Andarilho dos Sonhos #2

Este sonho aconteceu durante a madrugada do dia 26 de Janeiro de 2016, também conhecido como “hoje” (na hora que comecei esse texto). É sempre difícil lembrar os detalhes de um sonho lúcido; o que ficam são as impressões mais marcantes, aqueles momentos em que eu de fato me insiro naquele cenário paralelo à realidade. Eu lembro, por exemplo, o que fiz, o que aconteceu, como eram algumas coisas, mas não a motivação por trás delas. É como acordar com uma ideia bruta dentro do cérebro, uma rocha de onde eu tiro lascas para esculpir, sem entender o que há em seu núcleo, mas com a consciência de que uma parte minha jaz dormente naquele centro inalcançável.

Complicado teorizar sobre o que não tem explicação. O fato é que eu tive esse sonho, bem agradável na verdade: nele eu era alguém super popular na faculdade, o típico F O D Ã O. As moças caíam aos meus pés, eu matava aula pra ir no bar, não estudava e mesmo assim tinha um dos C.R mais altos do curso (eu lembro desta genialidade pois um dos figurantes me perguntou). O ponto alto foi numa “choppada”: o cenário era escuro, meio que de boate, provavelmente tecido com as lembranças das que participei quando estudei biomedicina na UNIRIO. E mermão(a)(x), essa foi A FESTA pra mim: beijei cinco e peguei whatsapp de duas! E tudo isso na total lucidez, sentindo na pele aquilo ali, até minha imagem esquecer que se tratava de apenas um sonho.

Aí que vem a parte macabra.

Eu acordei, e naquela sonolência eu continuei me vendo como o cara da balada onírica. Eu lembrei dos cinco beijos e dois whatsapp pois foi sobre estes últimos que me perguntei. “Rapaz, e o zap daquelas minas? Será que eu anotei certo, a gente conversou?”. No que eu pensei em procurar o celular, a compreensão de que nada daquilo foi real se abateu sobre o meu corpo, e aconteceu uma coisa estranha, uma… Acho que uma paralisia. Eu voltei pra cama numa espécie de torpor, nem acordado e nem dormindo, sentindo como se ganchos invisíveis me prendessem ao colchão. Fiquei nesse estado durante duas ou três horas, sem saber onde começava o Heitor Fodão e acabava o Heitor de Verdade. Suspenso entre duas realidades, vendo de um lado o Fodão acessar o whatsapp web (o desktop dele era idêntico ao daqui, porém num quarto maior), e do outro meu eu verdadeiro suando, deitado num ângulo torto em uma cama de lençóis bagunçados. Tive tempo de sobra para pensar sobre esses universos paralelos, e quando finalmente arranquei para longe da cama, veio a compreensão.

E se todo meu esforço, todo meu estudo, for para duas pessoas, vampirizado por outra versão de mim, em outro plano? Alguém com uma sorte e um cérebro extraordinário, sem a menor ideia de que existe um sifão entre dois mundos. Seria possível eu ser como Edward Elric alimentando o corpo verdadeiro de seu irmão? Foi isso que eu enxerguei, na noite que tive o privilégio de viver naquele corpo? Sabe, eu sou ateu, mas neste universo onde não passamos de poeira de estrelas num pontinho azul podem existir coisas… Coisas por onde este andarilho passa e sobrevive para contar.

Espero que não exista um terceiro Heitor fazendo transmutação humana.

Sai pra lá, troca equivalente!

 

 

 

 

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Andarilho dos Sonhos #1

Eu tenho uma ligação muito forte com meus sonhos. Quase todos são lúcidos; eu sinto, executo ações complexas, posso até alterar seu andamento para algo que me favoreça ou livre de enrascadas. Creio que essa habilidade veio na infância, naquela terrível fase onde aprendemos a nos desligar do quarto dos pais.

Não lembro se foram meses ou o ano inteiro. Apenas registrei que, noite após noite, pesadelos me roubavam o descanso. Foram noites de lutar contra as pestanas, sabendo que fechá-las era a passagem de ida para o inferno. A paz vinha quando o cansaço me derrubava como uma pedra sobre o colchão. Sem sonhos, o “dormir” traduzido como “desmaio de emergência”.

Então, no próximo “durma bem”, o ciclo recomeçava. Em algum ponto desta loucura eu aprendi a me defender. Não faço ideia de como desenvolvi este auto-controle, mas tal qual um recorte simples na linha tempo, a Era dos Pesadelos se encerrou. A Era do Andarilho deu seus primeiros passos.

Eu não sou de falar desta peculiaridade. É algo um tanto pessoal, entende? E meio incômodo, pois muito do que acontece nos sonhos se reflete em meu corpo físico. Lembro, por exemplo, de um onde eu me meti numa briga: eu levei um empurrão, e no mesmo instante acordei com as costas estalando na parede (um dos lados da minha cama é “colada” nela). Na verdade eu estava “meio-acordado”, não sei… Como explicar isso?  Tipo ciente da realidade, mas com alguns fios presos no onírico. Pois foi nessa catarse que eu me impulsionei da parede para o colchão, voltei ao sonho e usei o embalo do meu corpo verdadeiro para devolver uma senhora porrada no cidadão. O resultado desta e tantas outras experiências: sono inquieto, corpo se debatendo, dores ao acordar, incômodo para quem dorme do lado, cama de solteiro, outrora arrumada, transformada num amálgama de lençóis e travesseiros digno de um rala-e-rola.

Eis, amigos(a)(x), a grande fonte de minha inspiração! Muito do que escrevi (e do que está anotado para o futuro), veio destas “viagens”. E o contrário também já aconteceu: uma cidade que eu planejei lúcido, em meio aos sonhos, me transformou num de seus cidadãos. Eu vi cada detalhe sórdido da minha mente traduzido nos hábitos daquela gente, eu andei entre multidões, me confessei na Igreja de Santa Ardra, senti os olhares de desprezo das sacerdotisas-fantasmas. Os monstros que criei fizeram questão de me mostrar como estavam vivos. E o rascunho da Cidade Sagrada de Ardra encorpou bastante no dia seguinte.

Agora vocês já sabem. Eu, Heitor V. Serpa, sou um Andarilho de Sonhos. Ou sofredor de paralisia do sono, síndrome de membros inquietos, sei lá… É meio difícil de explicar o inexplicável, mas como diria o poeta, “num sei, só sei que foi assim”. O que tenho certeza é da quantidade de pessoas curiosas sobre como é um sonho lúcido. E nisso eu tenho experiência de sobra. Gostariam de ouvir mais casos? Os mais marcantes que aconteceram, e os que de certo virão a mim nas próximas noites? Talvez, esses relatos sejam uma forma de produzir conteúdo nesta pocilga. Ou numa futura newsletter… Enfim, já tenho uma história engatilhada para publicar nos próximos dias; foi mais uma “experiência sobrenatural” do que um sonho em si. Fiquem ligados, e me desejem bons sonhos. Eles são mais fáceis de atravessar.

Impossível falar de sonhos sem lembrar desse quadro do Van Gogh, podiscre.