O Segundo Derramar

Arte Segundo Derramar Clay
Arte de Clayton Tavares de Alencar (Magitopia). Para conhecer mais de seu trabalho e entrar em contato, basta clicar na imagem
Poucos olhares se dirigiam para as estrelas naquela região de Anshar. Talvez, nos bancos de areia, algum casal ligasse suas promessas e coisas mais físicas ao infinito logo acima. No píer, quem não se ocupava em carregar suprimentos se entretinha com aguardente barata, histórias de pescador e prostitutas, nem sempre ao mesmo tempo e não exatamente nesta ordem. Longe dali, o Forte do Farol observava. As muralhas, junto de todo o aparato militar, eram recentes, não mais que dez gerações desde a construção. Cercavam, com seus blocos cortados de granito, quase todas as faces do velho guia dos mares, escavado na rocha bruta como os antigos fizeram em terra, na região do Castelo.
Depois da experiência com os corsários dominando a cidade, a vigilância exigiu muito mais que uma simples luz.
Tempos conhecidos como sombrios. Extermínios de miseráveis eram financiados como jogos de caça. Assassino constituía profissão estável. Mulheres não saíam sozinhas, pois sua exposição era sinônimo de pernas abertas. Todo cidadão andava armado, gostasse ou não; era isso ou fazer papel de cadáver nas centenas de relatos compartilhados pelas tabernas. Os piores dos cães marítimos entremeados aos corruptos terrestres, togas ou fardas, não fazia diferença. Tempos esquecidos, e então, diante das sombras que nunca abandonavam uma vida citadina, romantizados como um período de justiça, da maldade que não saía impune, dos homens que faziam suas próprias leis e podiam, assim, proteger dignamente suas esposas e filhas. Neles, “tudo isso aí” não existia, ao menos não de modo a prejudicar certas famílias… Muitas cresceram, acumularam tesouros na época dos “gloriosos homens do mar”, e agora, passados alguns séculos, desejavam para si a glória dos antepassados. Mesmo que esta fosse uma cela recheada de aparelhos de tortura.
E, no seu esforço conjunto, estavam conseguindo. O Forte do Farol, construído para afastar os esqueletos do passado, agora abrigava seus navios para o segundo derramar.
Debruçado a estibordo, o capitão Rackham fiscalizava o desembarque de sua carga. Alguns guardas, uniformizados com o azul e escarlate da Marinha, faziam o mesmo de mosquetes em punhos e expressões fechadas. Um deles, com três listras na ombreira denunciando a patente superior, conversava com o imediato. Ao invés das armas, papel de cânhamo e caneta-tinteiro.
“Muito bem, o que vocês trouxeram para a festa?”
“Ora, o que mais além do anunciado nos painéis de Porto Base? Armamentos, velas para reparos, pólvora, o tipo de coisa utilizada em invasões como esta”.
Rackham não precisava ouvir a conversa para adivinhar seu conteúdo. Mantinha as atenções em outros detalhes, num misto de êxtase e descrença: os outros nove navios ancorados, três filas de três, interconectados lateralmente por rampas. Muitos piratas para pouca fortaleza… sendo o Hangman primeiro de uma nova série, era de se esperar no mínimo mais dois brigues lhe fechando em breve. No alto, o farol mantinha-se apagado, um dedo sombrio apontando as estrelas; não fossem as escoltas distribuídas pelo caminho, cuidando de mantê-lo atrás das muralhas que se escondiam de Anshar, provavelmente teria se lançado sobre as rochas ou entregue sua posição. Ou seja, uma armada inteira deslizando sobre o nariz deles, o marco dos mares desativado, e a capitania não mandou nenhuma corveta averiguar? Céu aberto, correntes estáveis, e sem lunetas para lhes flagrar? Parecia fácil demais. Ou todos os fardados em terra comungavam com os lhes recebendo no Forte, ou este era o maior golpe de sorte da História.
Quebrando seus anseios, uma silhueta lhe fez uma saudação antes de subir a ponte. Focando o olhar, discerniu um senhor com barba cheia, queimaduras de sol distribuindo-se pela face, olhos pequenos, cabelos ocultos num turbante dourado. Traços dos desertos, possivelmente vindo de Abn’Khalid, único sultanato grande o suficiente para se lançar aos mares exteriores. Se isso não bastasse para denunciar suas origens, o broche de sol farpado na túnica o faria: era como os devotos do ocidente representavam Mishaal, por aqui conhecido pela figura angelical de Nuriel, o Misericordioso.
Bem, não se lembrava de algum navio comandado por khalidanos; exceto o Grande Masir, afundado a cerca de cinquenta anos, quando era moleque e seu avô ainda comandava o Hangman. As vezes, dar-se conta de que era um dos lobos mais velhos do mar, contendo a idade de dois antepassados na sua, pesava na consciência… Quantas esposas havia largado ou perdido? Tristan, o Insaciável, devia ser o único a lhe superar neste quesito. Seu Impactus estava por ali, fácil de reconhecer pela carranca, dentre outros protagonistas das canções mais populares em Porto Base. Dentre tais lendas, teve certeza de que o estranho não estava sequer incluso nas tripulações quando abriu a boca:
— Capitão Oliver Rackham Terceiro? Sua chegada era mais do que esperada – estendeu-lhe a mão para um aperto amistoso. Pelo estranhamento do corsário, levou alguns segundos para acontecer. – Seu nome é um dos mais estimados para nossa regência, devo confessar.
— E você é…?
— El’Azar Hamid, arauto da nova aliança de Anshar com o Sultão. O afastamento da dinastia dos Lanceiros também serve interesses dele.
— Engraçado… – sem aguentar o sotaque manso, Rackham apoiou os cotovelos atrás do corpo, fitando o estranho de costas para o ancoradouro. – Você faz este corso soar como uma coisa de nobres. É por causa do título em meu nome?
Quando percebeu a seriedade no rosto de Hamid, o riso lhe abandonou:
Nah… Acho que você está falando sério – concluiu o capitão, sem obter resposta. O embaixador, pelo visto, reconsiderava as palavras sobre sua preferência. Ou estava na mesma dificuldade em entender a língua arrastada dos mares – Ninguém me falou sobre um reinado.
— Precisa se atualizar a respeito de seus antepassados, capitão. Quando se corta uma cabeça, outra deve ser posta. Anshar jamais seria livre para vocês sem…
— Eu sei como funciona o código dos reis piratas – interrompeu bruscamente o dos desertos, firmando a postura com autoridade. Ninguém faria Oliver Rackham Terceiro de idiota dentro do próprio navio. –, sigo muito antes de ratos de porão como você saírem das fraldas.
A ofensa não afetou o emissário. Ao invés, ele sorriu e esperou, conforme o desespero tomava a face do capitão. Como a maioria, havia pensado apenas em uma vida sem sujeira, fome e escorbuto ao se deparar com o chamado. Os tempos em que eles pintaram o sangue de azul, elegendo regularmente quem carregaria o diadema, eram uma lenda distante, quase tão antiga quanto a gênese. Só viam aquilo como um grande saque: nenhum deles, nem os mais sábios, acreditavam que uma retomada os elevaria ao nível dos ancestrais. Acumular especiarias, encher-se de grogue, violar quem andasse pela frente, tudo isso era esperado em diferentes escalas. Mas quando caía a ficha de que era algo mais sólido… Bem, era ali que Hamid os fisgava para sua vontade:
— …Isso lhe preocupa? – verbalizou os pensamentos de Oliver, que apenas concordou com a cabeça. Era tão óbvio, alguém como ele não deveria se entregar aos mesmos impulsos daqueles garotos brincando de pirata. Sua mente, tão afiada quanto nos primeiros dias de comando, não costumava nublar deste jeito. Poderiam as esperanças de uma vida melhor bloqueá-lo tão bem para a verdade? – É para isso que ratos como eu se juntam ao código… para fazê-los acreditarem em si tanto quanto o povo lá fora.
Diante da expressão de dúvida, o homem continuou:
— Pelo pedido de armas, suponho que imaginou um raide como todos os outros, mais a possibilidade de comprar terras com o tamanho do butim. Quer saber a verdade? – fez sinal para descerem do Hangman. Mesmerizado, o capitão esqueceu de seu orgulho enquanto lhe seguia. – Nada disso será necessário, meu caro. Anshar não se prepara para lutar, sequer resistir. Eles lhes desejam, capitão… mais do que tudo, acreditam no espírito dos mares para lhes libertar dos preços abusivos, da fome, das mãos atadas diante do crime… De todos os problemas do mundo.
“Que problemas?”, Rackham pensou. Algum deles havia passado ao menos um dia em alto-mar, sem nada além de um barril d’água, frutas secas e marujos solitários? Se pudesse trocar sua vida por apenas um dia de cão na urbe…
— Ninguém morrerá em nenhum dos lados – embasando as palavras do arauto, caixotes com o rótulo de veneno se espalhavam em maior número pelas docas. – Soníferos para a realeza, pós de cegueira e laxantes para controlar grupos. Com este material desviado por fontes seguras da cidade, nocautearemos os poucos opositores…
— Poucos? Há o suficiente aqui para derrubar a Península inteira! – Hamid ignorou o ponto, continuando seu discurso sobre as justificativas dos fins. Então, de repente, parou. As costas eriçadas, pescoço armado de quem ouvia alguma coisa. – Hamid?
— Perdão. Concluindo, Anshar cairá como um castelo de cartas. Agora, sugiro que siga nosso bom tenente até suas instalações – perto deles, um patente alta esperava o afastamento do capitão para guiá-lo. – os outros estão no salão comunal, discutindo questões como últimos detalhes do derramar, a nova bandeira, requisitos para eleição… Acredito que seu imediato esteja por lá, aproveitando do bom vinho e garotas. Cortesias dos desertos.
Deu-lhe uma piscadela, e pela primeira vez recebeu um sorriso. Rackham Terceiro carregava questionamentos perigosos, mas no final mostrou-se uma mente tão fácil de dominar quanto as outras. Enquanto ele se afastava, o arauto deixou a malícia inundar seu sorriso. Voltou as atenções para a presença que desviara sua atenção, não quebrando sua lábia por um triz:
— Estava me perguntando quando um de vocês apareceria.
Em meio as pilhas, dois orbes verdes como as matas de Kradenish lhe encaravam. Tinham um brilho fosco, como se lhe encarassem a alma por meio de uma camada de vidro. O pouco que se via no rosto sob o capuz eram dentes arreganhados, uma pequena cova se revelando conforme a pele do queixo esticava. Expressão de mais pura ira:
— Servo do Prisioneiro… – disse a criatura. Um olhar mais atento revelaria sombras tremulando sobre seu corpo, envolvendo-a sobre os ombros a partir das costas. Nada se via abaixo do manto, exceto uma poça d’água abaixo dos pés. Em uma segunda análise, filetes seriam detectados sobre a matéria escura, revelando certa solidez enquanto seguiam a gravidade –  Por que não estou surpresa em ver seus dedos nesta palhaçada?
— Palhaçada, você diz – Hamid rolou os olhos, gesticulando feito quem explicava algo óbvio para uma criança – É o que estes musgos tanto desejam, desde o começo dos tempos. Vocês não aprenderam ainda? Quero dizer, para alguém tão próximo do anjo da morte, um pouquinho de sangue derramado não devia…
Aconteceu rápido demais. A encapuzada tornou-se um borrão, e não fosse Hamid igualmente rápido, uma lâmina em forma de ferrão gigante transformaria suas vísceras num kebab. Ela seguiu o salto do arauto com as costas, virando com o cotovelo, mas bastou uma palavra do homem para uma barreira de chamas surgir entre os dois. Gritando mais de surpresa do que dor, a outra figura jogou-se para trás numa lufada de vento. Ao passo que se ajustavam ao tempo perceptível, viu-se que o manto na verdade eram asas, erguidas num arco suave conforme algumas penas de sombras, tão logos caídas, desvaneciam no ar junto do fogo que as consumiam. O corpo e rosto – este revelado no cair do capuz durante a luta – eram de uma mulher. Pele marrom, cabelos negros e pequenos em seu corte marcial.
— O equilíbrio entre a vida e a morte é sensível demais para a compreensão de uma mente derretida… – tinha o braço queimado, mas não fez menção de segurá-lo enquanto falava, timbre ofegante de quem interrompia um exercício – Você envergonha o sacrifício de Nuriel ao desejar a condenação deste mundo, lacaio.
— Agora você retorna ao diálogo? Que conveniente – risos de escárnio partindo do homem. Ao contrário da postura agressiva a sua frente, mantinha-se tão empertigado quanto no início – As muralhas deste mundo-prisão já estão condenadas, todos os celestes sabem disso. O Grande Mishaal, ou “Nuriel”, como queira, só foi o primeiro a não postergar o inevitável. Logo Azrael fará o mesmo.
A mulher avançaria outra vez, sentindo o impulso de arrancar o nome de seu patrono junto dos dentes daquela boca profana, quando sentiu vários olhos pesarem sobre si. Seis fardados em formação defensiva, mosquetes esperando a ordem de Hamid:
— Rapazes, matem logo esta puta das florestas. Aliás, desculpe… você é das arraias, certo? – para quem ao menos ouviu falar de Kradenish, a identidade da moça era um livro aberto: tinha a altura, ombros largos, e a arma que não era uma lâmina em forma de ferrão, mas um espinho genuíno, do tamanho de um antebraço, empunhadura feita com o couro do mesmo animal de quem arrancara o aguilhão em seu ritual de passagem, sendo também pele de arraia seu colete. Além de chegar no Forte do Farol a nado, provavelmente moldando as asas em barbatanas – Então matem logo esta puta do clã arraia. Tenho mais o que fazer…
Virando de costas, o Servo do Prisioneiro fez um gesto preguiçoso para autorizar o disparo. Embora a vontade dela envolvesse persegui-lo, as balas seriam tão fatais num ataque de oportunidade quanto em um humano comum. Ao invés, juntou as mãos e, após uma prece que duraria até o disparo inicial, voltou-se contra os soldados.
“Azrael, faça sua justiça pelas mãos. Que nenhuma alma tombe antes de seu tempo, e que os marcados não sintam dor. Assim seja”.
Encurtou a distância em menos de um segundo, desarmando o primeiro ao lhe virar o pulso. Outro lhe atacou com a baioneta, mas recebeu um corte profundo no antebraço com a ponta do ferrão, largando o mosquete enquanto berrava de dor. O estilo arraia era certeiro, mais rápido do que o pensamento, prevenindo toda a região de ameaça com ferroadas nos punhos, pescoços, atrás dos joelhos, tudo que se revelava entre as esquivas e ripostas. E era uma das melhores guerreiras do clã, Hamid soube no instante que a viu. Poucos eram dignos de receber as bênçãos de Azrael, o Justiceiro… Por isso, deixou-a se distrair com alguns musgos sob sua influência. Como o esforço dela em mantê-los vivos era fútil, pois assim que todos se encontraram caídos, contorcendo um círculo ao redor da moça, ele aproveitou a surpresa e invocou o poder de seu mestre para descer um pilar de chamas no meio do combate, carbonizando tudo em tons de laranja. Os gritos daquela escória, misturados ao choro dela enquanto derretiam; só isso já valia o esforço em fortalecer seu Senhor com aquele golpe de piratas e militares.
— Você não pode deter o ciclo do ódio, criança – em distância segura, deixava o fogo desaparecer do modo que surgiu, longe de afetar quaisquer carregamentos nas docas. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza – A queda de Anshar é apenas o primeiro passo para fora do mundo-prisão.
Em toda sua prepotência, não percebeu como a guerreira havia se coberto com as asas, estas desintegrando depois de receber quase todo o impacto. A tortura, mesmo para membros invocados temporariamente, excruciou feito o quebrar de um milhão de ossos ao mesmo tempo. Ela não esperou o borrão que havia se tornado o mundo solidificar; guiada pela energia infernal emitida pelo Servo, encontrou-o no espaço além dos sentidos e jogou toda a força de Azrael para as pernas. Hamid, acabando de virar as costas – de verdade desta vez –, apenas teve tempo de notar o ataque em sua visão periférica. Fez meia volta, expondo o peito para a arraia, e sentiu o coração explodir. O ferrão entrou tão cirúrgico que o corpo precisou de alguns segundos até processar a dor, esfarelando atrás do esterno, vazando o pulmão esquerdo, tirando os pés do chão quando sua algoz ergueu o espinho com as duas mãos. Aproximou-o bem do rosto chamuscado, devorando o medo que lhe vazava dos olhos com um sorriso rosnado.
— Diga a Azrael que Marini lhe enviou, filhote do inferno – sentenciou em voz gutural, então quebrou sua prece. Aquele marcado sentiria dor. Muita dor.
Nem todas as ondas do mundo abafaram seus lamentos, conforme Marini furava de novo, e de novo, e de novo, e ainda mais quando sentiu o sangue espirrar na pele. Geralmente era o clã jaguar quem deixava os inimigos retalhados iguais caças, mas a arraia fez a exceção… E ninguém no Forte veio auxiliá-lo. Enebriados em seus assuntos de glória, regados a vinho e as mais belas escravas de Abn’Khalid, sequer ouviram o combate. Não eram uma preocupação para ela: com a cabeça decepada, bastava acender o farol para alertar a cidade. Sem a influência do Prisioneiro, poucos apoiariam o golpe. O ciclo do ódio manteria seu tênue equilíbrio.
Assim ela pensava.
Iluminar a ilha não foi empecilho. Passados alguns minutos, refez as asas e planou, sem interferências, como um grande pássaro. Pousou sem ruído, nocauteando a sentinela azarada o suficiente para ficar de fora da algazarra lá embaixo.
Os mares se acenderam num clarão.
Enquanto Marini desaparecia no oceano, mergulhando do alto do farol, o tenente que guiara Rackham chamava um dos guardas:
— Quero esta luz apagada imediatamente. Eu cuido de alertar os capitães, diga aos outros para carregarem os navios. O ataque começa amanhã.
O soldado foi cumprir suas ordens, e o tenente sorriu. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza.
— Você não pode deter a Rebelião. Ninguém pode.
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Eu Danço com o Vento

Companhias de Guarda eram uma visão comum longe das capitais e grandes cidades, fruto de um engenhoso esquema da Federação. A união das Terras Baixas sob uma única bandeira, apesar de legitimada nos anais da história, não se fez assim na prática para todos os seus habitantes.

A lei, focalizadas nas grandes cidades e capitais, não alcançavam a vastidão das Seis Regiões. O surto tecnológico, desde a chegada dos anões de Kresta, a cidade-estado voadora, até a mais nova Era das Invenções, sim.

Fez-se um período negro na existência federativa, chamado Crise do Décimo Quarto Século. Literalmente, cem anos de violência desacerbada. As estradas se tornaram inseguras, pirataria tomou os mares e até mesmo o ar com o advento dos zeppels, ou dirigíveis de guerra. Divididos em milícias, cada território fez suas próprias regras, contando com as próprias armas e o descaso de um governo que, exclusivamente voltado para a expansão por novos mundos, esqueceu da periferia dos campos, vales e montes para se fechar nos centros urbanos, berços do verdadeiro pensamento humano em busca do progresso. A própria Federação, incapaz de dividir suas tropas de maneira efetiva, viu a iminência da ruína: distribuir a ordem necessária pelas Terras Baixas – até então tudo o que era conhecido pelo homem, o mais vasto império formado – e manter o efetivo das tropas que desbravavam mares e terras, buscando, dentre outras coisas, os recursos embargados por Kresta após se separar dos federados, era impossível. O favorecimento de um lado destruiria por completo o outro, tornando inevitável a perda de um dos pratos da balança e, por consequência, a implosão dos alicerces do sistema.

Isso, até o esquema das Companhias de Guarda. Cada milícia passou a ser amparada pelo governo, contando com a distribuição de soldos, provisões, dentre outras assistências, desde que sob um conjunto de regras. Estas incluíam a limitação das armas de fogo, perigosíssimas quando escapavam das mãos oficiais, a elaboração de relatórios anuais e a restrição, sob contrato, das terras sob sua jurisdição. Evidente que o esquema primeiro se deu com as facções mais simpáticas à causa federativa, e estas, pouco a pouco, expandiram sua influência entre os outrora rebeldes, convencendo-os do prestígio que teriam como força da ordem, incontestável pelos adversários, apoiada por lei, e eliminando discretamente quem recusava. Assim, estendendo mãos invisíveis sob o que era ignorado, o controle se recuperou com uma reinvenção da política. Mente, e não espada, garantiram a unidade da Federação nos momentos de crise até fazê-la, nos tempos atuais, livre de seu flagelo.

Pelo menos, era nisso que se acreditava. Se Oliver ainda vivesse nas grandes cidades, veria a questão das milícias como nada além de sensacionalismos e piadas de mau gosto. Agora elas eram parte de sua realidade, parte esta da qual visava se livrar.

Seu mentor havia lhe contado que, caso aceitasse se tornar um adepto consciente, teria de lutar. Ele não mentiu nem uma palavra.

O sol se escondia no tapete de nuvens que cobria o alto, lançando tímidos raios de luz através das montanhas. Olhando para trás, o monte Cobengart preenchia o horizonte com o seu cone disforme e escarpado, seguido por uma cordilheira de elevações menores. À frente o vento se agitava, aquecido por algo além das forças naturais… O dedo do homem alterava seu humor, sentido por Oliver como lufadas súbitas na pele. Quando forçou as vistas, o prenúncio revelou um grupo de homens que se aproximava em seus cavalos mecânicos. Marca registrada de Acresya, dona da mais temida cavalaria das Terras Baixas em tempos antigos e agora referencial para a produção de máquinas de guerra. A princípio tratados com suspeita, logo os animais de aço, alimentados por caldeiras anãs, conhecidas por produzirem mais energia com menos recursos e quase nenhum peso, tornaram-se versáteis ao unir a ausência de fome ou sede com a quantidade de armas que poderiam ser acopladas em suas carcaças, transformando o peso em algo superficial com as distâncias que poderiam percorrer, incansáveis.

“Seria um bom lugar pra se morar…”, imaginou o rapaz, lembrando-se que era em Acresya, a região dos mecânicos, onde os homenzinhos da raça de Kresta eram melhores aceitos, usando de sua arte na forja para contribuir com os interesses da Federação de maneira totalmente voluntária. O fato da maioria que nunca pisou na cidade voadora, nascida após a divisão, mas ainda viva com a tradição dos antepassados, ter se concentrado ali era uma característica de peso… Os cavalos, por exemplo, jamais seriam possíveis sem as runas krestinianas desenhadas em seu interior, infundindo o metal com “propriedades metafísicas”.

Um bom lugar para se morar, se você fosse anão. Pois os Cavalos de Aço também eram a marca registrada, literalmente, de uma das Companhias de Guarda mais influentes das Seis Regiões. Com sede em Acresya, mas de domínio espalhado por outras terras através de entrepostos e tratados, geralmente se faziam a força da lei acima das outras. Por isso, um problema.

Um capuz, encardido e manchado, escondia as feições do rapaz. Para o grupo que se aproximava, ele não passava de um sujeito que acabara de sair de um buraco, estatura mediana, ombros destacados pelas alças de uma mochila de couro e silhueta se insinuando na capa que já havia perdido suas cores para o relento. Tentando mascarar sua identidade enquanto seguia por uma das vias principais de Alphina, a mais bairrista das seis regiões? No mínimo, um idiota perdido. Para Oliver, uma visão indesejada na forma de quatro homens montados, justamente aquilo que evitara em toda sua trajetória. Talvez fosse mesmo idiotice abandonar as precauções impostas pela experiência de andarilho, mas céus, Alphina era sua terra natal! Sentia a necessidade de, ao menos ali, seguir um caminho decente, sem embrenhar nas matas só para se livrar de assaltantes e veículos desembestados. Acreditou, num momento fútil, que os alphineses refinados por natureza reduziriam seus crimes a algo menos vulgar do que as vias de comércio, repletas de estrangeiros impuros. Até então, o conforto das pedras totalmente lisas, retas, sem viradas súbitas de direção, aliviava seus pés de tropeços no limo das rochas brutas, os músculos gemendo de satisfação por se limitarem apenas ao esforço de caminhar, sem subir, descer e atravessar riachos.

De longe, quando seu olhar cruzou com o do homem loiro na dianteira do grupo, duas coisas passaram por sua mente. A primeira se associava a questão dos “estrangeiros impuros”: os alphineses faziam suas próprias leis, tinham suas próprias Companhias de Guarda feitas apenas de sua gente, e jamais aceitariam a interferência de outros, mesmo que esses outros fossem os Cavaleiros de Aço, nos assuntos entre as montanhas. A segunda, uma conclusão óbvia da anterior, vinha denunciar as más intenções do grupo. Se não estariam autorizados a interferir ali, então o que faziam ao cavalgar na sua direção?

Sentiu vontade de erguer o braço e entoar a canção que libertaria seu dom, antes que os quatro tomassem distância de tiro. O bom senso lhe conteve, já que as chances de acertar todos de uma vez seria impossível. Contra os equipamentos pesados daquele grupo só teria uma chance, a qual não poderia se dar ao luxo de desperdiçar.

Alto lá, estranho – o loiro, de queixo forte e olhos de gelo, estampou toda sua arrogância ao empertigar o corpo. Assim que se aproximou, emparelhou a besta mecânica de lado, bloqueando a estrada. Um ruído quente, sufocante, ecoou por entre suas placas de metal até escapar pelas narinas, boca e contorno dos olhos vazios. Com um pouco de esforço por parte do cavaleiro, ela poderia erguer as patas ou balançar a cabeça, mais viva do que um animal feito de carne… De qualquer maneira, Oliver recuou do relinchar escaldante enquanto os outros três lhe cercavam. Não demorou para uma nuvem fina de vapor lhe cobrir, complicando a maneira de se enxergar o que havia além dos quatro gigantes.

Sabe que não deve caminhar sozinho por aqui, não é mesmo? – outro, de pele morena, provavelmente lucre ou acresiano, ameaçou rachar a estrada com as passadas de sua fera. O escárnio dominou seu rosto ao perceber o rapaz indo para trás – Mostre o que tem guardado aí, vamos.

De semblante fechado, Oliver aproveitava a deixa para analisar seus adversários. Os olhos, semicerrados pelo cenho, correram primeiro pelos cavalos mecânicos: sua estrutura disposta em placas escuras, castigadas pelo tempo, soldadas por pregos que não permitiam qualquer fissura; as patas que se afinavam até os cascos capazes de quebrar uma perna com o peso do aço; a maneira que algo parecia trabalhar incessantemente dentro de cada um, expelindo aquele vapor pelos orifícios em quantidades proporcionais ao esforço e, principalmente, as armas. Dos ombros esquerdos, gatilhos se curvavam até uma seqüência de três canos, longos, amparados por caneletas de ferro que garantiam suporte e certa mobilidade, alimentados por pentes de balas compridas, grosso calibre, formando cordões até uma abertura perto da sela. A estrutura nas costas devia ser aberta para a reposição dos pentes, amparados por roldanas internas. Além disso, suportes nos flancos direitos apoiavam montantes de lâminas curvas, largas, com as guardas em formato de cunha. Sendo provável a existência de runas de Kresta no interior das cunhas, as espadas poderiam enganar a distribuição de peso usual, capazes de serem empunhadas mesmo quando os usuários estivessem a pé.

Então, foi aos homens: além do loiro havia outro de cabelos castanhos, parecidos com os seus, mantidos curtos e espigados. Eram os únicos que podiam se passar por alphineses de nascença, embora quem realmente fosse dali, como Oliver, compreendesse a farsa com um pé nas costas.  Comparado ao moreno que falou, o último do grupo tinha a pele mais escura, sem sombra de dúvidas um lucre de corpo delgado e sagacidade no olhar. Vestiam-se com armaduras de couro batido, leves o suficiente para não desgastá-los em poucas horas de batalha. Foram-se os tempos em que os homens deviam se cobrir como tanques de guerra, uma vez que estes já foram inventados: a blindagem do cavalo de aço compensava a das vestes, sem contar os escudos pequenos e redondos, feitos de metal, presos aos braços esquerdos. Onde estavam seus elmos? Todos os Cavaleiros de Aço que esbarrara nas suas andanças não deixavam a peça de lado. Teriam perdido? Talvez não passasse de uma quadrilha mecânica, outro problema recorrente na Federação, que roubava equipamentos para traficar entre as montanhas. Ou eram renegados em busca de pilhagem? Na realidade, pouco interessava: o vapor processado no interior das bestas era como uma violação sentida pelo seu dom, gritando com moléculas agitadas através dos poros.

Antes, havia planejado esperar que lhe subestimassem mais um pouco e, com o elemento surpresa em mãos, quem sabe um pouco de coerção e alguns truques de mágica bastassem para deixá-lo em paz? Se pudesse resolver qualquer situação sem o apelo da violência, ele o faria sem pensar duas vezes…

Porém, o grupo apertava mais o círculo.

Todo adepto aprendia a construir uma pirâmide metafórica para conter o poder que corria pelo corpo. A sua, sempre de paredes rachadas, começava a chiar.

Que assim seja”, disse ele em pensamentos quando o loiro desceu do cavalo.

Essa mochila parece muito pesada, meu rapaz. Ou seria uma mocinha escondida de nós? – arrancando risadas de seus companheiros, puxou o capuz de Oliver para trás enquanto outro, ainda montado, tragava a bolsa para si. Os cabelos castanhos, bagunçados pelo disfarce, caíam lisos até o ombro, as expressões afinadas de um nobre, endurecidas com o passar dos anos, com os olhos cavados em olheiras e os lábios rachados, sem contar a sujeira de quem não via um bom quarto há séculos.

Olhem só, ainda é alphinês!! Se perdeu da mamãe, minha linda? – o lucre de sotaque arrastado apontava os canhões em sua direção, malícia estampada no rosto – acho que vou brincar um pouco com você depois… Todos nós vamos.

Alheio aos comentários que rasgariam a dignidade de um homem, Oliver deixou o sujeito de cabeça espigada quase mutilar seus braços ao puxar a mochila. Sem reação, seu corpo balançou como se feito de pano. Parecendo desprovido de vontade, somente as pernas faziam o suporte do peso enquanto ombros, pulsos e cabeças pendiam para baixo. O que havia desmontado exibiu os dentes amarelados num sorriso de predador, se deliciando com o fato da presa ter se rendido.

Gostamos mais assim, não é verdade? – gritou para os outros, que responderam em uníssono, batendo palmas e rangendo o metal das montarias. Foi até o rapaz e o obrigou a se erguer com mão de ferro, sentindo um pouco de sangue descer pelo couro cabeludo. O que viu nele, porém, lhe deixou intrigado de início. Depois de alguns segundos, apavorado.

Os olhos do viajante se reviravam nas órbitas. A pele, que deveria estar vermelha de tensão, mostrava-se cadavérica. Pela boca entreaberta fugia o resquício de uma canção, muito baixa a princípio. Uma brisa, surgida de lugar algum, assobiou com a voz de mil fantasmas no meio do grupo, dispersando a nuvem de vapor das máquinas. Trocando olhares, os cavaleiros engatilharam suas armas no braço esquerdo, buscando a espada com a outra, deixando claro o que iriam fazer. Antes que se ouvisse o som das lâminas se desprendendo dos suportes, antes da primeira mira se destravar, o loiro percebeu algo no colarinho do rapaz, tilintando com o vento.

Um pingente de alumínio, o metal mágico, com uma figura serpenteando em volta de um osso retorcido, inflando a cabeça e gotejando veneno das presas. Uma naja.

Mas que… Recuem seus idiotas, recuem!

Sua voz, capaz de atravessar os vales quando se exaltava, não chegou aos ouvidos dos companheiros. Oliver entoava seu cântico em tom elevado, quase gritando com o esforço, mas ele também não chegou aos ouvidos dos outros, ou ao seu próprio, pois o que era uma brisa agora rugia com a fúria de um tufão, um chicote com todas as dimensões do mundo, guiado por sua vontade. A pirâmide se desfez, e o que havia dentro de si agora clamava parte da realidade de maneira brutal, definindo o que era um adepto enfurecido. Quando as rajadas de vento giraram ao redor dele, o homem mal pôde gritar. Sentiu as vísceras congelarem e o corpo sendo arrancado do chão, rodopiando em volta do feiticeiro com uma grande ironia: tanto ar lhe atingindo, e nenhum entrando nos pulmões.

Quando viu a outra metade de si passar diante dos próprios olhos, ele se deu conta da morte. Se os cavalos não fossem de aço, suas dores torturariam uma alma pela eternidade; bastava imaginar a agonia de se ouvir um deles ao quebrar uma perna multiplicada por dez. Nem os seus pesos foram páreos para o tornado, e antes que se espalhassem pelo chão em direções opostas, suas caldeiras explodiram. As chamas, irrompendo de diferentes alturas, transformaram o ataque num espetáculo no qual os cavaleiros observaram de dentro, carbonizando o que sobrou de sua carne num mesmo lugar.

Minutos depois, Oliver deixava um cenário de guerra para trás, a mochila nos ombros e o capuz na cabeça. Junto dele seguiam as passadas da brisa, acompanhando a canção de seus lábios.

Eu sou Jira Oliver… Eu danço com o vento…

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“Tornado”, por itsabout2rain

*Este conto na verdade é o trecho de um livro nunca terminado, contando um pouco mais sobre o universo de Steamage (um trocadilho proposital, misturando “Steam Age” com “Steam Mage”). Este era um projeto meu em conjunto com Douglas Reverie, escritor e desenhista de mão cheia. Para saber mais sobre esse mundo à vapor, que um dia acenderá suas caldeiras outra vez, basta clicar aqui.

Algumas palavras sobre dogmas, individualismo e justiça social

ESSE ARTIGO POSSUI UMA VERSÃO REVISADA E AMPLIADA NO MEDIUM.COM. MUITA COISA MUDOU EM MINHAS CONVICÇÕES PESSOAIS DE LÁ PARA CÁ, MAS DEIXAREI O POST ORIGINAL POR MOTIVOS DE: NÃO QUERO PERDER AS POUCAS VIEWS QUE ESSE BLOG TEVE. ESTÁ TUDO EM NEGRITO E CAPS LOCK PORQUE HOJE EM DIA INTERPRETAÇÃO DE TEXTO É UM PROBLEMA, ENTÃO A GENTE TEM QUE SER ENFÁTICO.

LINK PARA O ARTIGO REVISADO AQUI.

Então pessoal, esse é um assunto bem delicado.  Quando não concordo com alguma colocação do feminismo, dos movimentos de esquerda em geral, silencio a vontade de manifestar opinião com o que chamo de “licença humana”; ora,  toda corrente de pensamento é feita por pessoas. Estas, independente de etnias e orientações sexuais, tem o direito a não serem perfeitas, mas contraditórias e, inevitavelmente, falarem groselha em algum momento. Não é algo ruim achar a hipocrisia, mas um atestado de que ainda há certa “alma” em meio ao discurso.

O problema começa no instante em que as próprias se engessam, recusando qualquer evidência capaz de questionar seus ideais. Quer uma prova? Você provavelmente está de nariz torcido desde que leu o termo “feminismo”, e agora segue com a periculosidade de dez Sherlocks, em busca de qualquer coisa, um grão de areia fora do monte, para ativar a enzima do “tinha que ser omi chorando mesmo” (termo hilário, diga-se de passagem. Dá vontade de chamar pro Duelo Xiaolin).

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Moeda dos mantídeos

Vamos a um exemplo simples, enquanto minha cova está rasa. Vejo o reforço de frases como “não existe mulher machista, apenas as oprimidas pelo sistema”; sempre que leio, imagino a metáfora do rato. O animal está acuado em um canto, com um gato a poucos centímetros de seu rosto, aparentemente sem saída. Sua solução? Fechar os olhos, pois se ele não enxerga o gato, então o gato não existe. Em outras palavras, cria-se um dogma, uma crença inabalável que nega qualquer princípio de lógica, mesmo que seja matemática e socialmente impossível ter metades exatas de opressores e oprimidos. De todas as mulheres no mundo, então não existe uma que não se sinta pressionada pelo “sistema”, que o propague por livre vontade? Tanto se fala em diversidade, mas esta diversidade, necessariamente, segue apenas uma linha, a sua linha de pensamento? Me chama de Sr. Spock, pois isto é ilógico.

Tomemos uma família patriarcal clássica. Nela, o homem provedor se ausenta da casa. Quem, então, ensina pra filha como ser “menina direita”, cozinhar, passar? Quem é que não cobra as mesmas coisas de seu irmão, pelo simples fato entre suas pernas? “Ah, mas essa senhora foi oprimida pelo sistema…”. Então, ela também veio de uma família patriarcal clássica. Quem é que lhe ensinou?

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Acertô

Mais um dado, geralmente usado para menosprezar a luta das moças – o que,  em momento algum, é a intenção desse texto. O autor, inclusive, assinou um manifesto a favor da diversidade na literatura. É meio que seu dever produzir conteúdo a respeito – : a maior taxa de mortalidade entre os homens, o que não só desconstrói essa redução 50% A e 50% B, como expõe um backlash do próprio “sistema” contra seus supostos senhores. A mídia, a todo momento, nos incentiva a beber como um sinal de virilidade, a destruir os pulmões com classe, dirigir em alta velocidade com o carro que baterá virilhas tão fácil quanto as portas. Desqualifica o choro, demonstrações de dor, coloca sua masculinidade em cheque pelo simples fato de assumir um abuso. Afinal, macho nenhum deixa lhe encostar sem partir pra porrada. Ele tem que se garantir. E, mesmo com esses fatos dançando o passinho do moleque transante na sua frente, uzomi são todos opressores resistindo para não perderem seus privilégios. O feminismo não se trata deles, então quem caralhos liga para exceções?

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Olhe aquela mulher objetificada, consumidor. Agora esvazie caixas e mais caixas de nosso produto, abra sua cirrose, coloque-se sob o risco do coma, apenas para ser parte da rodinha.

Mas por que isso acontece? Por qual motivo essas evidências, mesmo que tivessem uma tese de doutorado com toda a bibliografia disponível, ainda soam como male tears? A explicação se encontra em nossa vivência: nunca, em toda a História, houve um culto tão grande ao indivíduo quanto nestes anos. Todos se julgam especiais demais, evidentes em meio a uma massa cinzenta. Fala-se em “sororidade”, mas o um sobrepõe ao todo. Reclama-se da arbitrariedade do Estado, dos linchamentos, mas nosso desejo por justiça social atribui “inimigos” por questões de vírgulas, e pobre daquele que ficar no caminho da turba virtual. Trabalhos como o de Joss Whedon, conhecido por promover a diversidade em seriados como Buffy e Dollhouse, transformados em nada por conta de uma personagem mostrando fragilidade em um filme de super-heróis. O “não me senti representada e vou reclamar disso”, convertido em “todas não se sentiram representadas e devem reclamar, de preferência ameaçando a vida do infeliz”.

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Como você ousa se sentir um monstro por não poder ter filhos em pleno século XXI? Você não é Vingadora, você é moleca!

Se, por um lado, essa pressão acarreta em resultados maravilhosos, vide o novo Mad Max, por outro engessa completamente os enredos, obrigando o autor a pisar em ovos para não desagradar o individual/coletivo. Este vídeo sobre o tema (assistir até o fim), é certeiro ao afirmar que dificilmente a Warner vai se arriscar com mais heroínas. A única que passou do pente já provocou essa publicidade negativa só de mostrar algo além de roupas colantes e chuva de morte, imagina se tiver mais? O anúncio de uma série protagonizada pela Supergirl, se provocou hype de um lado, logo foi abafado por acusações de “fazê-la submissa” pela contraparte. Como arriscar fora do padrão caucasiano e heteronormativo, se nada agrada? Deste modo, em defesa à diversidade e representação igualitária, impede-se a mesma de acontecer. Permanece a endemia que falei no outro post.

Há problemas sérios com o mundo? Sim. Porém, não importa quanto o zeitgeist insista em nos segregar “do resto”, não elimina o fato de sermos parte disso tudo aí.  E pelo amor dos filhinhos que nunca terei, não se deve parar com o barulho. A pressão por igualdade, fazer qualquer um pensar duas vezes antes de atirar sua pedra, é absolutamente necessária. O problema é quando lançamos as nossas sem esperar nenhum pio.  Se até os dogmas da Igreja, senhora de milênios, foram questionados, melhor se acostumar com a idéia de que alguém lhe lembrará do gato.

Abra os olhos e encare o problema dentro de seus domínios.

p.s: se alguém está pensando em arrancar o meu pinto, eu preciso contar uma coisa. Tirei ele antes de vir pra cá. Eu sou eunuco.

p.s (2): estou ciente da polêmica com o último episódio de Game of Thrones. Não o trouxe para a discussão, pois faço parte do coro das reclamações. Não pelo abuso em si, mas pelo modo gratuito que foi inserido apenas para chamar atenção, sem contribuir em nada além do choque. Aqui nas terras heitorianas, isso se chama “roteirista preguiçoso”.

p.s (3): já falei lá em cima, mas redundância é um mal necessário dos anos 2000. Em nenhum momento tive a intenção de deslegitimar quaisquer pautas do movimento feminista, pelo contrário, considero todas como válidas e necessárias. Não falei em “feminazis”, “falta de rola”, “misandria”, e nunca usarei esse tipo de infantilidade nos meus argumentos. O ponto aqui foi chamar a atenção para como o culto ao indivíduo é prejudicial, e pelo feminismo ser um dos assuntos mais em pauta, utilizei como exemplo ao alcance de todxs.

p.s (4): 4k

p.s (5): além da falta de atividade, a sequência de artigos políticos torna o ambiente meio chato, ao menos é como me sinto. Trarei mais ficção para cá; na verdade, o próximo post é um conto que não vingou no wattpad. Não consigo me acertar com aquela plataforma de jeito nenhum, então vamos trazer a arte para um ambiente que domino.

p.s (6): Esta página denuncia tais exageros de maneira sensacional. Recomendo.

p.s (7): Pirulla, também conhecido como “O Profeta”, gravou um vídeo a respeito de temas semelhantes. O timing foi tão perfeito que até me assustou.

p.s (8): Achei esse vídeo expondo algumas inversões nos E.U.A. Possui teor passional, e o vlogger cai numas falhas de lugar comum (colocando todo o feminismo num saco, o um sobrepondo ao todo que critiquei nesse texto), mas o ponto central continua válido. Só o palhaço que fez a legendagem promove o “direito dos homens”, sem comentários a respeito.

O Manifesto Irradiativo e um depoimento sobre representatividade

Em minhas idas à academia, costumo me sentir duplamente torturado. A primeira, lógico, é a tortura física, feita das maneiras mais criativas que aqueles aparelhos proporcionam. A segunda, e pior de todas, é a obrigação de assistir TV aberta na esteira. Vinte a trinta minutos com uma tela plana e gigante na sua frente, você tenta lutar, mas fatalmente seus olhos encontram os da Fátima e pronto, elitismo global in your face.

Durante a tarde, o carrasco muda para um dos programas mais egocêntricos da nação. Um programa feito de artistas que falam deles mesmos, e só. Não foi a conversa deste grupo seleto e seus erros de gravações, personagens, curiosidades e linhagem familiar que me chamou a atenção desta vez, mas uma matéria que exibia uma novela de sucesso da Índia: o pretexto, além do “olha, fizemos uma assim a pouco tempo”, era demonstrar como a violência doméstica era um tema que começava a ser discutido em uma história de larga amplitude popular. A princípio, foram os caracteres hindus que tiraram minha atenção do cronômetro. Depois eu fui para os artistas e… eles eram caucasianos.

Na Índia.

Velho… Na Índia.

Será que algum deles se sente representado?
Será que algum deles se sente representado?

Foi aí que eu pensei como aquilo deveria ser uma seleção por parte de nossa mídia, impossível os meios televisivos da Índia reproduzirem os mesmos vícios. Afinal, lá tem Bollywood… E acessando a página deles no facebook, esta é a foto de capa:

É, um tapa em nosso complexo de vira-lata
É, um tapa em nosso complexo de vira-lata

Lá ou aqui, quem domina os principais meios de comunicação são uma minoria. Não o tipo de minoria que teve o substrato para lutar pelos seus direitos no início do século XX, mas pessoas que não conheceram uma vivência fora de seus círculos privilegiados (os que vieram “de baixo” prontamente se esquecem disso ), e por isso acreditam que reclamações de preconceito e/ou representatividade são “besteira de gente querendo aparecer”. A literatura não é exceção: basta você pensar como a homossexualidade de Dumbledore nunca foi exposta durante os sete livros, enquanto a exploração de canons como Rony x Hermione ou Harry x Gina é livre e irrestrita. Dá a sensação de que este dado, junto de Cho Chang, esteve no universo de Rowling apenas para preencher uma cota. Que, não fossem as pressões externas, o tipo Reino Unido heterossexual permaneceria incontestável.

Não é culpa da autora, ela ainda produziu uma das histórias mais cativantes dos últimos tempos. Mas tem cotista mesmo assim.
Não é culpa da autora, ela ainda produziu uma das histórias mais cativantes dos últimos tempos. E ela é inglesa, for God’s sake! Mas tem cotista mesmo assim.

Eu não me considero um defensor da liberdade de todxs. Permaneço em uma posição bem confortável de homem hetero/cis, e vejo diversas contradições nesses movimentos sociais (o que não é necessariamente ruim, mas uma prova de sua humanidade). Foi o passar dos anos e o desenvolvimento de uma consciência crítica que chamou a atenção para o modo que eu vinha escrevendo e de quem eram meus personagens. O grande protagonista de meu livro nunca escrito era um assassino alto, pálido e de olhos verdes que vivia em uma floresta cercada de lobos. Minha primeira personagem de fanfiction era uma loiraça que ficava quase nua a cada duas cenas. Nenhum deles possuía um mínimo traço de conexão com a realidade ao meu redor, exceto pelo male gaze… Mas como fazer diferente, se o conteúdo ao qual tinha acesso não fugia destes padrões?

Como a literatura vai acompanhar todas as mudanças de nossa sociedade, se a sua essência é endêmica?

Foi então que eu comecei a mudar minha própria worldbuilding. Não neguei a influência estrangeira que permeia nossa cultura; os matadores encapuzados, reis e piratas continuam lá, mas ficou muito mais fácil de pesquisar e construir a partir do momento que troquei os lobos de uma floresta europeia por jaguares aqui do nosso continente. Aprendi que as diferenças anatômicas femininas não contam durante a confecção de uma armadura (valeu repair her armor!), e que ressaltá-las a todo tempo dá um aspecto alienígena ao que deveria ser humano. Da mesma forma, o que não condiz com minhas crenças/escolhas não deve se tomar, obrigatoriamente, como caricato.

Será este o motivo de autores sci-fi curtirem tanto a (semi) nudez?
Será este o motivo de autores sci-fi curtirem tanto a (semi) nudez?

A mudança não é fácil: sempre pego um vício ou outro precisando de uma repensada. Mas como uma andorinha não faz verão, eu também vejo outros autores. Gente que consegue pensar em diversidade de uma maneira mais ampla. Gente que me diz o quanto eu não devo me sentir sozinho neste universo elitizado das artes. Gente que desenvolveu um Manifesto, onde acompanhei a confecção e assinei com orgulho. Encerro com um trecho da iniciativa, dizendo que não são as emissoras de tv ou as grandes editoras responsáveis por determinar quem lhe representa. Basta ter a vontade para tal.

“Deflagrando Nossa Explosão de Diversidade

As criaturas evoluem, mudam e se adaptam às condições de seus ambientes. A vida traça seu próprio curso, gerando vidas diferentes e formando novos biomas. O custo disso é que algumas criaturas ficam estacionadas no tempo, alheias ao que acontece ao seu redor. De acordo com a Wikipedia—e nós achamos que essa é a fonte de informações mais punk que existe: “A irradiação adaptativa é um processo evolutivo em que organismos se diversificam rapidamente em uma multidão de novas formas, particularmente quando uma mudança no ambiente faz com que novos recursos fiquem disponíveis, criando novos desafios e abrindo nichos ecológicos”.
A mesma coisa acontece no mundo da literatura de gênero, pessoas diversas têm mostrado seus rostos no mundo—suas cores, amores e aquilo que são—mas essa diversidade não está alcançando as páginas de ficção e o mundo editorial como poderia. O mundo do papel e das telas ainda é dominado por homens cis brancos fazendo o que sempre fizeram e refazendo o que sempre fizeram. É por isso que acreditamos numa forma de tomar isso de assalto, fazendo barulho com o que temos e o que podemos para mudar esse cenário. Queremos que a literatura de gênero evolua, que abrace todas as pessoas do mundo e não apenas uma minúscula parte dele.
Por isso um movimento de ruptura se faz necessário.
No registro geológico de nosso planeta, o limite K-Pg é marcado por um alto nível de irídio—um metal raro na Terra e abundante em asteroides. Essa camada prateada é o indicador de que um mega impacto cometário foi o responsável pela devastadora extinção no fim do período Cretáceo, aniquilando grande parte das criaturas da época, entre elas os dinossauros não-voadores; permitindo que os mamíferos se irradiassem e nova vida florescesse nos períodos subsequentes.
É tempo de sujar nossas mãos com irídio e incrustar uma nova marca em nossa geração.
É tempo de uma explosão de diversidade—para deixar os dinossauros do preconceito, do discurso de ódio, e da ignorância, reduzidos a pó em seus estratos fossilizados; e abrir espaço para uma irradiação de novas criações.
As pessoas podem tentar te desanimar e te diminuir, mas nós acreditamos que o mundo é feito quando um bando de gente incrível se une para criar. Acreditamos que a ficção de gênero pode ser uma ferramenta para unir pessoas—que a fantasia pode mostrar outras mágicas e outros espelhos, que as naves espaciais podem ser as ferramentas para fazer com que as pessoas se encontrem na Terra antes do encontro com outros planetas.
O Manifesto Irradiativo é para todo mundo que já desejou ser aceito, para que saibam que sua representatividade importa.
Você é o motivo de estarmos aqui.

 

Jim Anotsu e Alliah

12 de Janeiro de 2015”

Confira o manifesto na íntegra aqui

Você pode assinar aqui e fazer parte desse momento lindo bicho

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South Park ou Danilo Gentili? Como entender a validade do Humor Negro em tempos “politicamente corretos”

Talvez alguns estranhem o fato de eu não mencionar Charlie Hebdo no título. No momento desta publicação eu não vejo outra coisa pelas redes sociais, divididas entre “je suis” e “je ne suis”, ambos utilizando de estereótipos e violência verbal para, ironicamente, discutir sobre a violência física do atentado. Isso me lembrou de outras situações onde o humor negro (também conhecido como “afrodescendente” ou “de péssimo gosto”) só não gerou mortes pois não inventaram um jeito de dar tiros virtuais por aí. Eu, como fã de um dos desenhos animados mais infames do universo, me sentia dividido sempre que pulava alguma crítica ao Rafinha Bastos por comer ela e o bebê, ou ao Danilo Gentili por satirizar o estupro. Como amaldiçoaria esses caras, quando chorei de rir no episódio que o Sr. Garrison criou um trauma de infância por nunca ter sido abusado sexualmente pelo pai?

Pois bem, esta semana levantou discussões suficientes para eu finalmente entender como é possível ser fã de South Park, Ted, Family Guy e derivados, ao mesmo tempo que se condena a intolerância de certos babacas disfarçados de comediantes. Levaria a boa nova heitoriana ao Facebook, mas outros acontecimentos, tais como o incentivo que tenho recebido de amigos (reais e imaginários) e familiares para retomar as atividades literárias, me trouxeram a este espaço. Então chega de enrolar e vamos para a aula.

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Conte-me mais sobre como esse Charlie era brabo

South Park foi criado por Matt Stone e Trey Parker a partir de duas animações que eles desenvolveram na faculdade. Uma delas, considerada a “alma” da série e seu primeiro episódio de fato, já apresentava os quatro protagonistas – Stan e Kyle, considerados alteregos dos próprios criadores, Cartman, um gordinho mimado e racista, e Kenny, um garoto pobre, tarado e, por algum motivo obscuro, sempre morto no final dos episódios. “The Spirit of Christmas” apresenta uma discussão entre os quatro durante um dia de natal, até o momento em que o Papai Noel e Jesus Cristo se envolvem em uma luta de vida ou morte para decidir de quem realmente deveria ser aquele dia. Eles pedem a ajuda dos garotos, que perguntam “o que Brian Boitano faria?” (piada revitalizada no filme de 1999). Daí a figura surge e faz um discurso sobre como o natal deveria ser uma época de confraternização, e tudo acaba em uma canção enquanto o corpo de Kenny é devorado por ratos.

Ah, os garotos chegam a conclusão de que o significado do natal é ganhar presentes.

Este, basicamente, é o tom seguido através das 18 temporadas, exceto pelo fato de Kenny não morrer com tanta frequência com o avançar dos anos. Seria loucura condensar aqui todos os grupos ofendidos pela animação, que vai de cientologistas a mórmons e ativistas contra a fome na África. Ao invés disso, focarei nos motivos que diferenciam o humor pesado de South Park e o livre preconceito, focando um episódio ou outro.

1) South Park direciona suas críticas aos opressores

Esta é uma máxima da qual os meninos do Colorado não escapam. Pensemos por exemplo no episódio em que eles apóiam, com todas as letras, a destruição das florestas tropicais: os quatro, depois de sacanearam uma professora que busca novos ingressantes para seu coral de sustentabilidade, são obrigados a participar de um tour pela Costa Rica. Entre as pérolas de Eric Cartman sobre os latinos, eles se perdem em uma floresta tropical e, depois de cobras e insetos gigantes, são sequestrados por pigmeus. O episódio acaba com as crianças salvas por um grupo de madeireiros que destroem a tribo junto das árvores e, com o apoio da professora que agora odeia florestas com todas as forças, modificam sua canção para incentivar a derrubada, pois “todos que defendem as florestas tropicais nunca pisaram em uma para saber como é”.

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Sim, pigmeus na América do Sul.

A lição aqui é clara: todos os grupos envolvidos em discursos sustentáveis só o fazem por interesse próprio, sem se importar em conhecer melhor seu objeto de proteção. Ao meu ver, criticar grandes corporações é bem diferente de fazer pouco dos que sofrem violências por parte delas.

Vejamos outro episódio que eu gosto muito. Neste, o foco envolve Mr. Garrison, professor da escola primária e um homossexual homofóbico (?) que resolve mudar de sexo só para dizer que é hetero. Ao mesmo tempo, Kyle é impedido de entrar no time de basquete da escola por conta de sua altura; Cartman diz algo como “lógico que você não poderia entrar, você é judeu. Judeus não sabem jogar basquete, isso é coisa de preto”. Acontece que, incentivado pela atitude da agora Mrs. Garrison, ele vai para a mesma clínica e faz uma cirurgia de mudança de cor (??), transformando-se em um negro, alto e imediatamente aceito em uma nova avaliação para o jogo.

Seu pai, Gerald, segue o exemplo do filho e resolve fazer uma cirurgia para se transformar em um golfinho (???).

Ele esguicha água
Ele esguicha água

A parte mais hilária é quando Mrs. Garrison estranha a falta de sua menstruação, acreditando numa gravidez e indo para uma clínica de aborto (esta se situa no meio da cidade com um cartaz enorme, onde mulheres e crianças de todas as idades MESMO entram livremente. Uma de suas cenas icônicas, não me lembro se é neste episódio ou em outro, é quando uma garotinha entra para fazer a cirurgia e o médico diz que ela não pode fazer aborto… sem um banquinho para altura). Ali, lhe explicam que ela não poderia engravidar, abortar ou menstruar pois não possuía útero nem ovários.

“E qual a graça de ser mulher se eu não posso fazer nada disso?”, ela diz. Decide reverter a cirurgia, mas o médico lhe explica que usou seus testículos para fazer os joelhos de Kyle em sua troca de cor (????). Ela tenta chegar a tempo de salvar as próprias bolas, mas estas estouram junto com as pernas do menino depois dele fazer uma enterrada. O episódio acaba com Mrs. Garrison tendo de aceitar sua nova condição e com o médico pedindo desculpas aos outros pacientes, pois não explicou que as cirurgias eram puramente estéticas e não faziam deles um negro e um golfinho de verdade. Invenções absurdas sobre o bem-estar por parte da comunidade médica é só um no meio dos estereótipos criticados neste episódio. Merecia no mínimo um artigo.

Por último, necessário destacar o modo que quase todos as sequências envolvem o retrato distorcido de uma ou mais celebridades: Tom Cruise como um egocêntrico que “não quer sair do armário” (literalmente, ele se tranca no guarda-roupas de Stan. O game lembra disso de maneira hilária); Russel Crowe como um valentão numa roupinha de pato donald que viaja o mundo num barco a vapor em busca de briga; Sally Struthers como uma tirana que empilha a comida dos africanos só para ela enquanto pousa de caridosa e preocupada.  O modo deles se exporem ao público levam ao segundo ponto que diferencia humor negro e “politicamente incorreto”:

2) South Park torna a realidade melhor ao exagerar seus aspectos negativos

Para explicar melhor, vou destacar um trecho da introdução de Lima Barreto em “Os Bruzundangas”:

“A “Bruzundanga” fornece matéria de sobra para livrar-nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui outros maiores e mais completos. Sua missão é, portanto, como a dos “maiores” da Arte, livrar-nos dos outros, naturalmente menores”.

Não acredito que o parágrafo mereça maiores explicações. Quando, por exemplo, uma das meninas da classe começa a desenvolver seios e faz todos os garotos ao redor agirem como neandertais, ao ponto deles esquecerem como se fala e cobrirem os muros de casa com pinturas rupestres, basicamente o episódio lhe diz que, embora não nos transformemos em macacos diante de estímulos sexuais, somos condicionados a agirmos como animais diante dos mesmos. Não é a mídia de South Park que fala isso, mas o médico que recusa uma cirurgia de redução de seios para esta menina por causa de sua idade e, logo depois, autoriza, sem pensar duas vezes, implantes para uma amiguinha que estava com inveja.

Quando uma professora da pré-escola se apaixona por um aluno, os dois começam a se atacar nos corredores, ir pra cama e tomar banho juntos, este absurdo é apenas um trampolim para mostrar a reação da polícia diante das denúncias de Kyle. “Seu irmãozinho de dois anos está saindo com a professora? Ela é bonita? O único crime aqui é não ser eu no lugar dele”

Quando Cartman, cansado de sempre encontrar o banheiro dos homens lotado no recreio, decide colocar um lacinho na cabeça e se declarar transgênero só para cagar livremente entre as garotas, a direção lhe concede um “banheiro privativo” separado de todos os outros, com cataratas e música ambiente. Stan percebe a armação e, ao acusá-lo de fingir, é chamado por todos da turma de “viadinho” (“cissy” no original, mistura entre “cisgender” e “sissy”)  por não tolerar as escolhas dos outros. Depois, não só descobre que seu pai é a cantora Lorde fora de casa, como sua namorada também se declara trans só para implicar com “Erica” e sua exclusividade. Sem saber mais sua verdadeira identidade,  o garoto permanece na dúvida mesmo depois da direção eliminar o banheiro trans e determinar que os alunos tem o direito de usar a porta que lhes deixar mais confortáveis.

Prestes a se decidir, é interrompido por um dos garotos. Ele diz, de maneira autoritária, que gente como Stan tem de usar o banheiro das “cissys”, o mesmo criado para Cartman, só com uma placa diferente. O racismo inverso deste e outros episódios é genial por demonstrar, através do absurdo, como os verdadeiros discriminados se sentem, basicamente como se mostrassem o cotidiano de um homem hétero/cisgênero em pele transexual por um dia.

Se você parar e pensar, os exageros não são tão grandes quanto parecem.

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3) South Park critica estereótipos no lugar de objetos

South Park está aí a quase 20 anos. Onze de setembro, eleição de Obama, acusação e morte de Michael Jackson, basicamente todos os eventos controversos que marcaram o crescimento desta geração da qual faço parte possuem algum episódio a respeito.

Osama Bin Laden anda com sonoplastias e tiques típicos dos Looney Tunes, mais parecendo uma invenção do que uma pessoa verdadeira.

Michael Jackson apenas tranca seu filho em um mundo imaginário, sem abusar dele ou dos outros meninos em momento nenhum. É preso depois que a polícia descobre uma prova de que ele era negro e novo rico.

Obama não usou a cor para se eleger, mas recebeu ajuda da China, que falsificou votos a seu favor em troca dos direitos autorais de Star Wars.

Além do exagero permitir uma visão mais detalhada de aspectos negativos do mundo, também permite um distanciamento tão grande de seus objetos que permitem ao espectador se divertir com a certeza de que, conforme o aviso antes dos episódios, todos os personagens são péssimas imitações e dublados muito mal.

Personagens. Não religiões, raças ou pessoas. Este é o cerne deste tópico, na verdade um apêndice do segundo, com o qual eu concluo esta análise que já está por demais extensa. Sem entrar em detalhes no caso Charles Hebdo, já discutido a exaustão por vários colegas, espero lançar uma luz para quem é adepto das formas controversas de humor saiba quando uma charge, uma piada ou um desenho só passa de ódio destilado ou possui algo depois da ofensa.

p.s: nem todos os episódios de South Park tem alguma coisa para criticar, Scott Tennorman é o exemplo vivo disso. Assim como o Rafinha, por exemplo, possui muitos momentos interessantes de reflexão. A generalização faz parte dos recursos que resumem o texto, sem ela isso aqui teria de virar artigo do google acadêmico.

BÔNUS: 25 momentos que South Park lhe fez pensar sobre a vida. Buzzfeed, usem com cautela
Tudo é ofensivo! Vídeo que demonstra a essência de boa parte dos episódios de South Park.
Entrevista dos criadores de South Park no TAM (The Amazing Meeting). Legendas em inglês.

That's all folks!
That’s all folks!