Andarilho dos Sonhos #1

Eu tenho uma ligação muito forte com meus sonhos. Quase todos são lúcidos; eu sinto, executo ações complexas, posso até alterar seu andamento para algo que me favoreça ou livre de enrascadas. Creio que essa habilidade veio na infância, naquela terrível fase onde aprendemos a nos desligar do quarto dos pais.

Não lembro se foram meses ou o ano inteiro. Apenas registrei que, noite após noite, pesadelos me roubavam o descanso. Foram noites de lutar contra as pestanas, sabendo que fechá-las era a passagem de ida para o inferno. A paz vinha quando o cansaço me derrubava como uma pedra sobre o colchão. Sem sonhos, o “dormir” traduzido como “desmaio de emergência”.

Então, no próximo “durma bem”, o ciclo recomeçava. Em algum ponto desta loucura eu aprendi a me defender. Não faço ideia de como desenvolvi este auto-controle, mas tal qual um recorte simples na linha tempo, a Era dos Pesadelos se encerrou. A Era do Andarilho deu seus primeiros passos.

Eu não sou de falar desta peculiaridade. É algo um tanto pessoal, entende? E meio incômodo, pois muito do que acontece nos sonhos se reflete em meu corpo físico. Lembro, por exemplo, de um onde eu me meti numa briga: eu levei um empurrão, e no mesmo instante acordei com as costas estalando na parede (um dos lados da minha cama é “colada” nela). Na verdade eu estava “meio-acordado”, não sei… Como explicar isso?  Tipo ciente da realidade, mas com alguns fios presos no onírico. Pois foi nessa catarse que eu me impulsionei da parede para o colchão, voltei ao sonho e usei o embalo do meu corpo verdadeiro para devolver uma senhora porrada no cidadão. O resultado desta e tantas outras experiências: sono inquieto, corpo se debatendo, dores ao acordar, incômodo para quem dorme do lado, cama de solteiro, outrora arrumada, transformada num amálgama de lençóis e travesseiros digno de um rala-e-rola.

Eis, amigos(a)(x), a grande fonte de minha inspiração! Muito do que escrevi (e do que está anotado para o futuro), veio destas “viagens”. E o contrário também já aconteceu: uma cidade que eu planejei lúcido, em meio aos sonhos, me transformou num de seus cidadãos. Eu vi cada detalhe sórdido da minha mente traduzido nos hábitos daquela gente, eu andei entre multidões, me confessei na Igreja de Santa Ardra, senti os olhares de desprezo das sacerdotisas-fantasmas. Os monstros que criei fizeram questão de me mostrar como estavam vivos. E o rascunho da Cidade Sagrada de Ardra encorpou bastante no dia seguinte.

Agora vocês já sabem. Eu, Heitor V. Serpa, sou um Andarilho de Sonhos. Ou sofredor de paralisia do sono, síndrome de membros inquietos, sei lá… É meio difícil de explicar o inexplicável, mas como diria o poeta, “num sei, só sei que foi assim”. O que tenho certeza é da quantidade de pessoas curiosas sobre como é um sonho lúcido. E nisso eu tenho experiência de sobra. Gostariam de ouvir mais casos? Os mais marcantes que aconteceram, e os que de certo virão a mim nas próximas noites? Talvez, esses relatos sejam uma forma de produzir conteúdo nesta pocilga. Ou numa futura newsletter… Enfim, já tenho uma história engatilhada para publicar nos próximos dias; foi mais uma “experiência sobrenatural” do que um sonho em si. Fiquem ligados, e me desejem bons sonhos. Eles são mais fáceis de atravessar.

Impossível falar de sonhos sem lembrar desse quadro do Van Gogh, podiscre.
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