Andarilho dos Sonhos #3

Vamos esquecer as paradas que Freud e derivados teorizaram sobre os sonhos. Tentarei defini-los a partir de minha experiência pessoal. Acredito que eles funcionem da seguinte forma: há um “tecido imaginário” – no caso, a ideia do sonho em si -, e este tecido se reveste das referências e preocupações armazenadas em nosso subconsciente. Em uma experiência lúcida, é possível alterar a ordem dos acontecimentos e o próprio cenário a partir do momento em que o sonhador percebe esta “pele” por cima da imaginação.

Ao menos, foi assim que eu aprendi a me defender das partes mais aterradoras. No momento é mais fácil de eu explicar como funciona este mecanismo, pois a visão da última madrugada (30/01/2016) ainda está fresca. Nela, eu fazia parte de um grupo de refugiados em um abrigo escondido magicamente; a única forma de entrar e sair era com um punhado de terra do próprio refúgio. Atirávamos o solo pelo ar, o que criava uma espécie de funil interdimensional para o “mundo real”.

Quando atingi a lucidez – isto é, mergulhei fundo ao ponto de esquecer que tinha um corpo de verdade numa cama na zona norte do Rio de Janeiro -, instantaneamente descobri uma parte das referências: Harry Potter. Tinha magia e refugiados, ora essa! Eu sou fã, então a ideia bruta usou retalhos do último livro para se definir. A partir daí o sonho virou um livro aberto. Seja lá o que acontecesse, eu tinha um arsenal de possibilidades disponíveis para me livrar.

Então veio o primeiro obstáculo. Um de nossos colegas era insano: ele tinha a cabeça virada do avesso, o queixo no lugar do crânio e o couro cabeludo ligado ao pescoço. A “coisa da qual a gente se escondia” fez algo muito ruim para ele… só que o sujeito, se aproveitando desta condição, assediava todos os presentes. Meus colegas ignoravam, não era culpa dele, mas no caso eu era a vítima preferida das mãos e da língua invertida do cidadão.

Uma paralisia horrível, assim seria na época em que eu não tinha experiência o suficiente para me defender da minha própria mente. Só que agora, minha lucidez captava outra derme daquele universo: bullying. Como 99% da população, eu sofri muito com isso na época de colégio… E encaixando o assediador numa ideia que eu conhecia pedacinho por pedacinho, associando o que ele era com as regras daquele sonho (Harry Potter, magia existe, eu posso fazer mágica), simplesmente decidi que ele não deveria mais existir.

O coleguinha gritou de dor quando seu corpo se desfez em objetos geométricos, desconstruído até virar nada.

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É isso aí mlq, tu achava que Voldemort era cruel?

Normalmente, uma alteração brusca é o suficiente para a pessoa despertar. Mas como estava nos limites estabelecidos para aquele universo, tive de encarar as consequências dos meus atos… Uma colega querida – “é a Hermione daqui”. Mais um trechinho assimilado, ou eu decidi que assim seria? -, me levou ao “chefe”. A aparência dele se construiu como a de Lucius Malfoy – “inimigo, outro assediador” -, e ele estava brabo, MUITO brabo. Acontece que o “coleguinha doente” era filho dele! Afinal, tratava-se de um pesadelo… E a moral de um pesadelo é “o Heitor tem que se foder”. Porém, suas linhas estavam nas palmas das minhas mãos mais uma vez. Eu podia fazer mágica, e se detinha a capacidade de fazer um chato sumir…

Eu cortei as sinapses no corpo do chefe. Ele não morreu, mas desabou calminho em sua cadeira de Godfather (pera, tinha máfia além de mágica? Agora eu não lembro, mas era a cadeira do Corleone, isso eu guardei com clareza). Meu subconsciente sabia que, para se manter nas regras e não despertar assustado, pegar pesado estava fora de cogitação.

Depois disso eu e a colega fugimos para o “mundo real”. Aqui a “lógica do sonho” me pregou uma peça… éramos refugiados, e sair de repente para uma zona de perigo era sinônimo de pedir pra te acharem. Veio o terceiro obstáculo: os “comensais” (bullies, de novo). Eles não eram exatamente como os de HP: tava mais pro estereótipo de “agente do mal vestido de preto e pronto pra fazer umas atrocidades”.  Três deles surgiram de repente em nossa frente, quando estávamos num ponto de ônibus no centro do RJ…. Acho que na Presidente Vargas.

Aí me dei conta de uma parada interessante: a epiderme desta experiência parecia com o universo de Hogwarts, mas não seguia exatamente as mesmas regras. Quando desintegrei o palhaço e dei um soniferus totalus no chefe, não usei varinhas nem palavras de poder. Então havia mágica, e sem limites pré-definidos… Daí eu te pergunto: quantos sistemas diferentes de magia um autor de fantasia conhece?

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POWER OVERWHELMING, BITCHES!

Todos estão familiarizados com “World of Darkness”? É aquele universo de rpg que tem vampiros, garous, magos, etc. Focando nos magos: existe uma esfera chamada “Entropia“, que basicamente é o controle do fator sorte/azar. Minha colega era a “Hermione” em um cenário de magia sem limites, logo ela seria inteligente o suficiente para se lembrar disso, certo? Eu não sei dizer se a personagem seguiu a ideia sozinha, baseada nas regras pré-estabelecidas do cenário, ou se eu a controlei para fazer isto – na verdade, o tecido do sonho já estava frágil, sinal de que acordaria em breve -, mas enquanto eu procurava uma brecha pra fugir, eis que a mina CAPOTA UM FORNIQUENTO CAMINHÃO PIPA NA DIREÇÃO DO PONTO DE ÔNIBUS!

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Eu e os comensais nessa hora

Depois desse fodendo plot twist, creio que o pesadelo acabou: tive uma lembrança vaga de nós dois no topo de um prédio, usando um saquinho de terra do refúgio para voltarmos à segurança, então acordei sem gotas de suor, tranquilão, pronto pra outro dia.

Não é a primeira vez que atravesso um plano louco como este, e provavelmente não será a última. Mas aprendi a não temer os pesadelos: quando eles aparecem, só preciso de lucidez dentro de minha própria imaginação.

E é por isso que eu já acordo cansado, mãe.

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