O Segundo Derramar

Arte Segundo Derramar Clay
Arte de Clayton Tavares de Alencar (Magitopia). Para conhecer mais de seu trabalho e entrar em contato, basta clicar na imagem
Poucos olhares se dirigiam para as estrelas naquela região de Anshar. Talvez, nos bancos de areia, algum casal ligasse suas promessas e coisas mais físicas ao infinito logo acima. No píer, quem não se ocupava em carregar suprimentos se entretinha com aguardente barata, histórias de pescador e prostitutas, nem sempre ao mesmo tempo e não exatamente nesta ordem. Longe dali, o Forte do Farol observava. As muralhas, junto de todo o aparato militar, eram recentes, não mais que dez gerações desde a construção. Cercavam, com seus blocos cortados de granito, quase todas as faces do velho guia dos mares, escavado na rocha bruta como os antigos fizeram em terra, na região do Castelo.
Depois da experiência com os corsários dominando a cidade, a vigilância exigiu muito mais que uma simples luz.
Tempos conhecidos como sombrios. Extermínios de miseráveis eram financiados como jogos de caça. Assassino constituía profissão estável. Mulheres não saíam sozinhas, pois sua exposição era sinônimo de pernas abertas. Todo cidadão andava armado, gostasse ou não; era isso ou fazer papel de cadáver nas centenas de relatos compartilhados pelas tabernas. Os piores dos cães marítimos entremeados aos corruptos terrestres, togas ou fardas, não fazia diferença. Tempos esquecidos, e então, diante das sombras que nunca abandonavam uma vida citadina, romantizados como um período de justiça, da maldade que não saía impune, dos homens que faziam suas próprias leis e podiam, assim, proteger dignamente suas esposas e filhas. Neles, “tudo isso aí” não existia, ao menos não de modo a prejudicar certas famílias… Muitas cresceram, acumularam tesouros na época dos “gloriosos homens do mar”, e agora, passados alguns séculos, desejavam para si a glória dos antepassados. Mesmo que esta fosse uma cela recheada de aparelhos de tortura.
E, no seu esforço conjunto, estavam conseguindo. O Forte do Farol, construído para afastar os esqueletos do passado, agora abrigava seus navios para o segundo derramar.
Debruçado a estibordo, o capitão Rackham fiscalizava o desembarque de sua carga. Alguns guardas, uniformizados com o azul e escarlate da Marinha, faziam o mesmo de mosquetes em punhos e expressões fechadas. Um deles, com três listras na ombreira denunciando a patente superior, conversava com o imediato. Ao invés das armas, papel de cânhamo e caneta-tinteiro.
“Muito bem, o que vocês trouxeram para a festa?”
“Ora, o que mais além do anunciado nos painéis de Porto Base? Armamentos, velas para reparos, pólvora, o tipo de coisa utilizada em invasões como esta”.
Rackham não precisava ouvir a conversa para adivinhar seu conteúdo. Mantinha as atenções em outros detalhes, num misto de êxtase e descrença: os outros nove navios ancorados, três filas de três, interconectados lateralmente por rampas. Muitos piratas para pouca fortaleza… sendo o Hangman primeiro de uma nova série, era de se esperar no mínimo mais dois brigues lhe fechando em breve. No alto, o farol mantinha-se apagado, um dedo sombrio apontando as estrelas; não fossem as escoltas distribuídas pelo caminho, cuidando de mantê-lo atrás das muralhas que se escondiam de Anshar, provavelmente teria se lançado sobre as rochas ou entregue sua posição. Ou seja, uma armada inteira deslizando sobre o nariz deles, o marco dos mares desativado, e a capitania não mandou nenhuma corveta averiguar? Céu aberto, correntes estáveis, e sem lunetas para lhes flagrar? Parecia fácil demais. Ou todos os fardados em terra comungavam com os lhes recebendo no Forte, ou este era o maior golpe de sorte da História.
Quebrando seus anseios, uma silhueta lhe fez uma saudação antes de subir a ponte. Focando o olhar, discerniu um senhor com barba cheia, queimaduras de sol distribuindo-se pela face, olhos pequenos, cabelos ocultos num turbante dourado. Traços dos desertos, possivelmente vindo de Abn’Khalid, único sultanato grande o suficiente para se lançar aos mares exteriores. Se isso não bastasse para denunciar suas origens, o broche de sol farpado na túnica o faria: era como os devotos do ocidente representavam Mishaal, por aqui conhecido pela figura angelical de Nuriel, o Misericordioso.
Bem, não se lembrava de algum navio comandado por khalidanos; exceto o Grande Masir, afundado a cerca de cinquenta anos, quando era moleque e seu avô ainda comandava o Hangman. As vezes, dar-se conta de que era um dos lobos mais velhos do mar, contendo a idade de dois antepassados na sua, pesava na consciência… Quantas esposas havia largado ou perdido? Tristan, o Insaciável, devia ser o único a lhe superar neste quesito. Seu Impactus estava por ali, fácil de reconhecer pela carranca, dentre outros protagonistas das canções mais populares em Porto Base. Dentre tais lendas, teve certeza de que o estranho não estava sequer incluso nas tripulações quando abriu a boca:
— Capitão Oliver Rackham Terceiro? Sua chegada era mais do que esperada – estendeu-lhe a mão para um aperto amistoso. Pelo estranhamento do corsário, levou alguns segundos para acontecer. – Seu nome é um dos mais estimados para nossa regência, devo confessar.
— E você é…?
— El’Azar Hamid, arauto da nova aliança de Anshar com o Sultão. O afastamento da dinastia dos Lanceiros também serve interesses dele.
— Engraçado… – sem aguentar o sotaque manso, Rackham apoiou os cotovelos atrás do corpo, fitando o estranho de costas para o ancoradouro. – Você faz este corso soar como uma coisa de nobres. É por causa do título em meu nome?
Quando percebeu a seriedade no rosto de Hamid, o riso lhe abandonou:
Nah… Acho que você está falando sério – concluiu o capitão, sem obter resposta. O embaixador, pelo visto, reconsiderava as palavras sobre sua preferência. Ou estava na mesma dificuldade em entender a língua arrastada dos mares – Ninguém me falou sobre um reinado.
— Precisa se atualizar a respeito de seus antepassados, capitão. Quando se corta uma cabeça, outra deve ser posta. Anshar jamais seria livre para vocês sem…
— Eu sei como funciona o código dos reis piratas – interrompeu bruscamente o dos desertos, firmando a postura com autoridade. Ninguém faria Oliver Rackham Terceiro de idiota dentro do próprio navio. –, sigo muito antes de ratos de porão como você saírem das fraldas.
A ofensa não afetou o emissário. Ao invés, ele sorriu e esperou, conforme o desespero tomava a face do capitão. Como a maioria, havia pensado apenas em uma vida sem sujeira, fome e escorbuto ao se deparar com o chamado. Os tempos em que eles pintaram o sangue de azul, elegendo regularmente quem carregaria o diadema, eram uma lenda distante, quase tão antiga quanto a gênese. Só viam aquilo como um grande saque: nenhum deles, nem os mais sábios, acreditavam que uma retomada os elevaria ao nível dos ancestrais. Acumular especiarias, encher-se de grogue, violar quem andasse pela frente, tudo isso era esperado em diferentes escalas. Mas quando caía a ficha de que era algo mais sólido… Bem, era ali que Hamid os fisgava para sua vontade:
— …Isso lhe preocupa? – verbalizou os pensamentos de Oliver, que apenas concordou com a cabeça. Era tão óbvio, alguém como ele não deveria se entregar aos mesmos impulsos daqueles garotos brincando de pirata. Sua mente, tão afiada quanto nos primeiros dias de comando, não costumava nublar deste jeito. Poderiam as esperanças de uma vida melhor bloqueá-lo tão bem para a verdade? – É para isso que ratos como eu se juntam ao código… para fazê-los acreditarem em si tanto quanto o povo lá fora.
Diante da expressão de dúvida, o homem continuou:
— Pelo pedido de armas, suponho que imaginou um raide como todos os outros, mais a possibilidade de comprar terras com o tamanho do butim. Quer saber a verdade? – fez sinal para descerem do Hangman. Mesmerizado, o capitão esqueceu de seu orgulho enquanto lhe seguia. – Nada disso será necessário, meu caro. Anshar não se prepara para lutar, sequer resistir. Eles lhes desejam, capitão… mais do que tudo, acreditam no espírito dos mares para lhes libertar dos preços abusivos, da fome, das mãos atadas diante do crime… De todos os problemas do mundo.
“Que problemas?”, Rackham pensou. Algum deles havia passado ao menos um dia em alto-mar, sem nada além de um barril d’água, frutas secas e marujos solitários? Se pudesse trocar sua vida por apenas um dia de cão na urbe…
— Ninguém morrerá em nenhum dos lados – embasando as palavras do arauto, caixotes com o rótulo de veneno se espalhavam em maior número pelas docas. – Soníferos para a realeza, pós de cegueira e laxantes para controlar grupos. Com este material desviado por fontes seguras da cidade, nocautearemos os poucos opositores…
— Poucos? Há o suficiente aqui para derrubar a Península inteira! – Hamid ignorou o ponto, continuando seu discurso sobre as justificativas dos fins. Então, de repente, parou. As costas eriçadas, pescoço armado de quem ouvia alguma coisa. – Hamid?
— Perdão. Concluindo, Anshar cairá como um castelo de cartas. Agora, sugiro que siga nosso bom tenente até suas instalações – perto deles, um patente alta esperava o afastamento do capitão para guiá-lo. – os outros estão no salão comunal, discutindo questões como últimos detalhes do derramar, a nova bandeira, requisitos para eleição… Acredito que seu imediato esteja por lá, aproveitando do bom vinho e garotas. Cortesias dos desertos.
Deu-lhe uma piscadela, e pela primeira vez recebeu um sorriso. Rackham Terceiro carregava questionamentos perigosos, mas no final mostrou-se uma mente tão fácil de dominar quanto as outras. Enquanto ele se afastava, o arauto deixou a malícia inundar seu sorriso. Voltou as atenções para a presença que desviara sua atenção, não quebrando sua lábia por um triz:
— Estava me perguntando quando um de vocês apareceria.
Em meio as pilhas, dois orbes verdes como as matas de Kradenish lhe encaravam. Tinham um brilho fosco, como se lhe encarassem a alma por meio de uma camada de vidro. O pouco que se via no rosto sob o capuz eram dentes arreganhados, uma pequena cova se revelando conforme a pele do queixo esticava. Expressão de mais pura ira:
— Servo do Prisioneiro… – disse a criatura. Um olhar mais atento revelaria sombras tremulando sobre seu corpo, envolvendo-a sobre os ombros a partir das costas. Nada se via abaixo do manto, exceto uma poça d’água abaixo dos pés. Em uma segunda análise, filetes seriam detectados sobre a matéria escura, revelando certa solidez enquanto seguiam a gravidade –  Por que não estou surpresa em ver seus dedos nesta palhaçada?
— Palhaçada, você diz – Hamid rolou os olhos, gesticulando feito quem explicava algo óbvio para uma criança – É o que estes musgos tanto desejam, desde o começo dos tempos. Vocês não aprenderam ainda? Quero dizer, para alguém tão próximo do anjo da morte, um pouquinho de sangue derramado não devia…
Aconteceu rápido demais. A encapuzada tornou-se um borrão, e não fosse Hamid igualmente rápido, uma lâmina em forma de ferrão gigante transformaria suas vísceras num kebab. Ela seguiu o salto do arauto com as costas, virando com o cotovelo, mas bastou uma palavra do homem para uma barreira de chamas surgir entre os dois. Gritando mais de surpresa do que dor, a outra figura jogou-se para trás numa lufada de vento. Ao passo que se ajustavam ao tempo perceptível, viu-se que o manto na verdade eram asas, erguidas num arco suave conforme algumas penas de sombras, tão logos caídas, desvaneciam no ar junto do fogo que as consumiam. O corpo e rosto – este revelado no cair do capuz durante a luta – eram de uma mulher. Pele marrom, cabelos negros e pequenos em seu corte marcial.
— O equilíbrio entre a vida e a morte é sensível demais para a compreensão de uma mente derretida… – tinha o braço queimado, mas não fez menção de segurá-lo enquanto falava, timbre ofegante de quem interrompia um exercício – Você envergonha o sacrifício de Nuriel ao desejar a condenação deste mundo, lacaio.
— Agora você retorna ao diálogo? Que conveniente – risos de escárnio partindo do homem. Ao contrário da postura agressiva a sua frente, mantinha-se tão empertigado quanto no início – As muralhas deste mundo-prisão já estão condenadas, todos os celestes sabem disso. O Grande Mishaal, ou “Nuriel”, como queira, só foi o primeiro a não postergar o inevitável. Logo Azrael fará o mesmo.
A mulher avançaria outra vez, sentindo o impulso de arrancar o nome de seu patrono junto dos dentes daquela boca profana, quando sentiu vários olhos pesarem sobre si. Seis fardados em formação defensiva, mosquetes esperando a ordem de Hamid:
— Rapazes, matem logo esta puta das florestas. Aliás, desculpe… você é das arraias, certo? – para quem ao menos ouviu falar de Kradenish, a identidade da moça era um livro aberto: tinha a altura, ombros largos, e a arma que não era uma lâmina em forma de ferrão, mas um espinho genuíno, do tamanho de um antebraço, empunhadura feita com o couro do mesmo animal de quem arrancara o aguilhão em seu ritual de passagem, sendo também pele de arraia seu colete. Além de chegar no Forte do Farol a nado, provavelmente moldando as asas em barbatanas – Então matem logo esta puta do clã arraia. Tenho mais o que fazer…
Virando de costas, o Servo do Prisioneiro fez um gesto preguiçoso para autorizar o disparo. Embora a vontade dela envolvesse persegui-lo, as balas seriam tão fatais num ataque de oportunidade quanto em um humano comum. Ao invés, juntou as mãos e, após uma prece que duraria até o disparo inicial, voltou-se contra os soldados.
“Azrael, faça sua justiça pelas mãos. Que nenhuma alma tombe antes de seu tempo, e que os marcados não sintam dor. Assim seja”.
Encurtou a distância em menos de um segundo, desarmando o primeiro ao lhe virar o pulso. Outro lhe atacou com a baioneta, mas recebeu um corte profundo no antebraço com a ponta do ferrão, largando o mosquete enquanto berrava de dor. O estilo arraia era certeiro, mais rápido do que o pensamento, prevenindo toda a região de ameaça com ferroadas nos punhos, pescoços, atrás dos joelhos, tudo que se revelava entre as esquivas e ripostas. E era uma das melhores guerreiras do clã, Hamid soube no instante que a viu. Poucos eram dignos de receber as bênçãos de Azrael, o Justiceiro… Por isso, deixou-a se distrair com alguns musgos sob sua influência. Como o esforço dela em mantê-los vivos era fútil, pois assim que todos se encontraram caídos, contorcendo um círculo ao redor da moça, ele aproveitou a surpresa e invocou o poder de seu mestre para descer um pilar de chamas no meio do combate, carbonizando tudo em tons de laranja. Os gritos daquela escória, misturados ao choro dela enquanto derretiam; só isso já valia o esforço em fortalecer seu Senhor com aquele golpe de piratas e militares.
— Você não pode deter o ciclo do ódio, criança – em distância segura, deixava o fogo desaparecer do modo que surgiu, longe de afetar quaisquer carregamentos nas docas. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza – A queda de Anshar é apenas o primeiro passo para fora do mundo-prisão.
Em toda sua prepotência, não percebeu como a guerreira havia se coberto com as asas, estas desintegrando depois de receber quase todo o impacto. A tortura, mesmo para membros invocados temporariamente, excruciou feito o quebrar de um milhão de ossos ao mesmo tempo. Ela não esperou o borrão que havia se tornado o mundo solidificar; guiada pela energia infernal emitida pelo Servo, encontrou-o no espaço além dos sentidos e jogou toda a força de Azrael para as pernas. Hamid, acabando de virar as costas – de verdade desta vez –, apenas teve tempo de notar o ataque em sua visão periférica. Fez meia volta, expondo o peito para a arraia, e sentiu o coração explodir. O ferrão entrou tão cirúrgico que o corpo precisou de alguns segundos até processar a dor, esfarelando atrás do esterno, vazando o pulmão esquerdo, tirando os pés do chão quando sua algoz ergueu o espinho com as duas mãos. Aproximou-o bem do rosto chamuscado, devorando o medo que lhe vazava dos olhos com um sorriso rosnado.
— Diga a Azrael que Marini lhe enviou, filhote do inferno – sentenciou em voz gutural, então quebrou sua prece. Aquele marcado sentiria dor. Muita dor.
Nem todas as ondas do mundo abafaram seus lamentos, conforme Marini furava de novo, e de novo, e de novo, e ainda mais quando sentiu o sangue espirrar na pele. Geralmente era o clã jaguar quem deixava os inimigos retalhados iguais caças, mas a arraia fez a exceção… E ninguém no Forte veio auxiliá-lo. Enebriados em seus assuntos de glória, regados a vinho e as mais belas escravas de Abn’Khalid, sequer ouviram o combate. Não eram uma preocupação para ela: com a cabeça decepada, bastava acender o farol para alertar a cidade. Sem a influência do Prisioneiro, poucos apoiariam o golpe. O ciclo do ódio manteria seu tênue equilíbrio.
Assim ela pensava.
Iluminar a ilha não foi empecilho. Passados alguns minutos, refez as asas e planou, sem interferências, como um grande pássaro. Pousou sem ruído, nocauteando a sentinela azarada o suficiente para ficar de fora da algazarra lá embaixo.
Os mares se acenderam num clarão.
Enquanto Marini desaparecia no oceano, mergulhando do alto do farol, o tenente que guiara Rackham chamava um dos guardas:
— Quero esta luz apagada imediatamente. Eu cuido de alertar os capitães, diga aos outros para carregarem os navios. O ataque começa amanhã.
O soldado foi cumprir suas ordens, e o tenente sorriu. Um brilho vermelho nos olhos revelando sua natureza.
— Você não pode deter a Rebelião. Ninguém pode.
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