dadas, eram uma muralha viva e imune às loucuras do vácuo.

Zeus, não tão poderoso, discursou sobre como a falha de Aquiles, na verdade, permitira o avanço do Caos a passos largos. Perseu e Atlanta haviam retornado a pouco, cobrindo Oriente e África. Antes deles, Belefronte e Pégaso cumpriram o trajeto mais difícil, desbravando o Vazio em busca dos outros panteões reduzidos pela História. Enfim, somando o relato de Aquiles aos outros, as Irmãs do Destino conseguiram trançar um tabuleiro sobre o qual os deuses se reuniram, comparando e discutindo strategoi.

Decidiram, como próximo movimento, destruir todos os templos cristãos de uma só vez. Não negociariam com aquele mártir esguio, mas teriam nos nórdicos, célticos, nas tribos vítimas das colonizações, irmãs e irmãos de Caos, excelentes aliados quando lhes prometessem o direito de queimar anjos em fogueiras.

Quanto a Terra Brasilis, destruir a cristandade acirraria a disputa com os terreiros daquelas entidades aos níveis de uma guerra civil. Enfraquecidas, fragmentadas, seriam as primeiras a cair durante o Recomeço. E Aquiles, liderando os mirmidões, teria a cabeça do preto incrustada no escudo.

Foram estas as palavras do Oráculo sem Delfos.

Epílogo

No fundo do Atlântico, esperando as oferendas de final de ano, Iemanjá contemplava-se num espelho. De repente, a visão dela afundou pela lente e se deparou num oceano borbulhante e vermelho. No que parecia um abismo, a forma dela era a única luz, e com aquele mesmo espelho, mais garras, arpões, redes, lutava contra um ser barbudo e coroado que se movia como um peixe e rechaçava com um tridente.

—Guerra… – crescendo da tristeza ao ódio, ela sussurrou.

Na Amazônia, Iansã acompanhava a travessia de seus protegidos pelo Grande Rio, e do alto de uma árvore percebeu o céu se transformando num vulto quase indistinto. Viu-se cavalgando uma serpente emplumada enquanto trocava flechas com um homem que carregava o Sol numa carruagem.

—Guerra! – agitada, desapareceu na mata, deixando um poente flamejante para trás.

Numa encruzilhada que dava a visão perfeita do Palácio do Planalto, Exú Caveira fazia o balanço das almas. Por algum motivo especial ele abaixou o rosto e, ao levantar, estava em meio a uma tempestade de cadáveres, medindo forças com um demônio pálido. Entrelaçado no cabo-de-guerra, também trocava seu sopro da morte com as baforadas de fogo inimigo.

—Guerra – sob a capa, proferiu num vazio de sentimento.

Assim, simultaneamente, todos os Orixás e espíritos de variadas ordens se uniram pela decisão do Malandro. Nos ecos de um Rio de Janeiro arrasado, recebendo mais sensacionalismos do que reparos, as vinganças dos que se perderam.

Pelo ultraje do desafio contra a própria vida, cada ser vivo do continente bradou:

Guerra

Guerra

Guerra

Guerra Guerra Guerra

Depois do Fim, o Princípio viria do Caos.

Depois do Princípio, a Batalha viria dos Desgarrados.

FIM


Este é um conto antigo, disponível gratuitamente junto de outros na coletânea “Contos Heitorianos”. Para ter acesso e saber um pouco mais de meu histórico, clique aqui.

Inspirado no Allegro de New World Symphony, por Antonin Dvorak. E, naturalmente, no game que eu descobri a música: Asura’s Wrath.

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