Malandro e Aquiles

Representação mais popular do Malandro, ou Zé Pelintra. A fonte desta versão remete à Azulejart, mas o mesmo desenho é encontrado em adesivos de carros e muros por todo o Rio de Janeiro
Representação do Malandro, ou Zé Pelintra. A fonte desta versão remete à Azulejart, mas o mesmo desenho é encontrado em adesivos de carros e muros por todo o Rio de Janeiro

O mulato bem vestido, todo em branco e vermelho, descia o Morro da Conceição. Os espíritos luso-brasileiros das travessas, imbuídos nas casas de azulejos, ali que um dia estiveram às margens de uma “pequena África”, mantinham o silêncio ante a passagem dele. O preto não veio para samba, capoeira ou qualquer tipo de festividade…. Nas pessoas de carne, uma ameaça ecoava em meio aos sonhos. Rebatia também nos acometidos pelos (insônia, dúzias de comichões, anseios) derivados da sensibilidade.

Guerra. Guerra. Guerra.

Na Pedra do Sal, esperando um dos guardiões dos povos bárbaros, o guerreiro de armadura completa chapava o escudo na lança, casualmente, incomodado com o silêncio, até o Malandro bater saltos no alto das escadarias. Sem desejo de precipitar confrontos e ao mesmo tempo louco para iniciá-lo em hora oportuna, Aquiles se ajustou. Seu belo rosto agora não passava de uma treva na abertura do elmo. A Liga Olímpica, metal divino que lhe cobria da cabeça aos pés, sem o polimento de outrora. Com os giros do tempo, a Civilização, não sem resistência, fora relegada a mitos e inspirações. Os deuses, sátiros, musas, heróis como ele, retornaram ao Caos Original. Lá permaneceriam, até a desconstrução atingir a podridão que os sucedeu. Estava próxima, e o ser de chapelão, flutuando em gingados, sabia disso, pois que vinha desafiado pelo outro.

Malandro não trazia arma, mas tinha navalha no pé. Cara a cara, sobre a pedra onde se fizeram muitas e muitas oferendas, os dois palestraram:

—Fostes sábia em querer me ouvir, entidade – disse o semideus, pose austera diante do vagabundo meio-inclinado na cabeça – Eu, Aquiles, filho de Tétis e Peleu, Rei dos Mirmi… Estás rindo-se de mim?

Era só um sorriso de canto, sinhô… A zoeira, na verdade, vinha dos arredores: o muro contorcia-se com as mãos nos grafites, até chorar lágrimas de tinta e reboco; as escadas oscilavam, segurando-se para não dar rasteiras em si mesmas; janelas batiam rá-rá-rá sem se moverem. Aquiles, pressionado por uma simples troça, guardaria os pensamentos se lhe constituísse o feitio: além de simplista, tinha pavio curto. Escarrando no chão, bradou com desdém:

—Pífia demonstração de poder, criatura! Esqueces-te que, embora pisemos em teus solos, é dos meus que provém o ultimato?

Fez-se um engasgo, rrrrrrrrosnando os últimos segundos. Sepulcro, eterno num instante, quando as energias brincalhonas se centraram no mulato. Malandro podia estourá-lo, torturá-lo num turbilhão de paradoxo. Ah, o paradoxo! Essência pura das ruas, de todo o Brasil e quiçá do mundo, que Malandro assumira a função de purificar. Ele, um trabalhador do bem, mascarava a tristeza de assumir seus lados mais obscuros…  Mas tinha de ser assim, era o jogo do outro, e havia de encarnar seus termos para dar-lhe uma lição:

—Vosmecê parece com o Seu Zé – então, deixando as últimas gotas da alegria naquele insulto ao campeão do Olimpo, ergueu os olhos. Duas pupilas mais negras que a pele dele, vazias de sentido e cheias de malícia – Seu Zé num gosta de se segurar.

Aquiles retesou todos os músculos, feroz no rosto que não existia, assumindo posição de ataque enquanto o outro punha um pé atrás, braço na frente, joelho flexionado, ameaçando bambear, esquerda ou direita. A tensão zunia ao ponto de tirar o equilíbrio de quem cruzava o bairro da Saúde: as vidraças de um táxi margeando o porto estilhaçaram, mas o motorista deu graças a Deus e ao Seguro por não estar com passageiros. Um mendigo, que andava com as calças borradas naturalmente, traquinava com as memórias da loucura até sentir o peito afundando, a cabeça rodando, e tombou morto a uma esquina da cena. Guerra, Guerra, ribombando mais alto nas psiquês da Conceição.

Por um longo tempo, algo de dias ou semanas terrenas, uma das maiores representações brasileiras fez voltas demoradas no cria do Centauro Quirão, embrutecido no Monte Pélion e depois instruído por Fénix, filho de Amintor, estudando-o enquanto ele também rodava, guarda alta e lança baixa, apontando.

—Falei pra num trazer arma… O sinhô não confia no Preto?

—Não sou eu quem deve se submeter à vontade de outro por aqui – Aquiles tremeu os ombros e emendou a fala num fio de gargalhada – E, se tu não sabes, as armas são parte de meu corpo, enquanto nem teu nome és capaz de agarrar.

Atingindo o oponente no ego, e sentindo a energia dele – imitação perecível do Caos, sem um milésimo do poder – se contendo com esforços menores, comparáveis a fios de pólvora, finalizou:

—O fim do teu povo se aproxima, o Caos que me abraçou envolverá a todos! Sabes disso, entidade, e sabes também que não resistirás ao Recomeço! Submetas-te ao Olimpo, rendas teus barracos aos termos de nossas pólis, e terás maiores chances de viver em paz! Recuses, e desejarás ser abatido neste exato momento, pois que, se as trilhas do Vazio não te devorarem, nossos escudos e nossas lanças choverão!

A palestra encerrou aqui. Era chegado o momento de o representante bérbere tomar uma decisão que marcaria a Recriação de todas as coisas, e… Ele estava acendendo um charuto? Rindo enquanto baforava? Os deuses desafiaram os cosmos e enviaram suas partes essenciais para discursar com um palhaço? Pois bem! O maldito havia tomado sua decisão antes mesmo de fal…

—O sinhô já sabe a resposta, né? – a resposta do mulato não surpreendeu Aquiles. O que lhe deixou perplexo foi o modo como, a partir de então, ele dialogava dentro de sua mente – Deixa o Preto explicar uma coisa, e que o sinhô parece ter esquecido ao desdenhar do nome dele.

—Basta, criatura inútil! – trovoadas rugiram ante a voz do semideus. Era tão diplomático quanto o sol era frio – Viva para reunir seus homens, enquanto lhe dou a

—Vosmecê precisa de cachimbo pra tirar nervoso, visse?  O Zé tava dizendo que os nomes são coisas poderosas, e o sinhô entregou o seu pra ele mais de uma vez…

Ele sabe tudo sobre você, Aquiles. Sabe que está fraco pela viagem através do Caos, sabe dos seus pecados e pontos fracos, sabe que você morreu de forma vergonhosa para um homem que nunca pegou em armas…

Sombria, a entidade discursou todos os detalhes do herói, traçando o passado de glórias e tragédias, navegando pelos rios do Hades, dissecando sua não-humanidade. Aquiles ouviu, o corpo retesado feito a corda que lhe disparou a flecha no calcanhar, até não suportar mais. Saltou da Pedra com um grito selvagem.

O Zé tá ganhando o jogo, e tá doido pra te dar lição.

Ao mesmo tempo, ele atirou o charuto aceso no peito de Aquiles. Acumulara o paradoxo em seus níveis mais cruéis no fumo, ao ponto deste explodir e lançar o inimigo tão alto, tão rápido e tão longe, que um avião destinado a Congonhas sofreu turbulências dignas de um tornado. Não restariam explicações lógicas para a Central, fora algo que pareceu lhes atingir de baixo, um surto de vento que se aproveitou de uma falha na aerodinâmica ou coisa do tipo.

Frações de segundo depois, o guerreiro bateu num arco soldado em armações de concreto durante a queda, arrancando-o do chão, ralando e afundando seu caminho entre centenas de postes de luzes. Engana-se quem o imaginou desprotegido, podado em chamas meteóricas, pois em pleno ar ele preparou o escudo para o choque e já estava de pé, sem nenhum arranhão, vendo a tal placa ao longe, semelhante a uma donzela de pernas abertas entre um complexo de colunas destruídas.

Da Pedra do Sal, a luta continuou na Avenida Intendente Magalhães, desprovida do carrinho simpático na entrada.

Outro movimento muito rápido fez milhares de luzes, dentro e fora das incontáveis lojas do autoshopping, incidirem sobre Aquiles. E os sistemas de alarmes, espectros do Tártaro gritando por toda a parte, lhe arrancaram mais um segundo de atenção: quando deu por si, o Malandro estava agachado à sua frente, naquela posição estranha de gingado. Sem dar chances de reação, ele atravessou a guarda do semideus e espalmou as duas mãos em seus joelhos, fortes o suficiente para quebrá-los… só que antes, houve resistência. A entidade reunira todas as cargas possíveis e impossíveis, distorcendo a realidade, evocando nomes que poucos Orixás sabiam, mas nenhuma força dentro ou fora desse mundo podia romper a essência de quem fora mergulhado no Estige ao nascer.

Sombra ou não, Aquiles ainda era indestrutível.

Quando a pressão do mulato cedeu, não havia mais Avenida, nem Madureira, nem Valqueire: uma explosão silenciosa resumiu a Zona Norte numa cratera. No ventre da destruição, o olímpico finalmente cravou sua lança no adversário, girou-o como um pedaço de carne qualquer e lhe espetou no chão, trazendo um cone de raios que se dissipou a milímetros de sua cabeça. Zeus coroando sua vitória!

—Amaldiçoado… – deveria existir uma amálgama entre arfante e triunfante para definir o estado de Aquiles diante do derrotado que gemia de dor, mas sem verter uma gota de sangue – Percebestes teu erro? Olhe em volta!

Quando o Preto ameaçava ceder, Aquiles o chutava no rosto, arrancando mais lágrimas e alguns dentes.

—Eu disse para olhar, criatura zombeteira! Vejas como tuas mãos arrasaram o que chamas de lar! Contemple-me, pois esta foi a noite em que trouxestes vergonha aos seus irmãos! Contemples aquele que levará um tapete de tua pele ao Olimpo!

Ao perceber que Malandro perdera o chapéu, Aquiles não só encontrou o objeto, como o dispôs à moda fúnebre sobre o rosto do zombeteiro.

Mais trovões encheram o Alto, única iluminação de um Rio em cataclisma. Se lembrar daquele avião parágrafos acima, basta saber que ele nunca chegou a Congonhas, dividido em oito dezenas pela Ira Celeste. Fragmentos de metal caíam ao redor de Aquiles, cruelmente desembainhando a espada, pronto para colocar as palavras em prática. Um deles, ainda em chamas – impossível definir se era a caixa preta fundida num corpo ou um boneco de cera untado numa turbina – lhe tocou o calcanhar.

Malandro traz navalha no pé…

De repente, o moribundo se fez transparente, até deixar de existir. Como da vez em Tróia, foi o ego de Aquiles quem lhe trouxe a própria ruína; não atentara para o fato de o inimigo possuir vários truques, esquecera a desvantagem de terreno com relação a ele, e por isso, às suas costas, o verdadeiro Preto talhou seus dois pés, fintou e emendou uma rasteira que o derrubou inerte no chão.

Ninguém pega o Seu Zé quando ele ginga. Ele só ta começando a te dar aula…

O herói apelou aos deuses, mas estes deram as costas para o seu destino. No longo prazo, receberam-no de volta torturado e humilhado, numa das plataformas de mármore que se sustentavam no nada. Os titãs, de mãos dadas, eram uma muralha viva e imune às loucuras do vácuo.

Zeus, não tão poderoso, discursou sobre como a falha de Aquiles, na verdade, permitira o avanço do Caos a passos largos. Perseu e Atlanta haviam retornado a pouco, cobrindo Oriente e África. Antes deles, Belefronte e Pégaso cumpriram o trajeto mais difícil, desbravando o Vazio em busca dos outros panteões reduzidos pela História. Enfim, somando o relato de Aquiles aos outros, as Irmãs do Destino conseguiram trançar um tabuleiro sobre o qual os deuses se reuniram, comparando e discutindo strategoi.

Decidiram, como próximo movimento, destruir todos os templos cristãos de uma só vez. Não negociariam com aquele mártir esguio, mas teriam nos nórdicos, célticos, nas tribos vítimas das colonizações, irmãs e irmãos de Caos, excelentes aliados quando lhes prometessem o direito de queimar anjos em fogueiras.

Quanto a Terra Brasilis, destruir a cristandade acirraria a disputa com os terreiros daquelas entidades aos níveis de uma guerra civil. Enfraquecidas, fragmentadas, seriam as primeiras a cair durante o Recomeço. E Aquiles, liderando os mirmidões, teria a cabeça do preto incrustada no escudo.

Foram estas as palavras do Oráculo sem Delfos.

Epílogo

No fundo do Atlântico, esperando as oferendas de final de ano, Iemanjá contemplava-se num espelho. De repente, a visão dela afundou pela lente e se deparou num oceano borbulhante e vermelho. No que parecia um abismo, a forma dela era a única luz, e com aquele mesmo espelho, mais garras, arpões, redes, lutava contra um ser barbudo e coroado que se movia como um peixe e rechaçava com um tridente.

—Guerra… – crescendo da tristeza ao ódio, ela sussurrou.

Na Amazônia, Iansã acompanhava a travessia de seus protegidos pelo Grande Rio, e do alto de uma árvore percebeu o céu se transformando num vulto quase indistinto. Viu-se cavalgando uma serpente emplumada enquanto trocava flechas com um homem que carregava o Sol numa carruagem.

—Guerra! – agitada, desapareceu na mata, deixando um poente flamejante para trás.

Numa encruzilhada que dava a visão perfeita do Palácio do Planalto, Exú Caveira fazia o balanço das almas. Por algum motivo especial ele abaixou o rosto e, ao levantar, estava em meio a uma tempestade de cadáveres, medindo forças com um demônio pálido. Entrelaçado no cabo-de-guerra, também trocava seu sopro da morte com as baforadas de fogo inimigo.

—Guerra – sob a capa, proferiu num vazio de sentimento.

Assim, simultaneamente, todos os Orixás e espíritos de variadas ordens se uniram pela decisão do Malandro. Nos ecos de um Rio de Janeiro arrasado, recebendo mais sensacionalismos do que reparos, as vinganças dos que se perderam.

Pelo ultraje do desafio contra a própria vida, cada ser vivo do continente bradou:

Guerra

Guerra

Guerra

Guerra Guerra Guerra

Depois do Fim, o Princípio viria do Caos.

Depois do Princípio, a Batalha viria dos Desgarrados.

FIM


Este é um conto antigo, disponível gratuitamente junto de outros na coletânea “Contos Heitorianos”. Para ter acesso e saber um pouco mais de meu histórico, clique aqui.

Inspirado no Allegro de New World Symphony, por Antonin Dvorak. E, naturalmente, no game que eu descobri a música: Asura’s Wrath.

O Segundo Derramar

Arte Segundo Derramar Clay
Arte de Clayton Tavares de Alencar (Magitopia). Para conhecer mais de seu trabalho e entrar em contato, basta clicar na imagem
Poucos olhares se dirigiam para as estrelas naquela região de Anshar. Talvez, nos bancos de areia, algum casal ligasse suas promessas e coisas mais físicas ao infinito logo acima. No píer, quem não se ocupava em carregar suprimentos se entretinha com aguardente barata, histórias de pescador e prostitutas, nem sempre ao mesmo tempo e não exatamente nesta ordem. Longe dali, o Forte do Farol observava. As muralhas, junto de todo o aparato militar, eram recentes, não mais que dez gerações desde a construção. Cercavam, com seus blocos cortados de granito, quase todas as faces do velho guia dos mares, escavado na rocha bruta como os antigos fizeram em terra, na região do Castelo.
Depois da experiência com os corsários dominando a cidade, a vigilância exigiu muito mais que uma simples luz.
Tempos conhecidos como sombrios. Extermínios de miseráveis eram financiados como jogos de caça. Assassino constituía profissão estável. Mulheres não saíam sozinhas, pois sua exposição era sinônimo de pernas abertas. Todo cidadão andava armado, gostasse ou não; era isso ou fazer papel de cadáver nas centenas de relatos compartilhados pelas tabernas. Os piores dos cães marítimos entremeados aos corruptos terrestres, togas ou fardas, não fazia diferença. Tempos esquecidos, e então, diante das sombras que nunca abandonavam uma vida citadina, romantizados como um período de justiça, da maldade que não saía impune, dos homens que faziam suas próprias leis e podiam, assim, proteger dignamente suas esposas e filhas. Neles, “tudo isso aí” não existia, ao menos não de modo a prejudicar certas famílias… Muitas cresceram, acumularam tesouros na época dos “gloriosos homens do mar”, e agora, passados alguns séculos, desejavam para si a glória dos antepassados. Mesmo que esta fosse uma cela recheada de aparelhos de tortura.
E, no seu esforço conjunto, estavam conseguindo. O Forte do Farol, construído para afastar os esqueletos do passado, agora abrigava seus navios para o segundo derramar.
Debruçado a estibordo, o capitão Rackham fiscalizava o desembarque de sua carga. Alguns guardas, uniformizados com o azul e escarlate da Marinha, faziam o mesmo de mosquetes em punhos e expressões fechadas. Um deles, com três listras na ombreira denunciando a patente superior, conversava com o imediato. Ao invés das armas, papel de cânhamo e caneta-tinteiro.
“Muito bem, o que vocês trouxeram para a festa?”
“Ora, o que mais além do anunciado nos painéis de Porto Base? Armamentos, velas para reparos, pólvora, o tipo de coisa utilizada em invasões como esta”.
Rackham não precisava ouvir a conversa para adivinhar seu conteúdo. Mantinha as atenções em outros detalhes, num misto de êxtase e descrença: os outros nove navios ancorados, três filas de três, interconectados lateralmente por rampas. Muitos piratas para pouca fortaleza… sendo o Hangman primeiro de uma nova série, era de se esperar no mínimo mais dois brigues lhe fechando em breve. No alto, o farol mantinha-se apagado, um dedo sombrio apontando as estrelas; não fossem as escoltas distribuídas pelo caminho, cuidando de mantê-lo atrás das muralhas que se escondiam de Anshar, provavelmente teria se lançado sobre as rochas ou entregue sua posição. Ou seja, uma armada inteira deslizando sobre o nariz deles, o marco dos mares desativado, e a capitania não mandou nenhuma corveta averiguar? Céu aberto, correntes estáveis, e sem lunetas para lhes flagrar? Parecia fácil demais. Ou todos os fardados em terra comungavam com os lhes recebendo no Forte, ou este era o maior golpe de sorte da História.
Quebrando seus anseios, uma silhueta lhe fez uma saudação antes de subir a ponte. Focando o olhar, discerniu um senhor com barba cheia, queimaduras de sol distribuindo-se pela face, olhos pequenos, cabelos ocultos num turbante dourado. Traços dos desertos, possivelmente vindo de Abn’Khalid, único sultanato grande o suficiente para se lançar aos mares exteriores. Se isso não bastasse para denunciar suas origens, o broche de sol farpado na túnica o faria: era como os devotos do ocidente representavam Mishaal, por aqui conhecido pela figura angelical de Nuriel, o Misericordioso.
Bem, não se lembrava de algum navio comandado por khalidanos; exceto o Grande Masir, afundado a cerca de cinquenta anos, quando era moleque e seu avô ainda comandava o Hangman. As vezes, dar-se conta de que era um dos lobos mais velhos do mar, contendo a idade de dois antepassados na sua, pesava na consciência… Quantas esposas havia largado ou perdido? Tristan, o Insaciável, devia ser o único a lhe superar neste quesito. Seu Impactus estava por ali, fácil de reconhecer pela carranca, dentre outros protagonistas das canções mais populares em Porto Base. Dentre tais lendas, teve certeza de que o estranho não estava sequer incluso nas tripulações quando abriu a boca:
— Capitão Oliver Rackham Terceiro? Sua chegada era mais do que esperada – estendeu-lhe a mão para um aperto amistoso. Pelo estranhamento do corsário, levou alguns segundos para acontecer. – Seu nome é um dos mais estimados para nossa regência, devo confessar.
— E você é…?
— El’Azar Hamid, arauto da nova aliança de Anshar com o Sultão. O afastamento da dinastia dos Lanceiros também serve interesses dele.
— Engraçado… – sem aguentar o sotaque manso, Rackham apoiou os cotovelos atrás do corpo, fitando o estranho de costas para o ancoradouro. – Você faz este corso soar como uma coisa de nobres. É por causa do título em meu nome?
Quando percebeu a seriedade no rosto de Hamid, o riso lhe abandonou:
Nah… Acho que você está falando sério – concluiu o capitão, sem obter resposta. O embaixador, pelo visto, reconsiderava as palavras sobre sua preferência. Ou estava na mesma dificuldade em entender a língua arrastada dos mares – Ninguém me falou sobre um reinado.
— Precisa se atualizar a respeito de seus antepassados, capitão. Quando se corta uma cabeça, outra deve ser posta. Anshar jamais seria livre para vocês sem…
— Eu sei como funciona o código dos reis piratas – interrompeu bruscamente o dos desertos, firmando a postura com autoridade. Ninguém faria Oliver Rackham Terceiro de idiota dentro do próprio navio. –, sigo muito antes de ratos de porão como você saírem das fraldas.
A ofensa não afetou o emissário. Ao invés, ele sorriu e esperou, conforme o desespero tomava a face do capitão. Como a maioria, havia pensado apenas em uma vida sem sujeira, fome e escorbuto ao se deparar com o chamado. Os tempos em que eles pintaram o sangue de azul, elegendo regularmente quem carregaria o diadema, eram uma lenda distante, quase tão antiga quanto a gênese. Só viam aquilo como um grande saque: nenhum deles, nem os mais sábios, acreditavam que uma retomada os elevaria ao nível dos ancestrais. Acumular especiarias, encher-se de grogue, violar quem andasse pela frente, tudo isso era esperado em diferentes escalas. Mas quando caía a ficha de que era algo mais sólido… Bem, era ali que Hamid os fisgava para sua vontade:
— …Isso lhe preocupa? – verbalizou os pensamentos de Oliver, que apenas concordou com a cabeça. Era tão óbvio, alguém como ele não deveria se entregar aos mesmos impulsos daqueles garotos brincando de pirata. Sua mente, tão afiada quanto nos primeiros dias de comando, não costumava nublar deste jeito. Poderiam as esperanças de uma vida melhor bloqueá-lo tão bem para a verdade? – É para isso que ratos como eu se juntam ao código… para fazê-los acreditarem em si tanto quanto o povo lá fora.
Diante da expressão de dúvida, o homem continuou:
— Pelo pedido de armas, suponho que imaginou um raide como todos os outros, mais a possibilidade de comprar terras com o tamanho do butim. Quer saber a verdade? – fez sinal para descerem do Hangman. Mesmerizado, o capitão esqueceu de seu orgulho enquanto lhe seguia. – Nada disso será necessário, meu caro. Anshar não se prepara para lutar, sequer resistir. Eles lhes desejam, capitão… mais do que tudo, acreditam no espírito dos mares para lhes libertar dos preços abusivos, da fome, das mãos atadas diante do crime… De todos os problemas do mundo.
“Que problemas?”, Rackham pensou. Algum deles havia passado ao menos um dia em alto-mar, sem nada além de um barril d’água, frutas secas e marujos solitários? Se pudesse trocar sua vida por apenas um dia de cão na urbe…
— Ninguém morrerá em nenhum dos lados – embasando as palavras do arauto, caixotes com o rótulo de veneno se espalhavam em maior número pelas docas. – Soníferos para a realeza, pós de cegueira e laxantes para controlar grupos. Com este material desviado por fontes seguras da cidade, nocautearemos os poucos opositores…
— Poucos? Há o suficiente aqui para derrubar a Península inteira! – Hamid ignorou o ponto, continuando seu discurso sobre as justificativas dos fins. Então, de repente, parou. As costas eriçadas, pescoço armado de quem ouvia alguma coisa. – Hamid?
— Perdão. Concluindo, Anshar cairá como um castelo de cartas. Agora, sugiro que siga nosso bom tenente até suas instalações – perto deles, um patente alta esperava o afastamento do capitão para guiá-lo. – os outros estão no salão comunal, discutindo questões como últimos detalhes do derramar, a nova bandeira, requisitos para eleição… Acredito que seu imediato esteja por lá, aproveitando do bom vinho e garotas. Cortesias dos desertos.
Deu-lhe uma piscadela, e pela primeira vez recebeu um sorriso. Rackham Terceiro carregava questionamentos perigosos, mas no final mostrou-se uma mente tão fácil de dominar quanto as outras. Enquanto ele se afastava, o arauto deixou a malícia inundar seu sorriso. Voltou as atenções para a presença que desviara sua atenção, não quebrando sua lábia por um triz:
— Estava me perguntando quando um de vocês apareceria.
Em meio as pilhas, dois orbes verdes como as matas de Kradenish lhe encaravam. Tinham um brilho fosco, como se lhe encarassem a alma por meio de uma camada de vidro. O pouco que se via no rosto sob o capuz eram dentes arreganhados, uma pequena cova se revelando conforme a pele do queixo esticava. Expressão de mais pura ira:
— Servo do Prisioneiro… – disse a criatura. Um olhar mais atento revelaria sombras tremulando sobre seu corpo, envolvendo-a sobre os ombros a partir das costas. Nada se via abaixo do manto, exceto uma poça d’água abaixo dos pés. Em uma segunda análise, filetes seriam detectados sobre a matéria escura, revelando certa solidez enquanto seguiam a gravidade –  Por que não estou surpresa em ver seus dedos nesta palhaçada?
— Palhaçada, você diz – Hamid rolou os olhos, gesticulando feito quem explicava algo óbvio para uma criança – É o que estes musgos tanto desejam, desde o começo dos tempos. Vocês não aprenderam ainda? Quero dizer, para alguém tão próximo do anjo da morte, um pouquinho de sangue derramado não devia…
Aconteceu rápido demais. A encapuzada tornou-se um borrão, e não fosse Hamid igualmente rápido, uma lâmina em forma de ferrão gigante transformaria suas vísceras num kebab. Ela seguiu o salto do arauto com as costas, virando com o cotovelo, mas bastou uma palavra do homem para uma barreira de chamas surgir entre os dois. Gritando mais de surpresa do que dor, a outra figura jogou-se para trás numa lufada de vento. Ao passo que se ajustavam ao tempo perceptível, viu-se que o manto na verdade eram asas, erguidas num arco suave conforme algumas penas de sombras, tão logos caídas, desvaneciam no ar junto do fogo que as consumiam. O corpo e rosto – este revelado no cair do capuz durante a luta – eram de uma mulher. Pele marrom, cabelos negros e pequenos em seu corte marcial.
— O equilíbrio entre a vida e a morte é sensível demais para a compreensão de uma mente derretida… – tinha o braço queimado, mas não fez menção de segurá-lo enquanto falava, timbre ofegante de quem interrompia um exercício – Você envergonha o sacrifício de Nuriel ao desejar a condenação deste mundo, lacaio.
— Agora você retorna ao diálogo? Que conveniente – risos de escárnio partindo do homem. Ao contrário da postura agressiva a sua frente, mantinha-se tão empertigado quanto no início – As muralhas deste mundo-prisão já estão condenadas, todos os celestes sabem disso. O Grande Mishaal, ou “Nuriel”, como queira, só foi o primeiro a não postergar o inevitável. Logo Azrael fará o mesmo.
A mulher avançaria outra vez, sentindo o impulso de arrancar o nome de seu patrono junto dos dentes daquela boca profana, quando sentiu vários olhos pesarem sobre si. Seis fardados em formação defensiva, mosquetes esperando a ordem de Hamid:
— Rapazes, matem logo esta puta das florestas. Aliás, desculpe… você é das arraias, certo? – para quem ao menos ouviu falar de Kradenish, a identidade da moça era um livro aberto: tinha a altura, ombros largos, e a arma que não era uma lâmina em forma de ferrão, mas um espinho genuíno, do tamanho de um antebraço, empunhadura feita com o couro do mesmo animal de quem arrancara o aguilhão em seu ritual de passagem, sendo também pele de arraia seu colete. Além de chegar no Forte do Farol a nado, provavelmente moldando as asas em barbatanas – Então matem logo esta puta do clã arraia. Tenho mais o que fazer…
Virando de costas, o Servo do Prisioneiro fez um gesto preguiçoso para autorizar o disparo. Embora a vontade dela envolvesse persegui-lo, as balas seriam tão fatais num ataque de oportunidade quanto em um humano comum. Ao invés, juntou as mãos e, após uma prece que duraria até o disparo inicial, voltou-se contra os soldados.
“Azrael, faça sua justiça pelas mãos. Que nenhuma alma tombe antes de seu tempo, e que os marcados não sintam dor. Assim seja”.
Encurtou a distância em menos de um segundo, desarmando o primeiro ao lhe virar o pulso. Outro lhe atacou com a baioneta, mas recebeu um corte profundo no antebraço com a ponta do ferrão, largando o mosquete enquanto berrava de dor. O estilo arraia era certeiro, mais rápido do que o pensamento, prevenindo toda a região de ameaça com ferroadas nos punhos, pescoços, atrás dos joelhos, tudo que se revelava entre as esquivas e ripostas. E era uma das melhores guerreiras do clã, Hamid soube no instante que a viu. Poucos eram dignos de receber as bênçãos de Azrael, o Justiceiro… Por isso, deixou-a se distrair com alguns musgos sob sua influência. Como o esforço dela em mantê-los vivos era fútil, pois assim que todos se encontraram caídos, contorcendo um círculo ao redor da moça, ele aproveitou a surpresa e invocou o poder de seu mestre para descer um pilar de chamas no meio do combate, carbonizando tudo em tons de laranja. Os gritos daquela escória, misturados ao choro dela enquanto derretiam; só isso já valia o esforço em fortalecer seu Senhor com aquele golpe de piratas e militares.
— Você não pode deter o ciclo do ódio, criança – em distância segura, deixava o fogo desaparecer do modo que surgiu, longe de afetar quaisquer carregamentos nas docas. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza – A queda de Anshar é apenas o primeiro passo para fora do mundo-prisão.
Em toda sua prepotência, não percebeu como a guerreira havia se coberto com as asas, estas desintegrando depois de receber quase todo o impacto. A tortura, mesmo para membros invocados temporariamente, excruciou feito o quebrar de um milhão de ossos ao mesmo tempo. Ela não esperou o borrão que havia se tornado o mundo solidificar; guiada pela energia infernal emitida pelo Servo, encontrou-o no espaço além dos sentidos e jogou toda a força de Azrael para as pernas. Hamid, acabando de virar as costas – de verdade desta vez –, apenas teve tempo de notar o ataque em sua visão periférica. Fez meia volta, expondo o peito para a arraia, e sentiu o coração explodir. O ferrão entrou tão cirúrgico que o corpo precisou de alguns segundos até processar a dor, esfarelando atrás do esterno, vazando o pulmão esquerdo, tirando os pés do chão quando sua algoz ergueu o espinho com as duas mãos. Aproximou-o bem do rosto chamuscado, devorando o medo que lhe vazava dos olhos com um sorriso rosnado.
— Diga a Azrael que Marini lhe enviou, filhote do inferno – sentenciou em voz gutural, então quebrou sua prece. Aquele marcado sentiria dor. Muita dor.
Nem todas as ondas do mundo abafaram seus lamentos, conforme Marini furava de novo, e de novo, e de novo, e ainda mais quando sentiu o sangue espirrar na pele. Geralmente era o clã jaguar quem deixava os inimigos retalhados iguais caças, mas a arraia fez a exceção… E ninguém no Forte veio auxiliá-lo. Enebriados em seus assuntos de glória, regados a vinho e as mais belas escravas de Abn’Khalid, sequer ouviram o combate. Não eram uma preocupação para ela: com a cabeça decepada, bastava acender o farol para alertar a cidade. Sem a influência do Prisioneiro, poucos apoiariam o golpe. O ciclo do ódio manteria seu tênue equilíbrio.
Assim ela pensava.
Iluminar a ilha não foi empecilho. Passados alguns minutos, refez as asas e planou, sem interferências, como um grande pássaro. Pousou sem ruído, nocauteando a sentinela azarada o suficiente para ficar de fora da algazarra lá embaixo.
Os mares se acenderam num clarão.
Enquanto Marini desaparecia no oceano, mergulhando do alto do farol, o tenente que guiara Rackham chamava um dos guardas:
— Quero esta luz apagada imediatamente. Eu cuido de alertar os capitães, diga aos outros para carregarem os navios. O ataque começa amanhã.
O soldado foi cumprir suas ordens, e o tenente sorriu. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza.
— Você não pode deter a Rebelião. Ninguém pode.

Eu Danço com o Vento

Companhias de Guarda eram uma visão comum longe das capitais e grandes cidades, fruto de um engenhoso esquema da Federação. A união das Terras Baixas sob uma única bandeira, apesar de legitimada nos anais da história, não se fez assim na prática para todos os seus habitantes.

A lei, focalizadas nas grandes cidades e capitais, não alcançavam a vastidão das Seis Regiões. O surto tecnológico, desde a chegada dos anões de Kresta, a cidade-estado voadora, até a mais nova Era das Invenções, sim.

Fez-se um período negro na existência federativa, chamado Crise do Décimo Quarto Século. Literalmente, cem anos de violência desacerbada. As estradas se tornaram inseguras, pirataria tomou os mares e até mesmo o ar com o advento dos zeppels, ou dirigíveis de guerra. Divididos em milícias, cada território fez suas próprias regras, contando com as próprias armas e o descaso de um governo que, exclusivamente voltado para a expansão por novos mundos, esqueceu da periferia dos campos, vales e montes para se fechar nos centros urbanos, berços do verdadeiro pensamento humano em busca do progresso. A própria Federação, incapaz de dividir suas tropas de maneira efetiva, viu a iminência da ruína: distribuir a ordem necessária pelas Terras Baixas – até então tudo o que era conhecido pelo homem, o mais vasto império formado – e manter o efetivo das tropas que desbravavam mares e terras, buscando, dentre outras coisas, os recursos embargados por Kresta após se separar dos federados, era impossível. O favorecimento de um lado destruiria por completo o outro, tornando inevitável a perda de um dos pratos da balança e, por consequência, a implosão dos alicerces do sistema.

Isso, até o esquema das Companhias de Guarda. Cada milícia passou a ser amparada pelo governo, contando com a distribuição de soldos, provisões, dentre outras assistências, desde que sob um conjunto de regras. Estas incluíam a limitação das armas de fogo, perigosíssimas quando escapavam das mãos oficiais, a elaboração de relatórios anuais e a restrição, sob contrato, das terras sob sua jurisdição. Evidente que o esquema primeiro se deu com as facções mais simpáticas à causa federativa, e estas, pouco a pouco, expandiram sua influência entre os outrora rebeldes, convencendo-os do prestígio que teriam como força da ordem, incontestável pelos adversários, apoiada por lei, e eliminando discretamente quem recusava. Assim, estendendo mãos invisíveis sob o que era ignorado, o controle se recuperou com uma reinvenção da política. Mente, e não espada, garantiram a unidade da Federação nos momentos de crise até fazê-la, nos tempos atuais, livre de seu flagelo.

Pelo menos, era nisso que se acreditava. Se Oliver ainda vivesse nas grandes cidades, veria a questão das milícias como nada além de sensacionalismos e piadas de mau gosto. Agora elas eram parte de sua realidade, parte esta da qual visava se livrar.

Seu mentor havia lhe contado que, caso aceitasse se tornar um adepto consciente, teria de lutar. Ele não mentiu nem uma palavra.

O sol se escondia no tapete de nuvens que cobria o alto, lançando tímidos raios de luz através das montanhas. Olhando para trás, o monte Cobengart preenchia o horizonte com o seu cone disforme e escarpado, seguido por uma cordilheira de elevações menores. À frente o vento se agitava, aquecido por algo além das forças naturais… O dedo do homem alterava seu humor, sentido por Oliver como lufadas súbitas na pele. Quando forçou as vistas, o prenúncio revelou um grupo de homens que se aproximava em seus cavalos mecânicos. Marca registrada de Acresya, dona da mais temida cavalaria das Terras Baixas em tempos antigos e agora referencial para a produção de máquinas de guerra. A princípio tratados com suspeita, logo os animais de aço, alimentados por caldeiras anãs, conhecidas por produzirem mais energia com menos recursos e quase nenhum peso, tornaram-se versáteis ao unir a ausência de fome ou sede com a quantidade de armas que poderiam ser acopladas em suas carcaças, transformando o peso em algo superficial com as distâncias que poderiam percorrer, incansáveis.

“Seria um bom lugar pra se morar…”, imaginou o rapaz, lembrando-se que era em Acresya, a região dos mecânicos, onde os homenzinhos da raça de Kresta eram melhores aceitos, usando de sua arte na forja para contribuir com os interesses da Federação de maneira totalmente voluntária. O fato da maioria que nunca pisou na cidade voadora, nascida após a divisão, mas ainda viva com a tradição dos antepassados, ter se concentrado ali era uma característica de peso… Os cavalos, por exemplo, jamais seriam possíveis sem as runas krestinianas desenhadas em seu interior, infundindo o metal com “propriedades metafísicas”.

Um bom lugar para se morar, se você fosse anão. Pois os Cavalos de Aço também eram a marca registrada, literalmente, de uma das Companhias de Guarda mais influentes das Seis Regiões. Com sede em Acresya, mas de domínio espalhado por outras terras através de entrepostos e tratados, geralmente se faziam a força da lei acima das outras. Por isso, um problema.

Um capuz, encardido e manchado, escondia as feições do rapaz. Para o grupo que se aproximava, ele não passava de um sujeito que acabara de sair de um buraco, estatura mediana, ombros destacados pelas alças de uma mochila de couro e silhueta se insinuando na capa que já havia perdido suas cores para o relento. Tentando mascarar sua identidade enquanto seguia por uma das vias principais de Alphina, a mais bairrista das seis regiões? No mínimo, um idiota perdido. Para Oliver, uma visão indesejada na forma de quatro homens montados, justamente aquilo que evitara em toda sua trajetória. Talvez fosse mesmo idiotice abandonar as precauções impostas pela experiência de andarilho, mas céus, Alphina era sua terra natal! Sentia a necessidade de, ao menos ali, seguir um caminho decente, sem embrenhar nas matas só para se livrar de assaltantes e veículos desembestados. Acreditou, num momento fútil, que os alphineses refinados por natureza reduziriam seus crimes a algo menos vulgar do que as vias de comércio, repletas de estrangeiros impuros. Até então, o conforto das pedras totalmente lisas, retas, sem viradas súbitas de direção, aliviava seus pés de tropeços no limo das rochas brutas, os músculos gemendo de satisfação por se limitarem apenas ao esforço de caminhar, sem subir, descer e atravessar riachos.

De longe, quando seu olhar cruzou com o do homem loiro na dianteira do grupo, duas coisas passaram por sua mente. A primeira se associava a questão dos “estrangeiros impuros”: os alphineses faziam suas próprias leis, tinham suas próprias Companhias de Guarda feitas apenas de sua gente, e jamais aceitariam a interferência de outros, mesmo que esses outros fossem os Cavaleiros de Aço, nos assuntos entre as montanhas. A segunda, uma conclusão óbvia da anterior, vinha denunciar as más intenções do grupo. Se não estariam autorizados a interferir ali, então o que faziam ao cavalgar na sua direção?

Sentiu vontade de erguer o braço e entoar a canção que libertaria seu dom, antes que os quatro tomassem distância de tiro. O bom senso lhe conteve, já que as chances de acertar todos de uma vez seria impossível. Contra os equipamentos pesados daquele grupo só teria uma chance, a qual não poderia se dar ao luxo de desperdiçar.

Alto lá, estranho – o loiro, de queixo forte e olhos de gelo, estampou toda sua arrogância ao empertigar o corpo. Assim que se aproximou, emparelhou a besta mecânica de lado, bloqueando a estrada. Um ruído quente, sufocante, ecoou por entre suas placas de metal até escapar pelas narinas, boca e contorno dos olhos vazios. Com um pouco de esforço por parte do cavaleiro, ela poderia erguer as patas ou balançar a cabeça, mais viva do que um animal feito de carne… De qualquer maneira, Oliver recuou do relinchar escaldante enquanto os outros três lhe cercavam. Não demorou para uma nuvem fina de vapor lhe cobrir, complicando a maneira de se enxergar o que havia além dos quatro gigantes.

Sabe que não deve caminhar sozinho por aqui, não é mesmo? – outro, de pele morena, provavelmente lucre ou acresiano, ameaçou rachar a estrada com as passadas de sua fera. O escárnio dominou seu rosto ao perceber o rapaz indo para trás – Mostre o que tem guardado aí, vamos.

De semblante fechado, Oliver aproveitava a deixa para analisar seus adversários. Os olhos, semicerrados pelo cenho, correram primeiro pelos cavalos mecânicos: sua estrutura disposta em placas escuras, castigadas pelo tempo, soldadas por pregos que não permitiam qualquer fissura; as patas que se afinavam até os cascos capazes de quebrar uma perna com o peso do aço; a maneira que algo parecia trabalhar incessantemente dentro de cada um, expelindo aquele vapor pelos orifícios em quantidades proporcionais ao esforço e, principalmente, as armas. Dos ombros esquerdos, gatilhos se curvavam até uma seqüência de três canos, longos, amparados por caneletas de ferro que garantiam suporte e certa mobilidade, alimentados por pentes de balas compridas, grosso calibre, formando cordões até uma abertura perto da sela. A estrutura nas costas devia ser aberta para a reposição dos pentes, amparados por roldanas internas. Além disso, suportes nos flancos direitos apoiavam montantes de lâminas curvas, largas, com as guardas em formato de cunha. Sendo provável a existência de runas de Kresta no interior das cunhas, as espadas poderiam enganar a distribuição de peso usual, capazes de serem empunhadas mesmo quando os usuários estivessem a pé.

Então, foi aos homens: além do loiro havia outro de cabelos castanhos, parecidos com os seus, mantidos curtos e espigados. Eram os únicos que podiam se passar por alphineses de nascença, embora quem realmente fosse dali, como Oliver, compreendesse a farsa com um pé nas costas.  Comparado ao moreno que falou, o último do grupo tinha a pele mais escura, sem sombra de dúvidas um lucre de corpo delgado e sagacidade no olhar. Vestiam-se com armaduras de couro batido, leves o suficiente para não desgastá-los em poucas horas de batalha. Foram-se os tempos em que os homens deviam se cobrir como tanques de guerra, uma vez que estes já foram inventados: a blindagem do cavalo de aço compensava a das vestes, sem contar os escudos pequenos e redondos, feitos de metal, presos aos braços esquerdos. Onde estavam seus elmos? Todos os Cavaleiros de Aço que esbarrara nas suas andanças não deixavam a peça de lado. Teriam perdido? Talvez não passasse de uma quadrilha mecânica, outro problema recorrente na Federação, que roubava equipamentos para traficar entre as montanhas. Ou eram renegados em busca de pilhagem? Na realidade, pouco interessava: o vapor processado no interior das bestas era como uma violação sentida pelo seu dom, gritando com moléculas agitadas através dos poros.

Antes, havia planejado esperar que lhe subestimassem mais um pouco e, com o elemento surpresa em mãos, quem sabe um pouco de coerção e alguns truques de mágica bastassem para deixá-lo em paz? Se pudesse resolver qualquer situação sem o apelo da violência, ele o faria sem pensar duas vezes…

Porém, o grupo apertava mais o círculo.

Todo adepto aprendia a construir uma pirâmide metafórica para conter o poder que corria pelo corpo. A sua, sempre de paredes rachadas, começava a chiar.

Que assim seja”, disse ele em pensamentos quando o loiro desceu do cavalo.

Essa mochila parece muito pesada, meu rapaz. Ou seria uma mocinha escondida de nós? – arrancando risadas de seus companheiros, puxou o capuz de Oliver para trás enquanto outro, ainda montado, tragava a bolsa para si. Os cabelos castanhos, bagunçados pelo disfarce, caíam lisos até o ombro, as expressões afinadas de um nobre, endurecidas com o passar dos anos, com os olhos cavados em olheiras e os lábios rachados, sem contar a sujeira de quem não via um bom quarto há séculos.

Olhem só, ainda é alphinês!! Se perdeu da mamãe, minha linda? – o lucre de sotaque arrastado apontava os canhões em sua direção, malícia estampada no rosto – acho que vou brincar um pouco com você depois… Todos nós vamos.

Alheio aos comentários que rasgariam a dignidade de um homem, Oliver deixou o sujeito de cabeça espigada quase mutilar seus braços ao puxar a mochila. Sem reação, seu corpo balançou como se feito de pano. Parecendo desprovido de vontade, somente as pernas faziam o suporte do peso enquanto ombros, pulsos e cabeças pendiam para baixo. O que havia desmontado exibiu os dentes amarelados num sorriso de predador, se deliciando com o fato da presa ter se rendido.

Gostamos mais assim, não é verdade? – gritou para os outros, que responderam em uníssono, batendo palmas e rangendo o metal das montarias. Foi até o rapaz e o obrigou a se erguer com mão de ferro, sentindo um pouco de sangue descer pelo couro cabeludo. O que viu nele, porém, lhe deixou intrigado de início. Depois de alguns segundos, apavorado.

Os olhos do viajante se reviravam nas órbitas. A pele, que deveria estar vermelha de tensão, mostrava-se cadavérica. Pela boca entreaberta fugia o resquício de uma canção, muito baixa a princípio. Uma brisa, surgida de lugar algum, assobiou com a voz de mil fantasmas no meio do grupo, dispersando a nuvem de vapor das máquinas. Trocando olhares, os cavaleiros engatilharam suas armas no braço esquerdo, buscando a espada com a outra, deixando claro o que iriam fazer. Antes que se ouvisse o som das lâminas se desprendendo dos suportes, antes da primeira mira se destravar, o loiro percebeu algo no colarinho do rapaz, tilintando com o vento.

Um pingente de alumínio, o metal mágico, com uma figura serpenteando em volta de um osso retorcido, inflando a cabeça e gotejando veneno das presas. Uma naja.

Mas que… Recuem seus idiotas, recuem!

Sua voz, capaz de atravessar os vales quando se exaltava, não chegou aos ouvidos dos companheiros. Oliver entoava seu cântico em tom elevado, quase gritando com o esforço, mas ele também não chegou aos ouvidos dos outros, ou ao seu próprio, pois o que era uma brisa agora rugia com a fúria de um tufão, um chicote com todas as dimensões do mundo, guiado por sua vontade. A pirâmide se desfez, e o que havia dentro de si agora clamava parte da realidade de maneira brutal, definindo o que era um adepto enfurecido. Quando as rajadas de vento giraram ao redor dele, o homem mal pôde gritar. Sentiu as vísceras congelarem e o corpo sendo arrancado do chão, rodopiando em volta do feiticeiro com uma grande ironia: tanto ar lhe atingindo, e nenhum entrando nos pulmões.

Quando viu a outra metade de si passar diante dos próprios olhos, ele se deu conta da morte. Se os cavalos não fossem de aço, suas dores torturariam uma alma pela eternidade; bastava imaginar a agonia de se ouvir um deles ao quebrar uma perna multiplicada por dez. Nem os seus pesos foram páreos para o tornado, e antes que se espalhassem pelo chão em direções opostas, suas caldeiras explodiram. As chamas, irrompendo de diferentes alturas, transformaram o ataque num espetáculo no qual os cavaleiros observaram de dentro, carbonizando o que sobrou de sua carne num mesmo lugar.

Minutos depois, Oliver deixava um cenário de guerra para trás, a mochila nos ombros e o capuz na cabeça. Junto dele seguiam as passadas da brisa, acompanhando a canção de seus lábios.

Eu sou Jira Oliver… Eu danço com o vento…

tornado_by_itsabout2rain
“Tornado”, por itsabout2rain

*Este conto na verdade é o trecho de um livro nunca terminado, contando um pouco mais sobre o universo de Steamage (um trocadilho proposital, misturando “Steam Age” com “Steam Mage”). Este era um projeto meu em conjunto com Douglas Reverie, escritor e desenhista de mão cheia. Para saber mais sobre esse mundo à vapor, que um dia acenderá suas caldeiras outra vez, basta clicar aqui.